O Manchester City vive um dos momentos mais delicados de sua história recente.

Depois de anos de investigação, audiências e uma batalha jurídica que atravessou diferentes temporadas, uma comissão independente considerou procedente a grande maioria das acusações apresentadas pela Premier League contra o clube, segundo informações divulgadas nesta sexta-feira (25).

A informação publicada pela imprensa inglesa aponta que 114 das 115 acusações teriam sido consideradas procedentes.

A Premier League, porém, ainda não publicou a decisão integral, enquanto o Manchester City sustenta que o processo continua e que existem etapas importantes a serem concluídas.

Isso faz uma diferença fundamental: o City está diante de um cenário potencialmente gravíssimo, mas a punição ainda não está definida.

E é justamente aí que começa a próxima batalha.

O que está em jogo

O caso nasceu de uma investigação iniciada anos atrás e envolve informações financeiras fornecidas pelo Manchester City durante o período em que o clube se transformou em uma das maiores potências do futebol mundial.

Entre as acusações estão falhas na apresentação de informações financeiras consideradas precisas, questões envolvendo remuneração de jogadores e treinadores, cumprimento de regras financeiras nacionais e da UEFA e a obrigação de colaborar com a investigação da Premier League.

É importante fazer uma distinção: não se trata simplesmente de acusar o City de “gastar dinheiro demais”.

O centro de parte relevante do processo está na forma como receitas, patrocínios, pagamentos e outras informações financeiras teriam sido declarados à liga.

O Manchester City sempre negou irregularidades e, desde que as acusações foram formalizadas, sustenta possuir provas capazes de respaldar sua posição.

A dimensão esportiva do período investigado ajuda a explicar por que o julgamento provoca tamanho impacto.

Entre 2009/10 e 2022/23, período abrangido pelo conjunto mais amplo das acusações, o City conquistou sete vezes a Premier League, além da Champions League, Copas da Inglaterra e Copas da Liga.

Foi justamente nessa era que o clube deixou de ser apenas uma força tradicional de Manchester para entrar definitivamente na elite econômica e esportiva do planeta.

Um gigante financeiro do futebol

A dimensão atual do Manchester City torna qualquer punição ainda mais relevante.

Na edição de 2026 da Football Money League, da Deloitte, o City aparece entre os clubes de maior receita do planeta, com €829 milhões referentes à temporada 2024/25.

Estamos falando, portanto, de uma organização que movimenta centenas de milhões de euros, possui jogadores de enorme valor de mercado e construiu uma estrutura esportiva capaz de disputar os principais títulos da Europa.

Por isso, a pergunta deixou de ser apenas se houve violação das regras.

Agora é: até onde pode chegar a punição?

Perda de pontos é uma possibilidade

As regras da Premier League dão à comissão disciplinar uma margem ampla para estabelecer sanções.

Entre as possibilidades estão multa, dedução de pontos e outras medidas esportivas. Dependendo da gravidade e do enquadramento das infrações, as consequências podem ser muito maiores do que uma punição financeira.

Existem precedentes recentes de perda de pontos no futebol inglês.

Everton e Nottingham Forest sofreram deduções na temporada 2023/24 por violações das regras de lucro e sustentabilidade.

Os casos, porém, tinham características e dimensões diferentes das acusações enfrentadas pelo Manchester City e, portanto, não permitem simplesmente projetar uma punição equivalente.

No caso do City, existe outro elemento que aumenta a incerteza: não há uma tabela simples capaz de determinar automaticamente quantos pontos corresponderiam ao conjunto de violações analisadas nesse processo.

A comissão possui margem para avaliar a gravidade das infrações e definir a sanção.

O City pode ser expulso da Premier League?

Essa possibilidade existe dentro do conjunto de sanções extremas previstas pelas regras da competição.

Isso não significa que o Manchester City será expulso.

Significa que, diante de uma violação considerada suficientemente grave, as regras da Premier League permitem consequências que vão muito além de uma simples multa ou de uma pequena perda de pontos.

Uma expulsão representaria um cenário extremo.

Entre uma sanção financeira e a retirada de um clube da Premier League existe uma enorme variedade de possibilidades.

É justamente por isso que seria precipitado afirmar neste momento que o City “será rebaixado” ou “será expulso”.

O que existe é um processo de enorme gravidade cujo tamanho da punição ainda precisa ser definido.

Ainda haverá recurso

Também não devemos esperar necessariamente uma solução imediata.

O Manchester City poderá recorrer da decisão dentro dos procedimentos previstos pela Premier League, abrindo uma nova etapa da disputa.

O clube já indicou publicamente que continuará contestando o processo e mantém sua posição de defesa diante das acusações.

Portanto, mesmo que seja estabelecida uma punição severa, a batalha jurídica ainda pode ganhar novos capítulos antes de um desfecho definitivo.

O City já conseguiu derrubar uma punição pesada

Existe ainda um precedente importante na história recente do clube.

Em 2020, a UEFA puniu o Manchester City com dois anos de exclusão das competições europeias e multa de €30 milhões.

O clube recorreu ao Tribunal Arbitral do Esporte, o CAS, conseguiu derrubar a suspensão e teve a multa reduzida para €10 milhões.

Naquele processo, o tribunal considerou que algumas alegações não haviam sido comprovadas e que outras estavam prescritas.

O processo atual, porém, é diferente.

A disputa agora acontece dentro das regras e dos procedimentos da Premier League, o que torna inadequado presumir que o resultado anterior contra a UEFA será repetido.

Ainda assim, o episódio de 2020 mostra uma característica importante dessa história: o Manchester City está disposto a levar suas batalhas jurídicas até as últimas instâncias disponíveis.

O julgamento pode mudar o futebol inglês

Independentemente da punição final, o caso ultrapassou há muito tempo os limites do Manchester City.

Uma punição pequena diante de violações consideradas graves poderia provocar questionamentos sobre a capacidade da Premier League de fiscalizar seus próprios clubes.

Uma punição esportiva extrema, por outro lado, atingiria um dos maiores produtos da própria competição e teria consequências esportivas, comerciais e jurídicas difíceis de dimensionar.

É essa contradição que coloca a Premier League diante de uma decisão histórica.

O clube que se tornou uma das maiores potências esportivas e financeiras do futebol mundial agora espera para descobrir quanto poderá pagar pelas violações consideradas procedentes.

E, por enquanto, ninguém pode afirmar se essa conta terminará em dinheiro, pontos ou algo muito maior.