O futebol brasileiro mudou muito nos últimos anos.
E não estou falando apenas de resultados dentro de campo.
Mudou financeiramente, tecnicamente, ganhou visibilidade, ganhou poder de negociação e começou a ocupar um espaço que durante muito tempo parecia distante.
Hoje o Brasil está muito à frente da maior parte do futebol sul-americano.
Os clubes brasileiros dominam as principais competições do continente, conseguem contratar jogadores importantes, oferecem salários que já competem com mercados europeus e passaram a ser uma opção real para atletas que poderiam continuar jogando fora do país.
Isso não aconteceu da noite para o dia.
Foram anos de crescimento de receitas, patrocínios maiores, novos contratos de transmissão, estádios cheios, programas de sócios, internacionalização das marcas e clubes tentando se organizar melhor.
O futebol brasileiro finalmente começou a perceber o tamanho que realmente tem.
Jogar no Brasil deixou de significar ganhar muito menos
Durante muito tempo, a conta era simples.
Um jogador brasileiro se destacava e recebia uma proposta europeia. A diferença financeira era tão grande que praticamente não existia escolha.
Hoje essa distância diminuiu.
Não estou dizendo que o Brasil compete financeiramente com os grandes clubes da Inglaterra, Espanha ou com os gigantes da Europa.
Ainda existe uma diferença enorme.
Mas em comparação com vários mercados europeus, principalmente Portugal, essa diferença já não é aquela de antigamente.
Hoje existem jogadores no futebol brasileiro recebendo salários próximos de €300 mil, €400 mil ou até mais por mês quando se somam salário, direitos de imagem, luvas e outros valores do contrato.
Um jogador recebendo R$ 2 milhões por mês já está em uma faixa superior a €300 mil mensais na cotação atual.
Isso é dinheiro de futebol europeu.
E talvez seja por isso que começamos a ver outro movimento.
Jogadores brasileiros que poderiam continuar na Europa começam a considerar voltar.
Estrangeiros também olham para o Brasil como uma opção de carreira.
Não apenas para terminar a carreira, mas para competir.
O Brasil também virou vitrine internacional
Outro número mostra bem essa transformação.
Na Copa do Mundo de 2026, 32 jogadores que atuavam na Série A brasileira foram convocados.
Foi um recorde histórico.
E o mais interessante é que 25 desses jogadores defenderam seleções estrangeiras.
Isso significa que o Brasileirão deixou de ser acompanhado somente pelo brasileiro.
Quando um uruguaio joga aqui, o Uruguai acompanha.
Quando um colombiano disputa a artilharia do Campeonato Brasileiro, a imprensa colombiana acompanha.
Quando um equatoriano é convocado atuando por um clube brasileiro, o Equador passa a olhar para nosso campeonato.
O futebol brasileiro ganhou relevância internacional.
E ainda existe muita margem para crescer.
Imagine esse futebol com uma moeda mais forte
Essa é uma reflexão que sempre faço.
O futebol brasileiro consegue pagar salários extremamente altos mesmo trabalhando com uma moeda muito mais fraca que o euro e o dólar.
Imagine se nossa realidade econômica fosse diferente.
Imagine um real com um poder de compra muito mais próximo das principais moedas internacionais.
Até onde o futebol brasileiro poderia chegar?
Na minha visão, estaríamos disputando jogadores com algumas das principais ligas do mundo com muito mais frequência.
Porque torcida nós temos.
Audiência nós temos.
Estádios nós temos.
Paixão nós temos.
Mercado consumidor nós temos.
Jogadores nós formamos.
O que historicamente sempre pesou contra o Brasil foi principalmente a diferença econômica.
Mesmo com essa diferença, o futebol brasileiro conseguiu crescer.
É justamente por isso que algumas mudanças precisam ser feitas com muito cuidado.
Mudar é necessário. Mas mudar errado também custa caro
A CBF aprovou uma redução gradual no número de estrangeiros que podem ser relacionados pelos clubes.
Hoje são nove.
Esse número vai cair até chegar a cinco em 2030.
Uma das justificativas é abrir mais espaço para jogadores brasileiros, principalmente jovens.
A intenção parece boa.
O problema é saber se o resultado será realmente esse.
Os números mostram que a minutagem dos jogadores brasileiros sub-23 caiu nos últimos anos.
Isso merece atenção.
Mas será que simplesmente diminuir a quantidade de estrangeiros vai fazer esses jovens aparecerem?
Eu tenho muita dúvida.
Portugal mostra que estrangeiro e formação podem conviver
Olhe para Portugal.
Quase 70% dos jogadores da primeira divisão portuguesa são estrangeiros.
Não existe uma limitação parecida com a que o Brasil está criando.
Mesmo assim, Portugal continua formando jogadores.
Benfica, Sporting e Porto seguem revelando talentos, vendendo jovens por valores gigantescos e abastecendo grandes clubes europeus.
Então existe alguma coisa nessa conta que não fecha.
Se estrangeiro fosse necessariamente o responsável por impedir a formação de jogadores locais, Portugal teria deixado de revelar talentos há muito tempo.
E não deixou.
Isso mostra que talvez o problema esteja em outro lugar.
O problema começa antes do jogador chegar ao profissional
Na minha opinião, é aqui que o futebol brasileiro precisa olhar.
Não adianta esperar o jogador chegar aos 20, 21 ou 22 anos e depois tentar resolver tudo criando uma vaga artificial no elenco profissional.
A formação começa muito antes.
É preciso melhorar categorias de base.
Criar competições melhores.
Dar estrutura.
Criar projetos de transição.
Ter equipes B ou outros caminhos para jogadores que já saíram da base, mas ainda não estão prontos para disputar espaço imediatamente em Flamengo, Palmeiras, Corinthians ou qualquer outro grande clube.
É preciso fazer esse jogador chegar ao profissional preparado.
Porque simplesmente tirar um estrangeiro do elenco não transforma automaticamente um garoto em jogador de alto nível.
Essa vaga pode até aparecer.
Mas qualidade não se cria por decreto.
Jovem também precisa virar ativo do clube
Existe ainda outro ponto.
Formar jogador é também formar patrimônio.
Um jovem bem preparado pode ajudar dentro de campo e ainda se tornar um ativo extremamente valioso para o clube.
O Brasil já faz isso muito bem em vários casos.
Mas ainda vende muitos jogadores cedo demais.
Às vezes o garoto estreia, joga poucas partidas e já está vendido para a Europa.
Depois olhamos para o Campeonato Brasileiro e perguntamos:
“Cadê os jovens?”
Muitos já foram embora.
Esse também é um problema que precisa entrar nessa discussão.
O futebol brasileiro chegou longe demais para errar agora
Hoje o Brasil domina o futebol sul-americano.
Os clubes brasileiros chegam às competições internacionais com enorme poder de investimento.
O Campeonato Brasileiro atrai estrangeiros importantes.
Jogadores daqui chegam à Copa do Mundo defendendo várias seleções.
Brasileiros que atuam fora começam a enxergar o retorno como uma possibilidade real.
Isso levou muito tempo para ser construído.
E pode ser perdido muito mais rápido do que imaginamos.
Mudanças radicais sempre precisam ser analisadas com cuidado.
Porque algumas decisões tomadas com a intenção de corrigir um problema podem acabar criando dois ou três outros.




