O Flamengo encontrará na Vila Belmiro um Santos muito diferente daquele que enfrentou no primeiro turno do Campeonato Brasileiro.
Naquele dia, no Maracanã, o Flamengo venceu por 3 a 1. Pedro, Jorginho e Lucas Paquetá marcaram os gols rubro-negros.
Mas olhar apenas para aquele resultado seria cometer um erro.
O Santos que entrará em campo agora é mais forte, mais experiente, mais qualificado e vive um momento muito diferente da equipe que esteve no Rio de Janeiro em abril.
Arthur chegou.
Rodinei chegou.
Philippe Coutinho chegou.
Neymar tenta voltar.
E Gabriel Barbosa está lá.
Gabigol.
Talvez nenhum nome transforme tanto esse jogo para o torcedor do Flamengo quanto o dele.
Ídolo é ídolo
Eu não tenho dificuldade nenhuma para dizer isso.
Gabigol é ídolo do Clube de Regatas do Flamengo.
Com sua irreverência, suas provocações, suas comemorações, seus exageros e até suas maluquices, Gabriel Barbosa escreveu uma história que não pode ser apagada.
Foram 161 gols e 13 títulos com a camisa rubro-negra.
Mas números, nesse caso, contam apenas parte da história.
Em 2019, quando o Flamengo parecia caminhar para perder a final da Libertadores para o River Plate, Gabigol marcou duas vezes nos minutos finais em Lima.
Virou o jogo.
Virou uma final.
E ajudou a mudar a história recente do Flamengo.
Três anos depois, em Guayaquil, apareceu novamente.
Marcou o gol da vitória sobre o Athletico-PR e colocou outra Libertadores na Gávea.
São três gols em finais de Libertadores pelo Flamengo.
Isso não é pouco.
Isso coloca qualquer jogador numa posição especial na história de um clube.
Gabigol saiu do Flamengo, mas aquilo que fez vestindo vermelho e preto não saiu com ele.
Mas quinta-feira ele estará do outro lado
E é justamente aí que o futebol exige maturidade.
O torcedor pode amar Gabigol.
Pode sentir saudade.
Pode querer vê-lo novamente com a camisa do Flamengo no futuro.
Pode fazer campanha nas redes sociais por seu retorno.
Pode reconhecer tudo aquilo que ele representou.
Mas na quinta-feira ele será adversário.
E um adversário perigoso.
Gabigol vem de dois gols na vitória do Santos sobre o São Paulo no Morumbis.
O primeiro empatou o clássico praticamente imediatamente depois de o Santos sair atrás.
O segundo virou a partida.
É o tipo de atuação que sempre combinou com ele.
Gabriel Barbosa gosta de jogo grande.
Gosta de ambiente pesado.
Gosta de provocar.
Gosta de ser personagem.
E certamente Santos x Flamengo terá todos esses ingredientes.
Este Santos é outro
O Flamengo precisa entender principalmente isso.
Não encontrará apenas Gabigol.
Encontrará um Santos que foi bastante reforçado durante a temporada.
Arthur acrescentou qualidade e experiência ao meio-campo.
Rodinei, outro velho conhecido do Flamengo, oferece profundidade pelo lado direito e chega depois de anos importantes no futebol europeu.
Coutinho estreou diante do São Paulo e já participou da construção da jogada do segundo gol de Gabigol.
E Neymar continua trabalhando para tentar voltar justamente contra o Flamengo.
Se estiver liberado, mesmo que ainda sem condições para atuar durante 90 minutos, sua presença muda completamente a forma de preparar uma partida.
É Neymar.
Não existe como tratar sua presença como algo comum.
O Santos também tem Gabriel Brazão, goleiro que considero excelente e que já fez grandes partidas pelo clube. Neste momento, porém, ele trata um problema no ombro e não esteve no clássico contra o São Paulo, quando Diógenes assumiu a posição.
Ou seja: não é um time construído apenas em torno de um nome.
O Santos ganhou alternativas.
Ganhou experiência.
E principalmente ganhou confiança.
O primeiro turno não serve como parâmetro
Por isso, a vitória por 3 a 1 no primeiro turno pouco diz sobre aquilo que veremos agora.
A camisa é a mesma.
O escudo é o mesmo.
Mas a equipe mudou.
O Flamengo também mudou.
E chegará à Vila Belmiro sem Giorgian De Arrascaeta, que passou por cirurgia depois da fratura no punho sofrida durante a Data Fifa.
A ausência de Arrascaeta pesa.
Sempre pesará.
Estamos falando de um dos jogadores capazes de decidir uma partida com uma jogada.
Leonardo Jardim terá de reorganizar o time justamente num jogo que promete exigir qualidade técnica e personalidade.
Não é o tipo de partida em que basta olhar para a tabela e considerar o Flamengo favorito.
É preciso jogar.
E existe a Vila Belmiro
Também não podemos esquecer onde será o jogo.
A Vila tem suas particularidades.
Campo apertado.
Torcida muito próxima.
Pressão.
Jogo acelerado.
É um estádio onde qualquer momento de desconcentração pode transformar completamente uma partida.
E agora existe um Santos acreditando novamente em si.
Isso muda tudo.
Uma equipe que estava procurando caminhos começa a olhar para cima.
Os jogadores começam a acreditar.
O torcedor começa a acreditar.
E quando confiança encontra talento, o adversário fica perigoso.
Gratidão até a bola rolar
Gabigol merece respeito.
Merece reconhecimento.
E quando sua carreira terminar, continuará fazendo parte da história do Flamengo.
Isso ninguém tira.
Mas futebol não se joga olhando para trás.
Quando a bola rolar, Gabriel Barbosa será o camisa 9 do Santos tentando marcar contra o Flamengo.
E o Flamengo terá de tratá-lo exatamente dessa forma.
Sem ressentimento.
Sem ingratidão.
Mas também sem romantismo.
É adversário.
Assim como Neymar será adversário se jogar.
Rodinei será adversário.
Arthur será adversário.
Coutinho será adversário.
O Flamengo entra na rodada como líder do Campeonato Brasileiro, com 60 pontos e três de vantagem sobre o Palmeiras.
Esse é o contexto que realmente importa.
O campeonato entrou numa fase em que cada ponto pesa.
E enfrentar um Santos em crescimento, dentro da Vila Belmiro, será uma das provas mais difíceis dessa reta final.
Vai precisar ser Flamengo
Eu espero um jogo muito complicado.
Talvez mais complicado do que muita gente imagina.
O Santos melhorou.
Tem jogadores capazes de decidir individualmente.
Está confiante.
Joga em casa.
E ainda poderá colocar Neymar em campo.
Do outro lado estará um Flamengo líder, pressionado pela necessidade de continuar somando pontos e sem um de seus principais jogadores.
É nesses jogos que o tamanho de um candidato ao título aparece.
Não significa necessariamente jogar bonito.
Significa entender o tamanho da partida.
Gabigol estará lá.
Um dos grandes ídolos da história recente do Flamengo estará vestindo outra camisa e tentando impedir o Rubro-Negro de sair da Vila Belmiro com três pontos.
Que depois do jogo venha o carinho.
Que depois do jogo venha o respeito.
Mas durante os 90 minutos não existe passado.
Existe Flamengo.
E, para continuar controlando a própria caminhada pelo título brasileiro, vai precisar ser muito Flamengo na Vila Belmiro.




