O futebol brasileiro vai passar por mudanças.
Hoje é quase impossível assistir a uma partida, olhar para uma camisa, acompanhar uma transmissão ou consumir conteúdo esportivo sem encontrar alguma marca ligada ao mercado de apostas.
As bets entraram definitivamente no futebol.
Passaram a patrocinar clubes, campeonatos, programas esportivos, transmissões de televisão, plataformas digitais, canais de YouTube e diferentes profissionais ligados ao esporte.
Por isso, quando se fala no fim das casas de apostas no Brasil, a discussão não pode ser limitada à seguinte pergunta: quem vai substituir o patrocinador da camisa?
O problema é muito maior.
Não é uma discussão sobre moralidade
Antes de qualquer coisa, esta coluna não pretende discutir se apostar é certo ou errado.
Também não pretende entrar numa disputa política sobre a decisão tomada pelo governo.
Essa é outra discussão.
O objetivo aqui é olhar exclusivamente para o futebol e fazer uma pergunta muito mais prática:
como ficará o futebol brasileiro depois das bets?
Nesta sexta-feira, 25 de setembro, o presidente da República assinou uma Medida Provisória com o objetivo de encerrar a operação das apostas online no país. A medida escolhida foi uma MP, e não um projeto de lei.
Existe ainda uma particularidade nessa história.
As apostas esportivas de quota fixa haviam sido legalizadas no Brasil em 2018. Em dezembro de 2023, o atual governo sancionou uma nova legislação que estruturou a regulamentação do setor e incluiu os jogos online no modelo regulado.
Desde janeiro de 2025, apenas empresas autorizadas pelo Ministério da Fazenda podem operar nacionalmente.
Ou seja, empresas pagaram autorizações, entraram no mercado regulamentado e firmaram contratos de vários anos com clubes e empresas de comunicação.
Agora esse cenário pode mudar completamente.
Não entro aqui no mérito de dizer se essa decisão é correta ou incorreta.
Mas do ponto de vista econômico, o futebol terá uma conta enorme para resolver.
Um em cada três reais comerciais veio das bets
Os números ajudam a dimensionar o problema.
Em 2025, as casas de apostas colocaram aproximadamente R$ 1,03 bilhão nos clubes da Série A do Campeonato Brasileiro.
As receitas comerciais totais desses clubes foram de aproximadamente R$ 3,069 bilhões.
Isso significa que, naquele ano, cerca de um em cada três reais arrecadados comercialmente pelos clubes da Série A veio das bets.
Não estamos falando de uma receita pequena.
Estamos falando de um setor que se tornou, em pouquíssimo tempo, um dos principais financiadores comerciais do futebol brasileiro.
E a dependência não desapareceu em 2026.
Na véspera da decisão do governo, 14 dos 20 clubes da Série A exibiam marcas de casas de apostas no espaço mais valorizado de suas camisas.
Flamengo mostra o tamanho da transformação
Talvez nenhum clube demonstre melhor essa mudança do que o Flamengo.
Em agosto de 2025, a Betano assumiu o patrocínio master rubro-negro em um contrato válido até o final de 2028.
São R$ 268,5 milhões fixos por temporada, no maior contrato de patrocínio do futebol brasileiro.
Para colocar esse número em perspectiva, antes da Betano o Flamengo recebia aproximadamente R$ 125 milhões anuais da Pixbet pelo espaço principal da camisa.
Praticamente dobrou o valor.
É claro que o Flamengo encontrará empresas interessadas caso o espaço fique disponível.
Um clube com mais de 40 milhões de torcedores não ficará sem patrocinador.
Essa não é a questão.
A questão é encontrar alguém disposto a pagar R$ 268,5 milhões por ano.
Essa diferença pode representar dezenas ou até mais de uma centena de milhões de reais a menos por temporada.
Corinthians também tem contrato longo
O Corinthians está em situação parecida.
A Esportes da Sorte renovou seu contrato com o clube até o final de 2029.
O acordo prevê R$ 150 milhões fixos por ano, podendo chegar a aproximadamente R$ 200 milhões anuais mediante bônus e metas.
Flamengo e Corinthians não estão sozinhos.
Entre os maiores acordos do país aparecem ainda Palmeiras, São Paulo e Fluminense.
No início deste ano, os cinco maiores contratos master declarados eram de aproximadamente R$ 268,5 milhões do Flamengo, até R$ 200 milhões do Corinthians, R$ 170 milhões do Palmeiras, R$ 113 milhões do São Paulo e até R$ 86 milhões do Fluminense.
O problema é evidente.
Empresas tradicionais podem querer patrocinar esses clubes.
Mas quantas empresas brasileiras estão preparadas para colocar R$ 100 milhões, R$ 150 milhões ou quase R$ 270 milhões por temporada numa camisa de futebol?
O problema não termina nos clubes
É aqui que acredito estar o ponto mais ignorado desta discussão.
Se as bets saíssem apenas das camisas, os clubes teriam um grande problema.
Mas elas estão muito além das camisas.
As casas de apostas investem em televisão aberta, TV paga, rádio, streaming, publicidade digital, mídia externa e propriedades esportivas.
Em 2025, somente TV aberta, TV paga e rádio receberam aproximadamente R$ 1,4 bilhão em publicidade das empresas do setor.
Estimativas mais amplas do mercado colocam os gastos anuais das bets com publicidade e patrocínio entre R$ 5,8 bilhões e R$ 8,8 bilhões.
TVs e plataformas de streaming podem receber até aproximadamente R$ 2,3 bilhões por ano desse mercado.
É muito dinheiro.
Efeito cascata
Por isso eu falo em efeito cascata.
Uma casa de apostas patrocina um clube.
Também compra publicidade na emissora que transmite o clube.
Patrocina o programa que debate aquele clube.
Coloca dinheiro no canal digital que comenta o campeonato.
Investe em influenciadores, jornalistas, narradores, páginas e produções esportivas.
Quando esse dinheiro sai, ele não desaparece apenas de um contrato.
Ele desaparece de uma cadeia.
Na quinta-feira anterior à decisão, empresas de apostas já haviam alertado não apenas clubes, mas também veículos como Globo, Band e RedeTV sobre possíveis rompimentos de contratos caso a proibição fosse confirmada.
É isso que torna a situação tão diferente.
Jornalistas e canais digitais também entram na conta
Hoje existe uma economia paralela ao futebol tradicional.
Canais esportivos no YouTube possuem equipes inteiras.
Há jornalistas independentes, podcasts, programas digitais e transmissões que empregam apresentadores, produtores, editores, operadores de câmera e profissionais de redes sociais.
Parte desse ecossistema também recebe dinheiro de casas de apostas.
Talvez algumas dessas empresas encontrem outros anunciantes rapidamente.
Outras não.
Uma grande emissora possui escala para procurar novos setores da economia.
Um canal independente pode não ter a mesma facilidade.
Por isso, quando falamos em perdas, não estamos falando apenas de milionários clubes de futebol.
Existe uma cadeia de profissionais que pode sentir a mudança.
“Os clubes encontrarão outros patrocinadores”
Provavelmente encontrarão.
Esse argumento faz sentido até determinado ponto.
Flamengo, Corinthians, Palmeiras e outros gigantes continuarão sendo ativos publicitários extremamente valiosos.
O problema não é saber se haverá outro patrocinador.
O problema é saber quanto esse patrocinador pagará.
O próprio mercado de apostas já dava sinais de concentração antes dessa discussão.
Entre 2025 e 2026, houve redução da presença das bets no espaço master de alguns clubes da Série A, enquanto os maiores investimentos passaram a se concentrar principalmente nas equipes de maior exposição.
Isso demonstra que nem o próprio setor conseguiria manter indefinidamente os mesmos níveis de investimento em todo mundo.
Agora imagine substituir todo esse mercado de uma só vez.
Contratos foram feitos para durar anos
Outro ponto precisa ser considerado.
Esses acordos não foram fechados mês a mês.
O Flamengo tem vínculo com a Betano até o final de 2028.
O Corinthians renovou com a Esportes da Sorte até 2029.
O Fluminense também possui acordo de longo prazo com a Superbet.
São contratos que entraram no planejamento financeiro dos clubes.
Receitas previstas para temporadas futuras ajudam dirigentes a decidir folha salarial, contratações, investimentos em estrutura e compromissos financeiros.
Quando uma receita desse tamanho desaparece antes da hora, o clube precisa ajustar o orçamento.
Os mais organizados conseguem absorver melhor.
Os que já gastam acima do que arrecadam podem ter dificuldade muito maior.
É aí que mora o risco de endividamento.
Não sabemos ainda o tamanho da conta
É cedo para dizer que o futebol brasileiro entrará em colapso.
Também seria exagerado afirmar que todos os clubes entrarão em crise.
O futebol existia antes das bets e continuará existindo depois delas.
Mas também seria ingenuidade acreditar que bilhões de reais podem desaparecer de uma indústria sem produzir consequências.
As bets chegaram rapidamente.
Elevaram os valores dos contratos rapidamente.
E agora podem sair também rapidamente.
O mercado precisará encontrar um novo equilíbrio.
Talvez bancos ocupem parte desse espaço.
Talvez empresas farmacêuticas, energia, varejo, tecnologia e outros segmentos aumentem seus investimentos.
Talvez os próprios clubes criem novas propriedades comerciais.
Mas dificilmente isso acontecerá de um dia para o outro.




