Joaquín Freitas precisou de apenas 27 minutos com a camisa do Flamengo para começar a despertar curiosidade.
Foram 14 minutos contra o Remo e mais 13 diante do Corinthians. No Maracanã, participou diretamente do gol da vitória ao encontrar Bruno Henrique na área nos minutos finais.
É um ótimo começo.
Mas talvez seja justamente agora que o Flamengo precise ter mais cuidado.
O futebol brasileiro tem enorme dificuldade em conviver com o tempo de desenvolvimento de um jogador jovem. Quando ele começa mal, rapidamente surge a conclusão de que não está preparado. Quando começa bem, o movimento costuma ser o contrário: poucas partidas já são suficientes para transformar potencial em certeza.
Nenhuma das duas coisas ajuda.
Joaquín tem 19 anos, acabou de mudar de país, de clube, de campeonato e de ambiente. Ainda está conhecendo os companheiros, entendendo as exigências de Leonardo Jardim e descobrindo o peso de jogar diante de mais de 70 mil pessoas no Maracanã.
Contra o Corinthians, respondeu muito bem.
Segundo o Lance, o argentino teve sete ações com a bola nos 13 minutos em campo, acertou os três passes que tentou e participou diretamente do gol decisivo. Bruno Henrique também elogiou publicamente a qualidade que o jovem apresenta nos treinamentos.
Tudo isso merece ser observado.
Não merece ainda ser transformado em cobrança.
O Flamengo criou outro problema: um elenco muito forte
Existe também uma dificuldade que talvez seja nova na dimensão atual do Flamengo.
Durante muitos anos, colocar um garoto da base ou uma jovem contratação em campo era consequência da necessidade. Hoje, frequentemente é uma escolha.
O Flamengo tem jogadores experientes, alto investimento no elenco e concorrência pesada praticamente em todas as posições.
Isso é excelente para disputar títulos.
Para desenvolver jovens, porém, exige planejamento.
Leonardo Jardim já mostrou preocupação com esse processo. Durante a preparação realizada em Portugal, levou diversos jogadores jovens exatamente para avaliá-los e proporcionar um ambiente em que pudessem mostrar capacidade.
Mas avaliação não pode terminar quando começa a competição.
O desafio é descobrir como oferecer minutos sem desmontar uma equipe que precisa ganhar praticamente todos os jogos.
Nem titular absoluto, nem esquecido
Talvez seja esse o principal erro quando se discute jogador jovem no Flamengo.
Parece existir apenas duas possibilidades: ou ele precisa rapidamente disputar a titularidade, ou passa a ser tratado como alguém sem espaço.
Entre essas duas situações existe uma enorme área de desenvolvimento.
Um jovem pode entrar 15 minutos em uma partida. Depois, jogar 30. Começar outra. Voltar para o banco. Atuar em um contexto diferente.
Desenvolvimento não é uma linha reta.
Joaquín não precisa virar titular porque deu uma assistência contra o Corinthians. Também não pode desaparecer por dois meses porque o Flamengo tem opções mais experientes.
É justamente esse equilíbrio que separa simplesmente contratar talento de realmente desenvolver talento.
O perigo começa quando a expectativa corre mais rápido
O Flamengo conhece bem esse processo.
Um jovem faz dois ou três bons jogos, surgem comparações, projeções de mercado, valores milionários e expectativas enormes.
Depois vêm partidas ruins, oscilações naturais e a cobrança muda completamente de direção.
Jogadores de 18, 19 ou 20 anos são avaliados como se já fossem produtos acabados.
Não são.
Isso não significa protegê-los de cobrança. Quem joga no Flamengo inevitavelmente será cobrado.
Significa apenas entender que evolução exige erro.
Um jogador jovem precisa poder escolher errado uma jogada, perder uma bola, fazer uma partida ruim e voltar a receber oportunidade sem que cada atuação transforme sua trajetória em sucesso ou fracasso.
Joaquín pode ser um bom teste
Por isso, Joaquín Freitas pode representar um teste interessante para a atual estrutura do Flamengo.
O clube investiu pensando no futuro. O jogador começou bem. Leonardo Jardim já mostrou disposição para utilizá-lo e os atletas mais experientes parecem dispostos a ajudá-lo.
As condições iniciais são favoráveis.
Agora começa a parte realmente importante.
Não é descobrir se Joaquín será craque depois de 27 minutos.
É descobrir se o Flamengo consegue permitir que um garoto de 19 anos tenha tempo suficiente para mostrar que jogador poderá se tornar.
Talento abre a porta.
É o desenvolvimento que decide quem consegue permanecer dentro dela.




