O Flamengo iniciou uma das maiores mudanças administrativas de sua história recente.

Na noite desta terça-feira, 15 de setembro, o Conselho Deliberativo aprovou a reforma estatutária que institucionaliza o modelo de gestão profissional do clube. Foram 643 votos favoráveis, 47 contrários e seis abstenções. A aprovação alcançou 92,39% dos votos.

A dimensão da votação é importante porque a mudança vai muito além da contratação de executivos.

O Flamengo altera a forma como distribui responsabilidades entre presidente, conselhos e profissionais contratados para administrar o clube. Na prática, sai de cena parte do modelo histórico baseado em vice-presidentes temáticos e ganha força uma estrutura mais próxima da governança utilizada por grandes organizações empresariais — sem que o clube deixe de ser uma associação civil.

A reforma teve origem no projeto denominado “Profissionalismo”, apresentado pelo presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, e posteriormente trabalhado pela Comissão Permanente de Estatuto.

Segundo o próprio Flamengo, foram analisados 15 blocos de emendas, reunindo 98 sugestões apresentadas por associados. Aproximadamente três quartos dessas propostas foram incorporados total ou parcialmente antes da votação definitiva.

O que muda na administração do Flamengo

A ideia central da nova estrutura é separar três funções que historicamente muitas vezes se misturavam dentro dos clubes brasileiros: governar, supervisionar e executar.

O Conselho e a presidência permanecem responsáveis pelas grandes diretrizes institucionais. A execução cotidiana, porém, passa a ficar concentrada em uma Diretoria Profissional composta por executivos remunerados e selecionados segundo critérios técnicos.

Duas funções passam a ocupar o centro desse modelo.

O Diretor-Geral ficará responsável pela gestão corporativa do Flamengo.

O Diretor de Futebol responderá pelo futebol profissional e pelas categorias de base.

Esses executivos deixam de funcionar simplesmente como auxiliares de vice-presidentes políticos e passam a ocupar funções formalmente previstas dentro da estrutura do clube.

A mudança também significa o fim das tradicionais vice-presidências temáticas, como futebol, finanças e outras áreas específicas.

Segundo levantamento publicado nesta quarta-feira pelo UOL, a nova organização prevê 18 áreas administradas por profissionais, que poderão funcionar por meio de diretorias ou gerências.

É provavelmente uma das alterações mais visíveis do novo modelo.

Durante décadas, clubes brasileiros utilizaram dirigentes não remunerados, escolhidos principalmente dentro de grupos políticos, para comandar áreas que passaram a movimentar centenas de milhões de reais.

O Flamengo entende agora que essa estrutura não é mais suficiente para uma organização que registra receitas anuais superiores a R$ 2 bilhões.

Surge o Conselho Gestor

Outra mudança importante é a criação formal do Conselho Gestor, o COGE.

Esse órgão terá a missão de acompanhar a atuação da Diretoria Profissional e analisar temas como estratégia, metas, indicadores, riscos, estrutura organizacional e gestão de pessoas.

O Conselho Gestor não foi desenhado para administrar diretamente o cotidiano de cada departamento. A proposta é funcionar como uma camada de supervisão entre a estratégia institucional e os executivos encarregados da operação.

Segundo o ge, o COGE será formado pelo presidente e vice-presidente do Flamengo, um Procurador-Geral e entre nove e 12 integrantes indicados pelo presidente para mandato de três anos.

O presidente também terá poder para nomear e destituir esses integrantes.

Esse é justamente um dos pontos que provocaram debate durante a construção da reforma.

Defensores do projeto argumentam que a nova estrutura reduz interferências políticas na operação cotidiana e cria responsabilidades mais claras.

Críticos, por outro lado, manifestaram preocupação com uma possível concentração de poder na presidência, principalmente pela capacidade de escolha dos integrantes do Conselho Gestor e pelas prerrogativas mantidas pelo mandatário em determinadas decisões.

Presidente continua forte, principalmente no futebol

Profissionalizar a gestão não significa retirar o presidente das principais decisões.

No departamento de futebol, essa separação será particularmente limitada.

O diretor responsável pelo futebol poderá estruturar planejamento, sugerir contratações e organizar a operação esportiva, mas decisões relevantes continuam submetidas à presidência.

Rodrigo Mattos, no UOL, destaca que negociações envolvendo compras e vendas de jogadores permanecem sob o crivo do presidente.

Portanto, a nova estrutura não cria um diretor de futebol completamente independente.

Ela profissionaliza a função e elimina parte da antiga intermediação política das vice-presidências, mas preserva a autoridade final do presidente em decisões estratégicas.

Flamengo passa a pensar além do orçamento de um ano

Talvez uma das mudanças menos chamativas para o torcedor, mas mais importantes administrativamente, esteja no planejamento financeiro.

O orçamento anual passa a fazer parte de uma estrutura mais ampla.

O novo modelo prevê um Plano Estratégico para três anos, uma visão para cinco anos e indicadores destinados a acompanhar o desempenho institucional.

Isso significa que decisões relevantes deixam de ser observadas apenas dentro de uma temporada ou exercício financeiro.

Contratações, investimentos, obras, expansão comercial, estrutura administrativa e outros projetos poderão ser analisados dentro de um horizonte maior.

Também foram aprovadas restrições financeiras específicas para os últimos seis meses de mandato presidencial, segundo informações publicadas pelo UOL.

O objetivo é diminuir o risco de uma administração comprometer financeiramente períodos que serão conduzidos pela gestão seguinte.

Transparência passa a estar prevista na estrutura

A reforma também prevê a criação obrigatória de um Portal de Governança e Transparência.

O Flamengo informou ainda que haverá ampliação das regras contra nepotismo e novas restrições para associados que tenham ocupado cargos eletivos e pretendam posteriormente ingressar na Diretoria Profissional.

A proposta inclui períodos de quarentena justamente para tentar separar atividade política e contratação profissional dentro da estrutura executiva.

São mecanismos importantes porque profissionalização não depende apenas de substituir dirigente voluntário por executivo remunerado.

Também exige critérios de contratação, fiscalização, prestação de contas e mecanismos capazes de reduzir conflitos de interesse.

Conselhos continuam existindo

A reforma não elimina os órgãos políticos e de fiscalização do Flamengo.

O Conselho Deliberativo continuará sendo a principal instância para decisões estruturantes previstas no Estatuto e ganhará atribuições relacionadas à aprovação das Políticas de Governança.

O Conselho de Administração continuará exercendo suas funções e participará da revisão prévia dessas políticas.

O Conselho Fiscal permanece responsável pela fiscalização econômico-financeira.

Portanto, o desenho aprovado tenta estabelecer duas camadas diferentes.

Os órgãos associativos definem, fiscalizam e supervisionam.

Os executivos profissionais administram e executam.

Essa é a essência da reforma.

Flamengo não virou SAF

Outro ponto precisa ficar absolutamente claro.

O Flamengo não se transformou em SAF.

A reforma não altera a natureza jurídica do clube, que continua sendo uma associação civil pertencente aos seus associados.

Não há venda de ações, entrada de proprietário ou transferência do controle do futebol para investidores.

A mudança acontece dentro da própria estrutura associativa.

É justamente isso que torna o projeto diferente de muitos movimentos recentes do futebol brasileiro.

O Flamengo tenta profissionalizar a operação sem abrir mão do controle associativo.

Em vez de mudar quem é dono do clube, decidiu mudar a forma como o clube é administrado.

A mudança começa agora, mas o teste será mais longo

A aprovação estatutária encerra uma etapa importante, mas não responde sozinha se o novo modelo funcionará.

Estruturas organizacionais não tomam decisões.

Pessoas tomam.

Um Conselho Gestor pode melhorar supervisão ou simplesmente criar mais uma camada de poder. Um diretor profissional pode melhorar eficiência ou cometer os mesmos erros de um dirigente político. Um portal de transparência pode aumentar o acesso à informação ou se tornar apenas uma obrigação formal.

Por isso, a avaliação real desse novo Flamengo dependerá menos dos nomes dos cargos e mais da qualidade dos profissionais escolhidos, da independência da fiscalização e da capacidade de responsabilizar quem toma decisões.

O próprio modelo aprovado tenta criar ferramentas para isso.

Agora será necessário demonstrar que elas funcionam.