O Flamengo mudou. Não apenas nos resultados, mas principalmente na forma como passou a se comportar dentro de campo. Depois de semanas de atuações irregulares, críticas ao modelo de jogo e sinais de desconforto, diretoria, comissão técnica e lideranças do elenco participaram de conversas internas para corrigir pontos que vinham prejudicando o rendimento da equipe.

Segundo apuração de Rodrigo Mattos, do UOL, houve uma revisão de rota em diferentes níveis. A avaliação interna foi de que erros haviam sido cometidos pela diretoria, pelo técnico Leonardo Jardim e também pelos jogadores. Não houve uma reunião única de “lavagem de roupa suja” com o treinador, mas conversas e ajustes de comportamento nos bastidores. Jogadores experientes, como Jorginho e Danilo, tiveram participação nesse processo.

O momento de reflexão coincidiu com o período sem jogos depois da eliminação na Copa do Brasil. Foi nessa janela que o Flamengo ganhou tempo para reorganizar conceitos e recuperar características que haviam desaparecido. A equipe vinha atuando de maneira mais direta e com menor controle da posse, cenário que também passou a ser revisto internamente.

Antes disso, declarações públicas já mostravam que o próprio grupo entendia a necessidade de mudança. Varela falou sobre a necessidade de “voltar às bases”, enquanto Danilo defendeu autocrítica depois da sequência de resultados abaixo do esperado. O período sem partidas passou, então, a ser tratado como oportunidade para reorganizar a equipe.

Leonardo Jardim chegou ao Flamengo com suas próprias ideias e naturalmente buscou imprimir sua identidade. Durante o período de maior dificuldade, porém, aumentou o debate sobre a compatibilidade entre o modelo pretendido pelo treinador e as características de um elenco acostumado a pressionar alto, controlar a bola e ocupar o campo adversário.

A mudança começou a aparecer quando Jardim promoveu ajustes. Contra o Cruzeiro, no Mineirão, o Flamengo voltou a mostrar pressão mais alta e maior disposição para assumir o jogo mesmo atuando fora de casa. Depois, diante do Mirassol, novamente longe do Maracanã, o comportamento foi ainda mais agressivo e terminou em uma goleada por 5 a 1.

A melhora não ficou restrita à posse de bola. O time apresentou maior compactação, participação coletiva e eficiência ofensiva. Um Flamengo que vinha encontrando dificuldades para transformar volume em gols mostrou outra dinâmica nas partidas mais recentes.

Outra questão também entrou na revisão interna. A busca pública por reforços de grande impacto, como Thiago Almada e Luiz Henrique, gerou desconforto em atletas que já ocupavam esses setores. Internamente, houve a percepção de que falar publicamente sobre determinadas carências poderia transmitir aos próprios jogadores uma sensação de desvalorização.

A declaração de Leonardo Jardim sobre a necessidade de uma alternativa para Arrascaeta também foi considerada um equívoco dentro desse contexto. O elenco já possuía jogadores capazes de exercer funções semelhantes, e a exposição da necessidade de reforço acabou colocando essas opções sob questionamento.

A reação recente não significa que todos os problemas estejam resolvidos. O Flamengo entra na fase mais pesada da temporada e terá pela frente uma decisão contra o Cruzeiro pela Libertadores. Duas boas atuações não apagam automaticamente tudo que aconteceu anteriormente.

Mas a transformação na postura é perceptível.

O mais importante talvez tenha sido entender que ajustar conceitos não significa abandonar a identidade de Leonardo Jardim. Significa encontrar uma forma de utilizar as ideias do treinador sem retirar justamente as maiores virtudes de um elenco montado para disputar títulos.