Flamengo e Vasco sempre foram rivais.
Isso não é novidade.
O que mudou é o terreno dessa rivalidade.
Durante décadas, Flamengo x Vasco foi decidido principalmente dentro de campo. Campeonato Carioca, Brasileirão, finais, provocações, ídolos, goleadas e jogos históricos construíram um dos maiores clássicos do futebol brasileiro.
Hoje, porém, existe outro campeonato sendo disputado.
E ele acontece nos tribunais, nos escritórios, nos órgãos reguladores e nos bastidores políticos.
A relação entre as atuais administrações de Flamengo e Vasco chegou a um nível de desgaste em que praticamente qualquer assunto envolvendo os dois clubes transforma-se em novo capítulo de uma guerra institucional.
E talvez nunca isso tenha ficado tão evidente quanto agora.
O Flamengo mexeu numa ferida sensível do Vasco
Uma das discussões mais delicadas envolve o futuro da SAF cruz-maltina.
A Anresf abriu um procedimento para analisar possível conflito de propriedade relacionado à negociação do Vasco com o grupo de Marcos Lamacchia, enteado de Leila Pereira, presidente do Palmeiras.
A investigação ainda não significa condenação.
Esse ponto precisa ficar claro.
Mas o órgão considerou necessário adotar medidas preventivas enquanto analisa o caso.
Entre elas, restrições a novas relações financeiras do Vasco com empresas ligadas ao conglomerado Crefisa e limitações a negócios envolvendo Palmeiras e Vasco.
Esse assunto já seria enorme sozinho.
Só que existe um detalhe político impossível de ignorar:
o Flamengo já havia levantado questionamentos sobre essa relação.
E, a partir daí, a temperatura entre as diretorias subiu ainda mais.
Pedrinho respondeu. Bap foi à Justiça
As críticas ultrapassaram o campo administrativo.
Pedrinho passou a atacar diretamente Bap.
Chamou o presidente do Flamengo de mau-caráter, arrogante, prepotente, soberbo, hipócrita e irresponsável.
Bap decidiu não responder apenas através de entrevistas.
Foi à Justiça.
O presidente rubro-negro cobra indenização mínima de R$ 40 mil e uma retratação pública.
A partir desse momento, uma disputa política entre clubes virou também uma disputa pessoal entre seus presidentes.
Esse talvez seja um dos elementos mais perigosos de toda essa história.
Quando presidentes começam a personalizar conflitos institucionais, decisões administrativas correm o risco de ganhar também um componente emocional.
E é justamente aí que entram os acontecimentos seguintes.
O Maracanã virou mais um campo de batalha
O Vasco quis utilizar o Maracanã contra o Vitória pela Copa do Brasil.
A administração Fla-Flu negou o pedido, alegando necessidade de preservação do gramado.
O Vasco não aceitou.
Foi à Justiça.
Perdeu.
Terminou jogando em São Januário.
Juridicamente, o episódio acabou.
Politicamente, não.
O Vasco saiu indignado.
E, segundo apuração do Fla Opina, existe agora a intenção de endurecer a postura no próximo clássico contra o Flamengo com mando vascaíno.
A prioridade seria São Januário.
Caso o BEPE não autorize a realização da partida por razões de segurança, o Nubank Parque, estádio do Palmeiras em São Paulo, aparece como possibilidade.
É aqui que todas essas histórias começam a se encontrar.
O que seria uma coincidência isolada virou um cenário político
Separadamente, cada episódio pode ser explicado.
O processo de Bap contra Pedrinho é uma questão pessoal.
A investigação da Anresf envolve regras de propriedade e integridade.
O Maracanã envolve administração do estádio.
A possível utilização de São Januário envolve mando de campo.
Uma eventual alternativa no Nubank Parque envolveria disponibilidade e logística.
Tudo isso pode ser analisado individualmente.
Mas futebol não acontece dentro de compartimentos isolados.
Existe contexto.
E o contexto atual mostra um Vasco cada vez mais distante politicamente do Flamengo e, ao mesmo tempo, com relações cada vez mais próximas do universo empresarial e esportivo ligado ao Palmeiras.
Isso não significa que exista uma aliança formal.
Também não significa que exista irregularidade.
Mas é impossível fingir que essa movimentação não tem repercussão política.
O Flamengo também escolheu o confronto
Seria confortável colocar toda a responsabilidade dessa guerra nas mãos do Vasco.
Não seria justo.
O Flamengo também decidiu atuar de forma mais agressiva institucionalmente.
Bap tem adotado uma postura muito diferente de administrações rubro-negras anteriores.
O clube questiona dívidas, regras, relações financeiras e decisões que entende poderem afetar a integridade das competições.
Ao levantar dúvidas sobre a situação vascaína, o Flamengo sabia que pisaria numa área extremamente sensível.
Pedrinho interpretou essas movimentações como ataques ao Vasco.
Bap entende que está defendendo os interesses do Flamengo e a aplicação das regras.
São visões incompatíveis.
E quando nenhuma das partes demonstra disposição para recuar, o resultado é exatamente aquilo que estamos assistindo.
A rivalidade mudou de dimensão
Existe algo curioso nisso tudo.
Flamengo e Vasco vivem momentos esportivos e financeiros completamente diferentes.
O Flamengo tornou-se uma das maiores potências econômicas da América do Sul.
O Vasco ainda tenta reconstruir sua estrutura financeira depois do fracasso da 777 e busca um novo controlador para sua SAF.
Essas diferenças aumentam a tensão.
Quando o Flamengo cobra responsabilidade financeira, o Vasco interpreta como interferência.
Quando o Vasco busca alternativas de financiamento, o Flamengo questiona se determinadas estruturas respeitam as regras de integridade.
Quando o Maracanã é negado, o Vasco vê abuso de poder.
Quando Pedrinho parte para ataques pessoais, Bap recorre à Justiça.
Tudo virou combustível.
E o Palmeiras entrou no meio dessa guerra
Talvez esse seja o ingrediente mais interessante.
Historicamente, a grande rivalidade nacional recente do Flamengo não é com o Vasco.
É com o Palmeiras.
Os dois clubes disputaram protagonismo esportivo e financeiro durante quase uma década.
Libertadores, Brasileiros, Supercopas e mercado da bola colocaram Flamengo e Palmeiras em lados opostos repetidamente.
Agora, justamente enquanto Flamengo e Vasco entram numa guerra institucional, o clube cruz-maltino se aproxima de pessoas e empresas ligadas ao universo palmeirense.
Marcos Lamacchia negocia a SAF.
Crefisa aparece em operações financeiras.
A Anresf investiga possível conflito.
E o Nubank Parque surge como possível alternativa para um clássico que o Vasco pode não querer disputar no Maracanã.
Não é preciso criar teoria nenhuma.
Os fatos já produzem uma narrativa politicamente explosiva.




