Mais um capítulo da novela Maracanã. E, sinceramente, começo a me perguntar até onde Flamengo, Vasco e seus dirigentes pretendem levar uma disputa que já ultrapassou os limites do razoável.

Não estamos mais falando apenas de uma partida de futebol. Estamos falando de uma guerra de liminares, recursos, decisões suspensas, acusações públicas e uma rivalidade institucional que parece não encontrar um ponto de equilíbrio.

De um lado, o Vasco, presidido por Pedrinho, insiste em conseguir autorização judicial para enfrentar o Boca Juniors no Maracanã, em 20 de outubro, pela semifinal da Copa Sul-Americana.

Do outro, Flamengo e Fluminense, responsáveis pela concessão e administração do estádio, defendem suas prerrogativas contratuais, a preservação do gramado e o planejamento operacional do complexo.

No meio dessa disputa estão os torcedores, que compram ingressos sem saber com segurança onde acontecerá uma partida continental.

E existe um agravante: a Conmebol estabeleceu até as 12h desta terça-feira (13), pelo horário de Brasília, para receber a definição do estádio.

O futebol brasileiro chegou ao ponto de depender de decisões judiciais praticamente diárias para determinar onde será realizada uma semifinal sul-americana.

É uma situação que considero lamentável.

Bap e Pedrinho: uma guerra que deixou de ser apenas institucional

Para compreender a dimensão dessa disputa, precisamos olhar para a relação entre Luiz Eduardo Baptista, o Bap, presidente do Flamengo, e Pedrinho, presidente do Vasco.

O desgaste entre os dois dirigentes não começou agora.

Em agosto, Pedrinho fez críticas pessoais contundentes ao presidente rubro-negro, utilizando expressões como mau-caráter, arrogante, prepotente e hipócrita.

Bap reagiu judicialmente.

Em 25 de agosto, foi divulgado que o dirigente do Flamengo havia ingressado com uma ação de indenização por danos morais na 1ª Vara Cível de Bangu, exigindo pelo menos R$ 40 mil e uma retratação pública.

A ação demonstra que a relação entre os presidentes ultrapassou a divergência esportiva ou administrativa. Chegou ao Judiciário por questões relacionadas à honra pessoal.

Não se trata de afirmar que essa ação provocou juridicamente a disputa atual pelo Maracanã. São processos distintos.

Mas, na minha avaliação, seria ingênuo ignorar o ambiente de hostilidade criado entre os dois dirigentes.

Quando presidentes de instituições rivais passam a se enfrentar pessoalmente, qualquer divergência administrativa tende a ganhar uma dimensão muito maior.

E o Maracanã se transformou no principal palco dessa rivalidade.

Quantas vezes o Vasco já recorreu à Justiça?

A sequência documentada mostra como a situação se tornou instável.

O Vasco apresentou uma ação para tentar obrigar a concessionária Fla-Flu a disponibilizar o Maracanã para a semifinal contra o Boca Juniors.

Em 2 de outubro, o clube recorreu contra a suspensão de seu processo. A Justiça havia identificado a existência de outra ação, proposta por um torcedor vascaíno, relacionada ao mesmo objetivo, levantando preocupações sobre decisões paralelas.

No dia 5, houve negativa de tutela de urgência ao Vasco.

Em 6 de outubro, o clube apresentou nova manifestação judicial, enquanto o desembargador Alexandre de Carvalho Mesquita manteve a negativa de autorização para utilizar o estádio.

No dia 9, uma nova iniciativa urgente produziu a primeira grande reviravolta: o desembargador Marco Antônio Ibrahim concedeu decisão favorável ao Vasco, determinando a liberação do Maracanã.

A autorização permitiu ao clube avançar na organização da partida e na comercialização de ingressos.

Mas a situação mudou novamente em menos de 24 horas.

No sábado, 10 de outubro, o Consórcio Fla-Flu conseguiu suspender aquela decisão por meio de mandado de segurança apreciado pela desembargadora Suely Lopes Magalhães.

A magistrada entendeu que a decisão favorável ao Vasco havia sido proferida por um desembargador sem competência para modificar individualmente a determinação anterior do relator.

Com isso, voltou a prevalecer a negativa de autorização, permanecendo pendente a análise do recurso pelo órgão competente.

Nesta segunda-feira, 12 de outubro, o Vasco apresentou outro pedido urgente para tentar reverter o cenário.

O Ministério Público do Rio de Janeiro também solicitou reconsideração, defendendo a realização da partida no Maracanã com base em argumentos de segurança pública.

Portanto, temos pelo menos cinco movimentações judiciais identificáveis do Vasco, entre pedidos, petições e recursos, além da ação inicial e da medida apresentada pela concessionária.

Não significa que o clube tenha conseguido cinco liminares. Significa que o conflito produziu sucessivas iniciativas processuais e decisões que alteraram a situação do estádio.

E, até o último andamento confirmado nesta segunda-feira, o Vasco ainda dependia de nova manifestação judicial para recuperar a autorização.

O Vasco pode vencer e, mesmo assim, acabar prejudicado

Este é um dos pontos que mais me chamam a atenção.

O Vasco insiste em conseguir o Maracanã. E tem o direito de procurar a Justiça quando considera que seus direitos foram contrariados.

Não estou discutindo aqui se o clube pode ou não pode recorrer. Essa é uma questão jurídica, que deve ser examinada pelos tribunais.

Minha preocupação é outra.

Até onde essa insistência poderá prejudicar o próprio Vasco?

O clube já comercializou mais de 45 mil ingressos para uma partida cuja realização no Maracanã voltou a ficar juridicamente indefinida.

Se conseguir outra decisão favorável, isso não significa necessariamente que todos os conflitos estarão encerrados.

Flamengo e Fluminense poderão analisar os instrumentos processuais cabíveis para contestar uma nova determinação, dependendo de seu conteúdo e da instância responsável.

Uma eventual confirmação do estádio pela Conmebol também não encerra automaticamente os processos judiciais brasileiros.

São esferas diferentes, com responsabilidades e consequências distintas.

Imagine uma decisão favorável ao Vasco seguida de outra contestação quando já faltarem poucos dias para a partida.

Como ficam os torcedores? A organização do evento? O planejamento de segurança? As delegações? A logística internacional?

O Vasco pode ganhar essa batalha judicial e ainda enfrentar dificuldades decorrentes da própria indefinição.

Também pode perder.

E, nesse caso, terá de administrar a frustração de milhares de torcedores que já receberam sinais de que poderiam acompanhar a semifinal no Maracanã.

É uma situação que considero perigosa para a própria imagem institucional do clube.

Pedrinho quer defender o Vasco ou enfrentar o Flamengo?

Essa pergunta merece ser feita.

Na minha avaliação, Pedrinho já transformou a disputa pelo Maracanã em algo que ultrapassa a necessidade de encontrar um estádio para a semifinal.

Sua própria declaração de 6 de outubro reforça essa percepção.

Na ocasião, o presidente vascaíno afirmou que pretendia aprofundar o confronto com o consórcio e questionar a licitação do Maracanã.

Ou seja, deixou claro que sua insatisfação não se limita ao jogo contra o Boca Juniors.

Vejo nessa postura uma disposição para manter o confronto institucional com Flamengo e Fluminense, mesmo que isso amplie a tensão entre os clubes.

E considero que essa estratégia pode ter também um componente de enfrentamento político e pessoal com Bap.

Não estou dizendo que Pedrinho não tenha argumentos jurídicos. Estou questionando se o caminho escolhido é o mais inteligente para o clube que dirige.

Uma coisa é defender os interesses do Vasco. Outra é transformar cada negativa em um novo capítulo de uma guerra que pode acabar prejudicando a própria instituição.

O presidente vascaíno pode sair fortalecido caso consiga seu objetivo.

Mas também corre o risco de ampliar uma crise que ele próprio terá de administrar.

O Maracanã não é propriedade do Flamengo, mas também não é terra sem administração

Há uma questão que considero fundamental.

O Maracanã é um patrimônio público do Estado do Rio de Janeiro. Isso não está em discussão.

Entretanto, sua administração foi concedida a uma empresa formada por Flamengo e Fluminense, que assumiu responsabilidades financeiras, operacionais e contratuais.

A concessão tem duração de 20 anos e envolve obrigações relacionadas a manutenção, investimentos, operação do complexo e pagamento de outorga ao poder público.

É preciso respeitar tanto a natureza pública do estádio quanto as regras estabelecidas para sua administração.

O Vasco pode questionar uma negativa. O Ministério Público pode fiscalizar o cumprimento das obrigações. E o Poder Judiciário pode determinar medidas quando identificar fundamentos legais para isso.

Mas também é necessário reconhecer que administrar um estádio envolve custos e responsabilidades que não desaparecem quando outro clube deseja utilizá-lo.

Já tratei dessa questão em coluna anterior, lembrando inclusive os gastos assumidos pelo Flamengo em momentos nos quais o Maracanã enfrentou dificuldades de conservação e funcionamento.

Não pretendo repetir aqueles números aqui.

O ponto é simples: quem assume obrigações contratuais também precisa ter condições de exercer as responsabilidades previstas no contrato.

E qualquer decisão que interfira nessa administração deveria considerar as consequências para todos os envolvidos.

Quem paga a conta dessa guerra?

O Flamengo também pode sofrer consequências.

A realização de uma partida adicional no Maracanã, em um período de calendário apertado, pode interferir no planejamento de manutenção e recuperação do gramado.

Isso ganha importância porque o Rubro-Negro disputa jogos decisivos do Campeonato Brasileiro e da Libertadores.

Um gramado em condições inadequadas pode afetar o desempenho esportivo, aumentar dificuldades técnicas e comprometer o espetáculo.

Não é possível afirmar antecipadamente que Vasco x Boca necessariamente destruiria o campo ou prejudicaria um jogo específico do Flamengo.

Mas o risco de desgaste adicional é uma preocupação legítima de quem administra a arena.

Há ainda o conflito operacional envolvendo Flamengo x Botafogo, pelo Novo Basquete Brasil, programado para o Maracanãzinho na mesma data da semifinal da Sul-Americana.

A possibilidade de concentração simultânea de torcidas rivais no complexo também passou a integrar a disputa judicial.

De outro lado, a Polícia Militar e o Ministério Público apresentaram argumentos de segurança pública favoráveis à utilização do Maracanã pelo Vasco.

Portanto, existem questões técnicas e interesses institucionais que precisam ser examinados.

O problema, para mim, é que o debate está cada vez mais contaminado pela rivalidade entre os dirigentes.

Enquanto eles disputam decisões e narrativas, os torcedores enfrentam a insegurança de não saber o que acontecerá.

A Conmebol entrou em uma disputa que deveria estar resolvida

A situação chegou a um ponto em que a entidade responsável pela organização da Copa Sul-Americana precisou prorrogar o prazo para a definição do estádio.

A Conmebol estabeleceu o meio-dia de terça-feira, 13 de outubro, para receber uma resposta.

Informou ainda que poderá se manifestar caso a indefinição continue.

Isso não significa que já exista uma determinação automática para transferir a partida a outro estádio.

Mas demonstra que o problema ultrapassou as fronteiras do futebol brasileiro.

Estamos falando de uma semifinal continental entre Vasco e Boca Juniors, dois clubes históricos, com milhares de torcedores envolvidos e uma operação internacional que precisa de planejamento.

É difícil aceitar que, a poucos dias da partida, o local do confronto ainda dependa de novos movimentos judiciais.

E considero ainda mais preocupante imaginar que uma decisão tomada agora possa ser novamente contestada às vésperas do jogo.

Até quando o futebol vai continuar resolvendo seus conflitos por meio de uma sucessão de liminares?

A rivalidade está passando dos limites

Sempre defendi que a rivalidade entre Flamengo e Vasco faz parte da história do futebol brasileiro.

Ela produz clássicos, provocações, grandes públicos e momentos inesquecíveis.

Mas existe uma diferença entre rivalidade esportiva e enfrentamento institucional permanente.

Bap e Pedrinho representam clubes com milhões de torcedores. Suas decisões precisam considerar responsabilidades que ultrapassam disputas pessoais.

O Vasco tem o direito de defender seus interesses. Flamengo e Fluminense têm o direito de proteger as condições contratuais e operacionais da concessão.

Nenhum desses direitos deveria impedir uma solução que ofereça segurança jurídica, planejamento e respeito aos torcedores.

Na minha avaliação, a disputa já foi longe demais.

O Maracanã virou símbolo de uma guerra de poder na qual cada nova decisão é comemorada como uma vitória sobre o adversário, mesmo quando o problema continua sem solução.

E existe uma possibilidade que parece estar sendo ignorada: o Vasco pode vencer uma liminar e perder muito mais em desgaste, insegurança e consequências esportivas.

O Flamengo também pode sofrer prejuízos com a utilização do estádio em condições que sua administração considera inadequadas.

No final, o mais prejudicado pode não ser Bap nem Pedrinho.

Pode ser o torcedor que comprou ingresso, o clube que precisa planejar uma semifinal, o gramado que exige cuidados e a própria credibilidade da organização do futebol.

O Maracanã merece decisões responsáveis, não uma disputa interminável.

Porque, se cada partida depender de uma nova batalha judicial, teremos transformado o futebol brasileiro em um campeonato de liminares.

E esse é um campeonato em que, mesmo quando alguém vence, todos podem sair perdendo.