Três assuntos aparentemente diferentes movimentaram o Flamengo nas últimas horas.
Uma proposta milionária por Pedro. A renovação encaminhada de Erick Pulgar. E mais uma disputa judicial envolvendo o Vasco e a utilização do Maracanã.
Mercado, contrato e estádio.
À primeira vista, não existe relação entre eles.
Para mim, existe uma relação enorme.
Os três assuntos mostram que o Flamengo precisa aprender, cada vez mais, a proteger aquilo que considera essencial.
Seja um jogador, seja um contrato ou seja a sua própria autonomia.
Pedro: eu não venderia por dinheiro nenhum agora
O Trabzonspor colocou na mesa uma operação que pode chegar a aproximadamente R$ 152 milhões por Pedro, entre valor fixo e bônus.
É muito dinheiro.
E existe outro componente que talvez seja ainda mais importante: a proposta para o jogador prevê um salário aproximadamente quatro vezes superior ao que ele recebe atualmente no Flamengo.
Por isso, essa situação precisa ser tratada pela diretoria com muito cuidado.
Eu não venderia Pedro.
Neste momento, não venderia por dinheiro nenhum.
Não porque R$ 152 milhões sejam pouco. Evidentemente não são.
Mas futebol não é uma planilha na qual basta observar quanto um jogador custou e quanto pode render numa transferência.
Existe contexto.
Pedro é fundamental para o Flamengo. É decisivo, faz gols, conhece o clube, está completamente adaptado e vive uma temporada de enorme importância.
O Flamengo está disputando Campeonato Brasileiro e Libertadores. Está justamente entrando na fase em que os grandes jogadores começam a decidir campeonatos.
Qual seria o sentido de receber R$ 152 milhões agora e sair ao mercado tentando encontrar outro Pedro?
Quanto custaria um centroavante com a mesma capacidade?
E, principalmente, quem garante que esse jogador chegaria e entregaria imediatamente?
Por outro lado, seria ingenuidade ignorar o que essa proposta pode representar para Pedro.
Quando alguém oferece quatro vezes aquilo que você recebe atualmente, é natural que os olhos se abram.
Por isso eu não trataria essa situação com arrogância.
O Flamengo precisa conversar com Pedro, entender o que ele pensa e demonstrar o tamanho da importância que ele possui dentro do projeto.
Às vezes, proteger um ativo significa também fazê-lo sentir-se valorizado.
Pulgar: o Flamengo corrigiu um erro
Com Erick Pulgar, vejo exatamente o movimento contrário — e considero que o Flamengo acertou.
A renovação encaminhada até 2028, acompanhada de valorização salarial, protege um atleta extremamente importante para o funcionamento da equipe.
Pulgar tem 32 anos?
Tem.
E daí?
Ele continua sendo titular absoluto.
Praticamente todos os treinadores que passaram pelo Flamengo encontraram no chileno uma peça fundamental.
Pulgar tem intensidade, qualidade técnica, leitura de jogo, poder de marcação e uma característica que, para mim, combina profundamente com o Flamengo.
Ele tem DNA rubro-negro.
É competitivo. É intenso. Não se esconde. Entendeu o clube e criou identificação com a torcida.
O problema é que o Flamengo havia permitido que a multa para uma transferência internacional chegasse a apenas US$ 4 milhões, aproximadamente R$ 20 milhões. Clubes do Oriente Médio passaram a olhar para a situação justamente porque se tratava de um valor extremamente baixo para um titular desse nível.
Isso foi um erro.
E não existe problema algum em dizer que foi um erro quando o próprio clube está tratando de corrigi-lo.
Pior seria insistir nele.
Ao avançar pela renovação, o Flamengo protege um jogador importante e recupera poder sobre seu próprio patrimônio.
Aqui está a ligação com Pedro.
Com Pedro, o Flamengo precisa ter força para dizer “não quero vender”. Com Pulgar, precisava impedir que uma cláusula contratual praticamente retirasse do clube o direito de dizer não.
Patrimônio esportivo também se protege no papel.
Maracanã: administrar não significa ser dono
E aí chegamos à parte que mais me incomoda.
Eu escuto constantemente que “o Maracanã é a casa do Flamengo”.
Não é.
Pode ser o estádio onde o Flamengo construiu alguns dos capítulos mais importantes da sua história.
Pode ser o lugar no qual milhões de rubro-negros criaram memórias inesquecíveis.
Pode ser o palco com maior identificação histórica com o clube.
Mas o Maracanã pertence ao Governo do Estado do Rio de Janeiro.
Flamengo e Fluminense possuem uma concessão para administrá-lo. Isso é muito diferente de serem donos.
E o episódio envolvendo o Vasco volta a deixar essa diferença evidente.
A gestão Fla-Flu recusou o pedido para Vasco x Vitória porque havia uma programação técnica para recuperação de um gramado que está em péssimas condições.
A própria defesa apresentada pela concessionária afirma que a janela de manutenção havia sido estabelecida antes do pedido vascaíno. O Vasco, por sua vez, entende possuir direitos de utilização previstos em acordo anterior e novamente buscou o Judiciário.
O Vasco tem direito de procurar a Justiça?
Evidentemente que tem.
Se entende que possui um direito contratual, deve defendê-lo.
O que me incomoda é algo maior.
Por que uma administração que possui responsabilidade sobre o estado do gramado não consegue simplesmente determinar uma janela técnica de recuperação e ter segurança de que aquela decisão será cumprida?
Esse tipo de disputa envolvendo Vasco, Flamengo, Fluminense e Maracanã não começou agora. A judicialização sobre a utilização e administração do estádio aparece repetidamente há anos.
E isso demonstra o limite da palavra “casa”.
A Copa do Mundo de 2027 deixa isso ainda mais claro
Existe um exemplo ainda mais contundente.
O Maracanã receberá pelo menos a final da Copa do Mundo Feminina de 2027.
Existe um contrato firmado envolvendo FIFA, Governo do Estado, Prefeitura e CBF.
O chamado período de proteção do gramado prevê 28 dias sem partidas antes do primeiro jogo realizado no estádio. Já o período de uso exclusivo da FIFA começa 14 dias antes da primeira partida, além de obrigações posteriores ao último jogo.
Flamengo e Fluminense questionaram essas condições.
A FIFA procurou o Governo do Estado para exigir o cumprimento das obrigações assumidas.
Isso é propriedade?
Não.
Isso é concessão.
Existem regras, obrigações e poderes acima da vontade dos clubes que administram o estádio.
É por isso que discordo de Bap
E é exatamente aqui que entra uma divergência que tenho com a atual gestão.
Recentemente, Bap voltou a falar sobre o estádio próprio do Flamengo e projetou algo em torno de 15 a 20 anos para viabilizar financeiramente sua construção.
Um dos argumentos utilizados é justamente a segurança proporcionada pelo fato de o Flamengo ainda possuir mais de 18 anos de concessão do Maracanã.
Eu entendo a preocupação financeira.
Não defendo quebrar o Flamengo para construir um estádio.
Não defendo sacrificar o futebol, transformar o clube em SAF ou colocar em risco décadas de recuperação financeira.
Mas discordo da ideia de que possuir quase duas décadas de Maracanã significa que o Flamengo possui quase duas décadas de casa garantida.
Porque concessão não é propriedade.
O Flamengo participa dos custos.
Participa da manutenção.
Investe em estrutura.
Responde pelo gramado.
Administra partidas.
Assume responsabilidades.
Mas, no momento decisivo, não possui soberania sobre aquele patrimônio.
Para mim, isso muda completamente a discussão.
Quando você tem sua própria casa, pode existir legislação, regras de segurança e obrigações públicas — evidentemente.
Mas a decisão estratégica sobre aquele patrimônio é sua.
No Maracanã, nunca será completamente assim.
Pedro, Pulgar e Maracanã falam sobre a mesma coisa
É por isso que esses três assuntos, para mim, estão conectados.
Pedro é um patrimônio esportivo que eu não abriria mão neste momento.
Pulgar é um patrimônio esportivo que o Flamengo acertou ao proteger contratualmente.
E o Maracanã representa um patrimônio que o Flamengo pode administrar por quase duas décadas, gastar dinheiro, melhorar, preservar e transformar — mas que nunca será realmente seu.
Um grande clube precisa possuir capacidade de decisão.
Precisa poder olhar uma proposta por Pedro e dizer: não.
Precisa olhar um contrato de Pulgar e garantir que ninguém o leve por um valor incompatível com sua importância.
E precisa chegar o dia em que o Flamengo possa olhar para seu estádio e dizer:
aqui, quem decide é o Flamengo.
O Maracanã é parte da história rubro-negra.
Mas história e propriedade são coisas diferentes.
E um clube com mais de 40 milhões de torcedores não deveria abandonar o sonho de ter uma casa verdadeiramente sua.
Pode levar tempo.
Pode exigir responsabilidade.
Pode precisar de um grande parceiro e de um projeto financeiro muito bem construído.
Mas, para mim, esse precisa continuar sendo um objetivo estratégico.
Porque proteger aquilo que é seu começa por uma condição básica:
ser realmente seu.




