Os bastidores do Flamengo continuam incendiados. Depois da divulgação dos números financeiros do clube, a preocupação aumentou ainda mais. A gestão de Luiz Eduardo Baptista, o Bap, e José Boto já ultrapassou a marca de R$ 900 milhões investidos em contratações. É praticamente R$ 1 bilhão gasto em pouco mais de um ano e meio de trabalho.

É um número assustador para uma gestão que chegou ao Flamengo prometendo profissionalização, eficiência e maior responsabilidade na utilização dos recursos do clube. Entretanto, o que vemos atualmente são decisões questionáveis, conflitos públicos e um elenco que ainda apresenta lacunas, mesmo depois de tamanho investimento.

Enquanto os problemas dentro de campo aumentam, Bap entra em discussões públicas com Leila Pereira. São declarações, respostas e notas oficiais de um lado e do outro. Uma troca de acusações que pouco acrescenta ao futebol do Flamengo e que, na visão do Fla Opina, funciona como uma cortina de fumaça para desviar a atenção dos verdadeiros problemas do clube.

Não é a primeira vez que isso acontece. Quando o Flamengo entra em crise, surgem notícias sobre possíveis contratações milionárias, disputas com outros clubes e movimentações no mercado. Enquanto o torcedor discute quem pode chegar, as questões mais importantes acabam ficando em segundo plano: o desempenho ruim do time, a insatisfação nos bastidores, as escolhas da diretoria e o dinheiro que vem sendo gasto.

José Boto chegou ao Flamengo com fama de grande especialista em scouting e negociações. Foi apresentado como um dirigente capaz de encontrar jogadores por valores mais baixos, antecipar-se aos concorrentes, convencer atletas e construir um elenco com potencial de valorização.

Até agora, porém, essa característica não apareceu de forma convincente.

O que vemos são contratações extremamente caras, jogadores que ainda não entregaram o retorno esportivo esperado e operações que dificilmente produzirão lucro em uma futura venda. O Flamengo paga valores muito acima daqueles praticados em negócios realizados por outros clubes brasileiros e sul-americanos.

É verdade que a fama de clube milionário acaba inflacionando qualquer negociação envolvendo o Flamengo. Quando o Rubro-Negro demonstra interesse, os valores aumentam. Justamente por isso José Boto foi contratado: para negociar, persuadir, encontrar alternativas e impedir que o clube pagasse qualquer quantia exigida pelos vendedores.

Mas onde está essa capacidade de negociação?

Mais de R$ 900 milhões em contratações representam um investimento gigantesco. Mesmo assim, o Flamengo ainda procura jogadores para posições importantes e continua dependendo de novas operações milionárias para tentar corrigir o elenco.

Algumas contratações também causam preocupação pela possibilidade de perda de valor de mercado. Jorge Carrascal, por exemplo, chegou por uma cifra elevada e ainda precisa demonstrar que pode entregar um retorno proporcional ao investimento. Lucas Paquetá é um grande jogador, mas foi contratado por um valor histórico e, pela fase da carreira, dificilmente será vendido no futuro por uma quantia superior àquela investida pelo Flamengo.

Isso não significa que esses atletas não possam dar retorno esportivo. Significa que, quando o clube paga valores tão altos, a margem para erro diminui drasticamente. O jogador precisa decidir partidas, conquistar títulos e justificar o investimento dentro de campo.

A grande pergunta é: o Flamengo não está dando passos maiores do que as próprias pernas?

O clube continua possuindo enorme capacidade de arrecadação, uma torcida gigantesca e receitas superiores às da maioria dos seus concorrentes. Mas isso não significa que possa gastar sem limites ou comprometer receitas futuras sem considerar os riscos.

Contratações parceladas não deixam de ser dívidas. O dinheiro que será recebido nos próximos anos já começa a ser comprometido com operações feitas hoje. Caso os resultados esportivos não apareçam, as receitas diminuam ou os jogadores não se valorizem, o problema poderá surgir mais adiante.

A gestão Bap e José Boto chegou com o discurso de profissionalizar o Flamengo. Depois de quase R$ 1 bilhão investido, o que o torcedor espera é competência, equilíbrio, títulos e um elenco à altura dos valores gastos.

O Flamengo não pode transformar sua força financeira em fraqueza. Gastar muito não é sinônimo de contratar bem. E continuar utilizando discussões públicas e especulações de mercado para afastar o foco dos problemas internos não resolverá a crise.

Os números deixam um alerta ligado. O Flamengo ainda é uma potência, mas precisa tomar cuidado para não caminhar em direção a um precipício financeiro criado pelas próprias decisões.