Quando um time consegue o reconhecimento até do proprietário do adversário, alguma coisa precisa ser observada.
Foi exatamente o que aconteceu depois da classificação do Flamengo diante do Cruzeiro.
Pedro Lourenço, dono da SAF do Cruzeiro, reconheceu a superioridade do Flamengo, admitiu que o Rubro-Negro mereceu vencer e ainda desejou sorte ao clube, dizendo que vai torcer para que o Flamengo seja campeão da Libertadores.
E eu considero isso uma atitude extremamente lúcida.
É muito difícil encontrar esse tipo de postura no futebol brasileiro. Normalmente, depois de uma eliminação, começa a procura por desculpas: arbitragem, calendário, gramado, um lance específico, qualquer coisa que possa diminuir o mérito de quem venceu.
Pedrinho fez justamente o contrário.
Reconheceu que o Flamengo foi melhor.
E quando esse reconhecimento vem de quem acabou de ser eliminado, ele ganha ainda mais peso.
Porque não estamos falando aqui de um torcedor do Flamengo, de um jornalista rubro-negro ou de alguém tentando valorizar o próprio clube. Estamos falando do proprietário do adversário olhando para o jogo e dizendo: o Flamengo mereceu.
E mereceu mesmo.
Principalmente no primeiro tempo, nós vimos um Flamengo extremamente intenso. Um Flamengo que pressionou, ocupou o campo ofensivo, recuperou a bola rapidamente e praticamente não deixou o Cruzeiro jogar.
Houve momentos em que parecia que só existia um time dentro do Maracanã.
O Cruzeiro conseguiu reagir no segundo tempo, encontrou o empate e tornou o confronto novamente perigoso. Mas até aí existe um aspecto positivo a ser observado.
O Flamengo não se perdeu.
Depois de sofrer o gol, conseguiu novamente assumir o controle da partida, voltou a atacar e encontrou o gol da classificação.
Isso também mostra maturidade.
E talvez seja justamente aí que esteja a principal mudança que estamos vendo neste Flamengo.
Esse time vinha de momentos de instabilidade. Houve erros, atuações abaixo do esperado, decisões que geraram dúvidas e uma sensação de que elenco, comissão técnica e direção nem sempre estavam caminhando exatamente na mesma direção.
Só que aconteceu uma movimentação interna importante.
Houve conversa. Houve cobrança. Houve alinhamento entre lideranças do elenco, comissão técnica e diretoria.
Alguns pontos que estavam confusos começaram a ser esclarecidos.
E o resultado começou a aparecer dentro de campo.
O Flamengo voltou a apresentar intensidade. Voltou a ter organização. Voltou a mostrar um time que sabe o que precisa fazer com a bola e, principalmente, o que precisa fazer quando perde a bola.
Não estou dizendo que todos os problemas desapareceram.
Ainda existem coisas para corrigir.
Mas hoje nós enxergamos novamente um Flamengo com cara de candidato aos dois principais títulos da temporada: Campeonato Brasileiro e Libertadores da América.
E isso chama ainda mais atenção porque foi exatamente o que aconteceu em 2025.
O Flamengo foi campeão brasileiro e campeão da Libertadores.
Agora, em 2026, está novamente vivo e competitivo nas duas principais frentes.
E é aí que eu faço uma pergunta:
O Flamengo está construindo uma hegemonia no futebol brasileiro e sul-americano?
Porque dinheiro sozinho não constrói hegemonia.
Dinheiro ajuda. Evidentemente que ajuda.
Permite contratar grandes jogadores, manter um elenco mais profundo, oferecer melhores condições de trabalho e competir por jogadores que outros clubes não conseguem contratar.
Mas nós já vimos vários clubes ricos fracassarem.
O desafio é transformar dinheiro em futebol.
É transformar investimento em organização.
É transformar grandes jogadores em um grande time.
E talvez esse seja o principal ponto do Flamengo neste momento.
Quando esse elenco está concentrado, organizado e disposto a competir durante os 90 minutos, é muito difícil enfrentá-lo.
Muito difícil.
Porque o adversário não precisa apenas lidar com onze bons jogadores. Precisa enfrentar um elenco extremamente qualificado, jogadores capazes de decidir individualmente e uma equipe que, quando consegue impor intensidade, sufoca.
Foi o que aconteceu contra o Cruzeiro no primeiro tempo.
O Cruzeiro é um grande time. Tem qualidade, investimento e jogadores importantes.
Mesmo assim, durante boa parte da primeira etapa, praticamente não conseguiu respirar.
Isso diz muita coisa.
E não é apenas sobre esse jogo.
Nos últimos anos, o Flamengo acumulou títulos importantes, voltou a disputar decisões com frequência e, em 2025, tornou-se o primeiro clube brasileiro a conquistar quatro Libertadores.
Não significa que vai ganhar sempre.
Isso não existe no futebol.
Palmeiras, Corinthians, Fluminense, Cruzeiro e outros grandes clubes também possuem capacidade de competir e vencer.
Mas existe diferença entre dizer que um clube vai ganhar tudo e dizer que ele se tornou o time a ser batido.
E hoje, para mim, o Flamengo é o time a ser batido.
No Brasil e também na América do Sul.
Quando começa uma competição, qualquer análise de candidatos ao título obrigatoriamente precisa colocar o Flamengo entre os primeiros nomes.
Quando um adversário entra em campo contra o Flamengo, sabe que precisará apresentar um nível muito alto para vencer.
E quando até o proprietário de um grande adversário reconhece publicamente essa superioridade depois de uma eliminação, isso mostra o respeito que esse Flamengo voltou a conquistar.
Agora existe também uma responsabilidade.
Porque chegar ao topo é difícil.
Permanecer lá é ainda mais.
Se o Flamengo tiver uma gestão consciente, continuar profissionalizando suas decisões, evitar transformar poder financeiro em desperdício e conseguir manter sintonia entre diretoria, comissão técnica e elenco, essa posição pode durar muitos anos.
O clube tem receita.
Tem torcida.
Tem estrutura.
Tem elenco.
Tem capacidade de investimento.
E começa novamente a demonstrar organização dentro de campo.
Quando todas essas forças caminham juntas, o Flamengo passa a ter algo que dinheiro sozinho não compra:
uma cultura de vitória.
É por isso que eu acredito que hoje o Flamengo é, sim, o time a ser batido no futebol brasileiro e sul-americano.
Não porque seja invencível.
Não porque vá ganhar todos os campeonatos.
Mas porque, para conquistar os principais títulos hoje, existe uma enorme possibilidade de que, em algum momento, você tenha que passar pelo Flamengo.
E talvez o maior sinal disso tenha vindo justamente de quem acabou de tentar.
O Cruzeiro enfrentou.
Foi eliminado.
E seu próprio proprietário reconheceu:
o Flamengo foi melhor.
Quando o adversário reconhece isso, talvez seja porque o respeito já ultrapassou as arquibancadas.
Virou respeito dentro do futebol.




