Flamengo e Corinthians não protagonizaram apenas um dos jogos de maior repercussão da última rodada do Campeonato Brasileiro.
A vitória rubro-negra por 2 a 1 no Maracanã também terminou como a partida com maior tempo de bola rolando da 27ª rodada da Série A: 64 minutos e 22 segundos, segundo levantamento da Opta.
O número chama atenção porque supera em mais de 11 minutos a média registrada pelo Campeonato Brasileiro antes da pausa para a Copa do Mundo e aparece justamente poucas rodadas depois da entrada em vigor de novas medidas destinadas a combater a cera e acelerar as reposições de bola.
Os primeiros números indicam que alguma coisa começou a mudar.
Antes da interrupção do Brasileirão para a Copa, as partidas da Série A tinham, em média, 52 minutos e 54 segundos de bola rolando.
No primeiro fim de semana com aplicação das novas regras, pela 23ª rodada, a média dos nove primeiros jogos saltou para 55 minutos e 29 segundos.
Na rodada mais recente, a 27ª, o campeonato registrou 55 minutos e 5 segundos de tempo efetivo.
Não houve, portanto, uma escalada contínua de rodada para rodada. Mas o patamar permanece superior ao registrado antes das mudanças.
Mudanças começaram depois da Copa
As novas regras passaram a ser aplicadas na Série A em agosto de 2026, a partir da 23ª rodada, depois da pausa do calendário brasileiro para a Copa do Mundo.
As alterações fazem parte das mudanças aprovadas pelo International Football Association Board, o IFAB, órgão responsável pelas leis do futebol, com o objetivo de reduzir interrupções e combater estratégias utilizadas para consumir tempo sem a bola em jogo.
A CBF aproveitou o período para implementar também protocolos específicos no futebol brasileiro.
O foco não está apenas em aumentar os acréscimos.
A intenção é impedir que o tempo seja perdido antes que a bola volte a rolar.
Entre as medidas adotadas está a contagem regressiva de cinco segundos para arremessos laterais e tiros de meta quando o árbitro identifica atraso deliberado.
Se o lateral não for cobrado dentro do período após o início da contagem, a posse passa para o adversário. No tiro de meta, a punição é mais pesada: o adversário recebe um escanteio.
Também houve mudança nas substituições. O jogador que deixa a partida deve fazê-lo rapidamente, pelo ponto mais próximo, e a CBF estabeleceu um protocolo de dez segundos para a saída.
Outra medida ataca diretamente um dos recursos historicamente utilizados para retardar partidas: o atendimento médico.
O jogador atendido dentro de campo precisa deixar o gramado e permanecer um minuto fora antes de retornar, salvo exceções previstas na regra.
Quando o atendimento é ao goleiro, um jogador de linha da mesma equipe pode ser obrigado a cumprir esse período fora, justamente para evitar que o atendimento ao arqueiro seja utilizado como forma gratuita de interromper o jogo.
Oito segundos é outra regra
Existe ainda uma mudança que pode gerar confusão.
Os cinco segundos aplicados a laterais e tiros de meta não são a mesma regra dos oito segundos para o goleiro.
Desde a alteração anterior das leis do jogo, o goleiro pode controlar a bola com as mãos por até oito segundos.
O árbitro faz uma contagem visual dos últimos cinco.
Caso o goleiro ultrapasse o limite de oito segundos, a equipe adversária recebe um escanteio.
São mecanismos diferentes, mas todos seguem a mesma filosofia: tornar mais caro esportivamente desperdiçar tempo.
Antes, muitas dessas situações terminavam apenas em advertências verbais, cartões ou acréscimos.
Agora, algumas delas podem resultar diretamente na perda da posse ou até em um escanteio para o adversário.
Flamengo x Corinthians foi além da média
O confronto no Maracanã mostrou até onde o tempo efetivo pode chegar.
Com 64min22 de bola rolando, Flamengo x Corinthians ficou mais de nove minutos acima da média da própria rodada.
E não foi a única partida acima de uma hora.
Grêmio x Vasco registrou 61min26, enquanto Santos x Cruzeiro chegou a 60min48.
Três partidas da mesma rodada, portanto, ultrapassaram a marca simbólica de 60 minutos efetivos que a FIFA utiliza como referência para melhorar o ritmo do futebol.
Esse talvez seja o sinal mais interessante desta primeira fase de aplicação das mudanças.
Antes da Copa, nenhuma das grandes ligas analisadas pela CBF atingia uma média de 60 minutos.
Naquele momento, a Premier League registrava 55min23, LaLiga 55min09, Serie A italiana 54min28, enquanto Bundesliga e Ligue 1 estavam em 56min17.
O Brasileirão aparecia abaixo dessas referências, com seus 52min54.
A primeira rodada brasileira sob as novas regras chegou a 55min29, colocando momentaneamente a Série A em uma faixa semelhante ou até superior à de algumas das principais ligas europeias utilizadas na comparação da CBF.
Mas a evolução ainda não é uniforme
Os números também impedem conclusões exageradas.
Na mesma rodada em que Flamengo x Corinthians ultrapassou 64 minutos, Coritiba x Athletico teve apenas 39min34 de bola rolando.
Botafogo x Red Bull Bragantino ficou em 48min35.
É uma diferença enorme dentro da mesma competição e sob o mesmo conjunto de regras.
E isso mostra que uma partida não depende apenas do regulamento.
Quantidade de faltas, estilo das equipes, condições do gramado, atendimentos, revisões do VAR, comportamento dos jogadores e principalmente a maneira como cada árbitro conduz as interrupções continuam interferindo diretamente no tempo efetivo.
As novas ferramentas podem reduzir a cera deliberada, mas não conseguem transformar todos os jogos em partidas de 60 minutos de bola rolando.
O avanço, portanto, precisa ser observado pela média de muitas rodadas — e não apenas por partidas isoladas.
Flamengo já estava no topo antes das mudanças
Há ainda um elemento curioso envolvendo o Flamengo.
Mesmo antes da entrada em vigor das novas medidas, os jogos do Rubro-Negro já tinham a maior média de bola rolando da Série A.
Um levantamento da Opta apresentado pela CBF em agosto apontava 57min39 por partida nos jogos do Flamengo, equivalentes a 56,7% do tempo total.
Naquele momento, Chapecoense aparecia em seguida, com 54min55, e Grêmio com 54min39.
Na outra ponta, os jogos do Red Bull Bragantino tinham média de 50min01.
Isso ajuda a colocar os 64min22 contra o Corinthians em perspectiva.
O Flamengo já participava de partidas com tempo efetivo superior à média nacional antes mesmo do novo protocolo.
As regras podem ter ampliado uma tendência que já existia nos jogos da equipe.
Mais futebol dentro dos mesmos 90 minutos
O estudo desenvolvido pela CBF com dados da Opta havia identificado potencial para recuperar aproximadamente 6 minutos e 22 segundos por partida por meio de mudanças envolvendo reposições, atendimentos médicos, faltas, VAR e outras interrupções.
Ainda não há números suficientes para afirmar que o futebol brasileiro recuperou todo esse tempo.
Mas os primeiros resultados mostram uma mudança concreta.
A média anterior à Copa era de 52min54.
Na primeira rodada com as novas regras, foi para 55min29.
Quatro rodadas depois, permanece na faixa dos 55 minutos.
Não é uma revolução.
Também não é irrelevante.
Dois minutos adicionais de bola rolando por jogo representam mais de 20 minutos de futebol efetivo a mais em uma rodada completa de dez partidas.
E, quando partidas como Flamengo x Corinthians chegam a 64 minutos, fica evidente que existe espaço para aproximar o futebol brasileiro daquilo que dirigentes e torcedores normalmente desejam: menos tempo esperando a partida recomeçar e mais tempo vendo a bola efetivamente em jogo.




