A CBF aprovou nesta segunda-feira uma mudança que vai atingir diretamente a montagem dos elencos do futebol brasileiro nos próximos anos — e o Flamengo foi um dos clubes que se posicionaram contra.
O atual limite de nove jogadores estrangeiros relacionados por partida começará a cair em 2027. Serão oito no próximo ano, sete em 2028, seis em 2029 e apenas cinco a partir de 2030.
Para o Flamengo, a discussão está longe de ser apenas administrativa.
O Rubro-Negro já possui dez estrangeiros no elenco profissional e, portanto, convive nesta temporada com um limite menor do que o número de jogadores disponíveis.
Rossi, Varela, Pulgar, De la Cruz, Saúl, Arrascaeta, Carrascal, Gonzalo Plata, Anthony Valencia e Joaquín Freitas formam atualmente o grupo de atletas de fora do país. Jorginho, apesar da longa carreira na Europa e da cidadania italiana, nasceu no Brasil e não ocupa vaga de estrangeiro.
O Fla Opina já havia mostrado essa situação no início de setembro, quando o retorno de Plata após a transferência frustrada para o Dínamo Moscou, somado às chegadas de Valencia e Freitas, levou o elenco rubro-negro a dez estrangeiros para nove vagas no Brasileirão.
Agora, a nova decisão da CBF aponta justamente na direção contrária à estratégia recente do Flamengo.
O problema já saiu do papel
Não é uma preocupação para 2030.
Leonardo Jardim já precisou tomar uma decisão por causa do limite atual.
Contra o Corinthians, De la Cruz ficou fora da relação mesmo estando disponível. O uruguaio foi o estrangeiro cortado para que o Flamengo permanecesse dentro do teto permitido pelo Campeonato Brasileiro.
Com todos os dez atletas disponíveis, portanto, alguém obrigatoriamente precisa ficar fora.
A partir de 2027, se a composição do elenco permanecesse exatamente igual, seriam dois.
E o aperto aumentaria progressivamente até 2030.
Naturalmente, quatro temporadas representam tempo suficiente para vendas, encerramentos de contrato, novas contratações e mudanças no planejamento. O impacto não pode ser calculado apenas olhando a fotografia atual.
Mas a direção tomada pela CBF é clara: os clubes brasileiros terão de reduzir gradualmente a quantidade de estrangeiros que podem levar para cada partida.
Por que o Flamengo votou contra
A posição rubro-negra envolveu mais do que simplesmente defender um número maior de estrangeiros.
Durante a reunião, o presidente Luiz Eduardo Baptista, o BAP, tentou incluir outra discussão que considera relacionada ao mercado: a regra que restringe a transferência de jogadores entre clubes da Série A depois de determinado número de partidas disputadas na competição.
O dirigente argumentou que restringir ainda mais o mercado internacional sem ampliar as possibilidades de negociação dentro do próprio futebol brasileiro diminuiria as opções dos clubes na hora de buscar reforços.
A CBF respondeu que o assunto não estava previsto na pauta daquela reunião e deixou a discussão para um encontro posterior. O Flamengo então votou contra a redução dos estrangeiros. BAP também demonstrou insatisfação com a forma como as propostas foram apresentadas aos clubes.
A CBF quer devolver espaço aos jovens brasileiros
Existe, porém, outro lado importante nessa discussão.
A redução de estrangeiros faz parte de uma mudança maior pretendida pela CBF para os elencos das Séries A e B.
A entidade apresentou dados indicando que jogadores com menos de 23 anos ocupam apenas 14% dos minutos disputados atualmente no Brasileirão. Entre jovens brasileiros dessa faixa etária, o percentual cai para 11,5%.
A diferença para grandes campeonatos europeus chamou a atenção da entidade.
Na Itália, por exemplo, os sub-23 ficam com aproximadamente 28% dos minutos. Na França, chegam a 38%.
A média de idade dos jogadores inscritos no Brasileirão também subiu. Segundo os números apresentados na discussão, passou de 27,3 anos em 2020 para 28,5 em 2026. Espanha, Inglaterra, Alemanha, Itália e França apresentam médias inferiores.
Há ainda um crescimento expressivo da presença estrangeira.
A CBF contabiliza 146 jogadores de outros países que já entraram em campo nesta edição do Campeonato Brasileiro, com outros 13 ainda podendo estrear. Os estrangeiros com mais de 23 anos receberam aproximadamente 25% de toda a minutagem da Série A em 2026.
Por isso, a redução das vagas virá acompanhada de uma mudança também nas inscrições.
O limite geral continuará em 50 atletas, mas os clubes passarão a ter uma divisão entre jogadores de idade livre e sub-23.
Em 2027, serão 30 vagas livres e 20 destinadas aos mais jovens. A proporção mudará gradualmente até chegar a 25 para cada grupo em 2030.
Estrangeiros já têm peso importante no Brasileirão
Existe um elemento que torna o debate ainda mais interessante.
Os estrangeiros não estão apenas ocupando espaço nos elencos. Eles estão participando diretamente da produção ofensiva dos clubes.
Desde o retorno das competições depois da Copa do Mundo, jogadores estrangeiros marcaram 28,2% dos gols registrados, segundo levantamento publicado nesta segunda-feira.
No Palmeiras, concorrente direto do Flamengo pelo título brasileiro, o peso é ainda maior: aproximadamente 46% dos gols do período foram marcados por estrangeiros.
No Flamengo, a participação é menor, de 23,3%.
Ou seja: a discussão envolve formação de atletas brasileiros, mas também jogadores que passaram a ter influência crescente no nível técnico e nos resultados da competição.
Flamengo terá de olhar para 2027 já no próximo mercado
A redução para oito estrangeiros entra em vigor já na próxima temporada.
Isso significa que qualquer planejamento do Flamengo para o mercado de 2027 terá de levar a nova regra em consideração.
Não significa necessariamente parar de contratar fora do Brasil.
Significa que cada contratação estrangeira ganhará um peso diferente na composição do elenco.
Hoje, o clube já convive com uma escolha obrigatória entre dez jogadores para nove vagas.
A partir do próximo ano, o teto será oito.
A decisão tomada nesta segunda-feira pela CBF transforma uma dificuldade que já existia para Leonardo Jardim em uma questão permanente de planejamento esportivo.




