O Flamengo tinha o jogo nas mãos. Abriu 2 a 0 contra o Santos, na noite de quinta-feira (8), na Vila Belmiro, controlou boa parte da partida e criou oportunidades suficientes para conquistar mais três pontos no Campeonato Brasileiro.
Mas o futebol tem uma regra que não está escrita em nenhum regulamento: quem não mata o jogo corre o risco de pagar caro.
E o Flamengo pagou.
Só que, desta vez, não foi apenas pela falta de eficiência diante do gol. Na minha avaliação, Anderson Daronco acabou assumindo um protagonismo que deveria pertencer exclusivamente aos jogadores.
O Flamengo dominou, mas faltou a última bola
O primeiro tempo mostrou um Flamengo organizado, superior em boa parte das ações e capaz de controlar o adversário mesmo atuando fora de casa.
Danilo abriu o placar. Lucas Paquetá ampliou. O placar de 2 a 0 era consequência de uma equipe que conseguiu transformar sua superioridade em vantagem.
No segundo tempo, Neymar entrou e mudou a postura ofensiva do Santos. O adversário passou a atacar mais, ganhou confiança e procurou encurralar o Flamengo.
Ainda assim, não considero que o Rubro-Negro tenha perdido completamente o controle da partida.
O Flamengo continuou encontrando espaços, criando oportunidades e chegando ao ataque. Faltou aquilo que separa uma vitória tranquila de um sofrimento desnecessário: eficiência.
Um time que disputa o título brasileiro precisa saber aproveitar esses momentos. Diante de um adversário pressionado e obrigado a atacar, as oportunidades aparecem.
E foi justamente aí que o Flamengo falhou.
A vantagem era confortável, mas não definitiva. O time precisava fazer o terceiro gol, encerrar a discussão e não permitir que o adversário continuasse vivo.
Então Anderson Daronco entrou na história
Existe uma diferença entre o árbitro participar de uma partida e acabar se tornando o personagem principal dela.
Para mim, Daronco ultrapassou essa linha.
O lance envolvendo Jorginho resume boa parte da minha insatisfação com a arbitragem brasileira.
O meio-campista recebeu a bola pressionado, em situação complicada, e sofreu uma entrada de Rony. Na minha interpretação, houve uma falta que deveria ter sido marcada naquele momento.
Jorginho caiu e, durante a queda, acabou tocando a bola com a mão sobre a linha da grande área.
É importante separar as coisas.
Não estou discutindo se houve contato entre a mão e a bola. Houve.
A questão é como esse contato aconteceu.
Jorginho não estendeu deliberadamente o braço para interceptar uma jogada. Na minha leitura, a mão encontrou a bola como consequência do movimento de queda provocado pelo choque com o adversário.
A própria Regra 12 do futebol determina que nem todo contato da mão com a bola constitui infração. É necessário considerar a posição do braço e se ela decorre naturalmente do movimento corporal.
Portanto, mesmo que Daronco não tivesse identificado a falta anterior, ainda seria necessário analisar a natureza daquele toque.
E aí surge a pergunta: a arbitragem avaliou adequadamente toda a sequência ou concentrou sua decisão apenas no contato da mão com a bola?
Pênalti, expulsão e uma partida transformada
O VAR chamou Daronco, houve uma revisão demorada e o árbitro confirmou a penalidade.
Até aí, já existia uma discussão importante.
Mas o Flamengo ainda perdeu Jorginho, expulso na sequência do lance.
Na prática, o Rubro-Negro recebeu dois golpes: sofreu o pênalti e passou a jogar com um atleta a menos.
Isso não significa que pênalti e expulsão sejam sempre incompatíveis com a regra. Significa que a punição disciplinar exige uma justificativa específica.
Na minha avaliação, não havia uma oportunidade clara de gol que sustentasse uma expulsão por esse fundamento, nem um movimento deliberado de Jorginho para impedir a jogada com a mão.
Por isso, considero que toda a decisão mereça uma explicação técnica muito mais convincente.
Neymar cobrou e diminuiu para 2 a 1.
A partir daquele momento, o Santos encontrou um adversário fragilizado. Com superioridade numérica e jogando em casa, passou a pressionar com muito mais intensidade.
O que era um jogo encaminhado transformou-se em um confronto completamente diferente.
E o segundo pênalti?
Poucos minutos depois, veio outra decisão que considero extremamente discutível.
Luiz Araújo disputou uma bola com Gabriel Barbosa. Houve contato entre os jogadores e Gabigol caiu.
Daronco interpretou a jogada como pênalti.
Na minha leitura, foi um contato insuficiente para justificar uma penalidade tão determinante. Uma disputa física dentro da área não deve ser automaticamente transformada em infração simplesmente porque um jogador termina no chão.
Neymar, evidentemente, não tinha nada com isso.
Cobrou novamente, converteu e garantiu o empate por 2 a 2.
O atacante cumpriu seu papel. Aproveitou as oportunidades que recebeu e foi decisivo para o Santos.
Minha crítica não é a Neymar, nem à reação santista.
Minha crítica está nos critérios adotados pela arbitragem.
Sete minutos para decidir um lance é tempo demais
Outro aspecto que precisa ser discutido é a demora na análise do primeiro pênalti.
Uma revisão que, segundo a percepção da transmissão e da sequência em campo, consumiu vários minutos acaba interferindo diretamente no ritmo da partida.
O VAR existe para corrigir erros claros e importantes. Não deveria transformar cada decisão em uma espera interminável, cercada de reclamações, discussões e paralisações.
Daronco ainda concedeu um período extenso de acréscimos, em uma partida que já havia perdido fluidez.
O Campeonato Brasileiro precisa discutir a qualidade e a agilidade de seus procedimentos de revisão.
Não basta ter tecnologia. É necessário utilizá-la com critérios transparentes, decisões compreensíveis e tempo de resposta razoável.
O Flamengo perdeu dois pontos. E o Palmeiras agradece
O empate levou o Flamengo aos 61 pontos, mas deixou a disputa pela liderança mais delicada.
O Palmeiras, principal perseguidor rubro-negro, entrou na rodada com 57 pontos e enfrentou o Bahia na mesma noite.
Naquele momento, com o adversário paulista em vantagem no placar, o empate na Vila Belmiro ganhava um peso ainda maior.
O Flamengo tinha condições de sair de Santos com os três pontos. Não conseguiu.
E aqui faço questão de dividir as responsabilidades.
O Flamengo errou ao não aproveitar as oportunidades para matar a partida. Faltou frieza e eficiência quando ainda tinha o controle do confronto.
Mas, na minha avaliação, também enfrentou decisões de arbitragem que mudaram profundamente as condições do jogo.
O árbitro não pode ser maior que o espetáculo
Há uma característica da arbitragem de Anderson Daronco que há muito tempo me incomoda: a forma como suas atuações frequentemente se tornam o centro das discussões.
Para mim, o bom árbitro é aquele que aplica a regra, administra a partida e permite que os jogadores sejam os protagonistas.
Em Santos x Flamengo, minha percepção foi outra.
A demora, a condução dos lances e as decisões nos dois pênaltis colocaram Daronco em uma posição de destaque que nenhum árbitro deveria desejar.
Não tenho como afirmar qual era sua intenção. Mas posso avaliar o resultado de sua atuação.
E considero que o resultado foi ruim para o futebol.
O Flamengo deixou escapar uma vitória que deveria ter construído com mais autoridade. Só que também viu uma partida mudar completamente depois de decisões que continuam exigindo explicações.
No fim, o Santos comemorou a reação, Neymar foi decisivo e o Flamengo voltou para casa com dois pontos a menos do que poderia conquistar.
Mas a pergunta que fica não é apenas por que o Flamengo não fez o terceiro gol.
É por que, mais uma vez, estamos discutindo tanto o árbitro quanto o futebol.
Por Rogério Sampaio — Portugal




