Quando Flamengo e Fluminense recusam um pedido para utilização do estádio ou quando se discute a entrada de mais partidas no calendário, rapidamente aparece a acusação de que alguém está tentando impedir outro clube de jogar no Maracanã.
Não é isso.
Eu não tenho problema algum com o Vasco jogar no Maracanã.
O problema é acreditar que existe um gramado natural capaz de receber jogo atrás de jogo, praticamente sem descanso, chegar perto ou ultrapassar 70 partidas numa temporada e continuar apresentando qualidade de primeiro nível.
Não existe mágica.
O próprio planejamento do estádio previa mais de 70 jogos em 2026. Até setembro, já eram 58 partidas disputadas no Maracanã.
E a temporada ainda não acabou.
Flamengo e Fluminense continuam disputando competições importantes. Há Campeonato Brasileiro. Há Libertadores. Há clássicos. Há jogos decisivos.
Mesmo assim, continuamos discutindo como colocar ainda mais partidas dentro do estádio.
Não é Flamengo contra Vasco
Quero deixar isso bem claro porque essa discussão acaba sendo levada para a rivalidade.
O Vasco tem todo o direito de querer jogar no Maracanã.
Em determinadas partidas, pela dimensão de sua torcida, é absolutamente compreensível que queira utilizar o maior estádio do Rio de Janeiro.
Mas existe uma diferença enorme entre dizer isso e defender que todo pedido obrigatoriamente seja aceito.
O próprio acordo existente prevê utilização condicionada à disponibilidade e às condições do estádio.
E deveria ser assim para qualquer clube.
Se o gramado precisa descansar, precisa descansar.
Não importa se quem está pedindo é Vasco, Flamengo, Fluminense ou qualquer outro.
O problema é físico, não clubístico.
Um gramado natural precisa de tempo para recuperação. Precisa de luz, tratamento, corte, irrigação, correção das áreas mais desgastadas e períodos sem utilização.
Quando esse tempo não existe, começa aquilo que estamos vendo.
Áreas deterioradas, bola que não corre da mesma maneira, jogadores reclamando, comissão técnica reclamando e uma equipe de manutenção trabalhando quase permanentemente para tentar recuperar um campo que logo será utilizado novamente.
O próprio Flamengo já está pagando essa conta
Leonardo Jardim já disse publicamente que o gramado do Maracanã não está no nível da instituição Flamengo nem da qualidade dos jogadores que o clube possui.
Arrascaeta reclamou.
Rossi reclamou.
Léo Ortiz reclamou.
Lucas Paquetá reclamou.
Não estamos falando de uma discussão criada por torcedores em rede social.
Quem pisa naquele campo está dizendo que existe um problema.
E para o Flamengo isso pesa ainda mais porque o clube montou um time técnico, que procura tocar a bola, acelerar a circulação e construir jogadas com qualidade.
Quando o campo está ruim, não prejudica apenas a estética do espetáculo.
Muda a maneira de jogar.
A bola prende.
O jogador precisa dar um toque a mais.
A velocidade da jogada diminui.
E aumenta também o risco físico.
O Flamengo investe milhões em jogadores e chega justamente à parte decisiva da temporada tendo que discutir se o próprio campo estará em condições adequadas.
Isso não deveria ser normal.
E agora entra a NFL
É aqui que a situação fica ainda mais difícil de entender.
Eu acho excelente que o Rio de Janeiro receba grandes eventos internacionais.
Um jogo oficial da NFL no Maracanã tem impacto turístico, comercial e de imagem para a cidade e para o próprio estádio.
Não sou contra a NFL.
Mas não podemos fingir que uma partida de futebol americano representa exatamente a mesma utilização de uma partida de futebol.
É outra modalidade.
Há preparação diferente do campo, outras marcações, equipamentos, traves específicas e uma dinâmica de jogo completamente diferente, com concentração de atletas e contato físico em determinadas áreas.
A NFL vai preparar o campo, evidentemente.
Existe tecnologia envolvida e profissionais especializados trabalhando para minimizar os efeitos.
Mas uma coisa é minimizar.
Outra é imaginar que colocar mais um grande evento sobre um gramado que já apresenta problemas não acrescentará desgaste.
Acrescenta.
E depois da NFL quem continuará jogando ali são Flamengo e Fluminense.
O Cowboys volta para os Estados Unidos.
O Ravens volta para os Estados Unidos.
Quem fica com o gramado é o futebol brasileiro.
O Maracanã pode receber terceiros — mas precisa existir limite
O Maracanã não deve ser transformado numa fortaleza fechada para Flamengo e Fluminense.
Não é isso que defendo.
Pode receber Vasco.
Pode receber outro clube quando houver necessidade.
Pode receber grandes eventos.
Pode receber NFL.
O que não pode acontecer é tratar o calendário como se a única pergunta fosse: “Tem um espaço livre na agenda?”
A pergunta precisa ser outra:
“O gramado suporta?”
Porque espaço no calendário e condição técnica do campo são coisas completamente diferentes.
Pode haver três dias sem jogo e ainda assim o gramado precisar de sete.
Pode haver uma semana livre e o tratamento necessário exigir dez dias.
Não se recupera grama olhando apenas para a agenda de eventos.
Em dezembro haverá troca. Até lá, é preciso sobreviver
A troca completa do gramado ficou para dezembro.
Portanto, o campo que está sendo criticado agora ainda precisará atravessar toda a reta final da temporada.
E talvez esse seja o ponto que mais me preocupa.
Não estamos em março.
Estamos entrando exatamente no período em que cada partida vale muito mais.
Brasileiro sendo decidido.
Libertadores chegando às semifinais.
Fla-Flu.
Jogos grandes.
Pressão enorme.
É agora que o Flamengo mais precisa do Maracanã.
E é justamente agora que estamos tentando descobrir quanto mais esse gramado consegue suportar.




