Existe uma parte da história do Maracanã que parece desaparecer toda vez que surge uma nova disputa pelo direito de utilizar o estádio. Todo mundo fala sobre quem pode jogar, quem conseguiu uma liminar, quem foi impedido e quem tem direito de explorar comercialmente o maior palco do futebol brasileiro.
Mas poucos começam pela pergunta mais importante: quem pagou, quem continua pagando e quem responde pelos problemas do Maracanã?
Um levantamento recuperado pelo jornalista Mauro Cezar Pereira, em publicação no UOL neste sábado (10), resgata episódios de 2016 e 2017 que ajudam a compreender a dimensão dessa responsabilidade. São informações que merecem ser revisitadas justamente agora, quando a administração do estádio enfrenta novos questionamentos.
O Flamengo chegou a pagar uma dívida de energia elétrica que sequer havia contraído. E não estamos falando de uma conta pequena.
R$ 1,35 milhão para acender as luzes do Maracanã
Em fevereiro de 2017, o jornalista Rodrigo Capelo revelou, na revista Época, que o Flamengo havia assumido despesas para recuperar o Maracanã e realizar sua estreia na Libertadores contra o San Lorenzo, marcada para 8 de março.
Naquele momento, o estádio enfrentava problemas de conservação desde os Jogos Olímpicos de 2016. A antiga concessionária, ligada à Odebrecht, acumulava pendências, enquanto o complexo apresentava instalações deterioradas.
Entre as despesas estava uma dívida de R$ 1,35 milhão com a Light, correspondente a quatro meses de contas de energia elétrica não pagas pela concessionária anterior.
O valor não era originalmente uma obrigação do Flamengo.
Mas a ausência de energia comprometia serviços essenciais, incluindo a irrigação do gramado. Para colocar o Maracanã novamente em condições de receber futebol profissional, o clube aceitou assumir o pagamento dentro do acordo para utilização do estádio.
O trabalho de recuperação mobilizou aproximadamente 150 funcionários de dez empresas prestadoras de serviços.
E aquele desembolso não foi um episódio isolado.
Ainda em novembro de 2016, Flamengo e Fluminense já haviam assumido despesas extraordinárias para conseguir utilizar o Maracanã na reta final do Campeonato Brasileiro.
Somente o Flamengo gastou aproximadamente R$ 570 mil em reparos para realizar duas partidas, embora aquelas intervenções fossem de responsabilidade da concessionária existente na época.
É importante separar os dois valores. Os R$ 570 mil referem-se aos reparos realizados em 2016. A dívida de R$ 1,35 milhão com a Light está relacionada ao acordo de recuperação para a Libertadores de 2017. Portanto, são episódios diferentes, que demonstram como o clube já desembolsava recursos antes mesmo de participar diretamente da administração do estádio.
O jogo que rendeu milhões, mas deixou apenas 17% para o Flamengo
Talvez o exemplo mais impressionante esteja na partida contra o San Lorenzo, disputada em 8 de março de 2017.
O Flamengo venceu por 4 a 0 diante de um Maracanã lotado. A arrecadação da bilheteria chegou a aproximadamente R$ 3,688 milhões.
O valor parecia representar uma receita extraordinária para o clube.
Entretanto, quando as contas foram fechadas, sobraram apenas R$ 638 mil.
Os números foram divulgados pelo jornalista Rodrigo Mattos, com Vinicius Castro, em março daquele ano.
A recuperação do estádio consumiu aproximadamente R$ 1,7 milhão, incluindo pagamento de contas atrasadas e reparos no gramado. Outras despesas relacionadas à realização da partida somaram cerca de R$ 1,2 milhão.
Somando os custos, aproximadamente R$ 2,9 milhões da arrecadação foram comprometidos antes de o Flamengo ficar com sua parcela líquida.
O resultado é revelador: de cada R$ 100 arrecadados naquela partida, apenas cerca de R$ 17 permaneceram com o clube.
O torcedor via a arquibancada cheia e imaginava uma bilheteria milionária. Nos bastidores, o Flamengo enfrentava uma realidade completamente diferente.
Precisava recuperar um estádio que não administrava plenamente para conseguir realizar seus próprios jogos.
Esse episódio aconteceu sete anos antes da assinatura da concessão de longo prazo com o Governo do Estado do Rio de Janeiro.
De pagar dívidas antigas a assumir uma concessão de 20 anos
A gestão compartilhada entre Flamengo e Fluminense começou em abril de 2019, inicialmente por meio de Termos de Permissão de Uso.
Em setembro de 2024, os dois clubes assinaram o contrato de concessão do Complexo Maracanã, com duração de 20 anos.
A empresa Fla-Flu Serviços S.A. passou a responder pela administração, operação, manutenção e exploração comercial do Maracanã e do Maracanãzinho.
Na divisão econômica estabelecida entre os clubes, o Flamengo possui 65% de participação, enquanto o Fluminense responde pelos outros 35%.
O contrato envolve uma outorga anual de aproximadamente R$ 20,06 milhões ao Governo do Estado.
Desse montante, a parcela econômica correspondente ao Flamengo é de R$ 13,04 milhões por ano. A do Fluminense equivale a R$ 7,02 milhões.
Só essa obrigação representa mais de R$ 1 milhão por mês na participação rubro-negra, considerando os valores originais da proposta.
Entretanto, a outorga é apenas uma parte das responsabilidades assumidas.
Uma estrutura que exige cerca de R$ 60 milhões por ano
Em levantamento publicado por Mauro Cezar Pereira no último dia 7 de outubro, foram apresentados os principais valores projetados para a operação anual do complexo.
Além dos R$ 20,06 milhões de outorga, o planejamento contempla aproximadamente R$ 22 milhões para manutenção geral, R$ 8,7 milhões para energia elétrica e R$ 9,2 milhões para despesas com pessoal.
A soma ultrapassa R$ 59 milhões anuais, arredondados para cerca de R$ 60 milhões.
Na divisão econômica de 65% e 35%, isso representa uma responsabilidade proporcional de aproximadamente R$ 39 milhões para o Flamengo e R$ 21 milhões para o Fluminense.
Há uma distinção fundamental: esses valores representam projeções de despesas da operação, e não dinheiro necessariamente retirado do caixa dos clubes. O complexo também gera receitas com publicidade, camarotes, estacionamentos, eventos e outras atividades comerciais.
É justamente por isso que a exploração econômica integra a concessão. Os administradores precisam gerar receitas para sustentar as obrigações assumidas.
Além das despesas operacionais, a proposta vencedora contempla aproximadamente R$ 393 milhões em obras e manutenções ao longo dos 20 anos.
Pela participação econômica de cada clube, são cerca de R$ 255,5 milhões atribuídos ao Flamengo e R$ 137,5 milhões ao Fluminense durante esse período.
Não se deve simplesmente somar integralmente esses R$ 393 milhões aos custos operacionais projetados, porque existem despesas de manutenção que podem aparecer nas duas categorias.
Mas uma coisa é indiscutível: administrar o Maracanã exige recursos, planejamento, investimentos e responsabilidades que continuam existindo mesmo quando não há partidas.
O que os números mudam na discussão com o Vasco?
É aqui que entramos na questão que venho discutindo há semanas no Fla Opina.
O Vasco tem direito de solicitar a utilização do Maracanã. O estádio é público, embora sua administração tenha sido concedida por contrato a Flamengo e Fluminense. Existem obrigações de acesso, critérios técnicos e regras que a concessionária precisa respeitar.
Não defendo que o Vasco seja impedido de jogar no Maracanã simplesmente por ser rival.
Mas também considero inaceitável tratar a utilização do estádio como uma obrigação automática, independentemente das condições do gramado, da programação de manutenção e das responsabilidades financeiras assumidas por quem venceu a licitação.
O Vasco participou do processo de concorrência pela concessão, em parceria com a WTorre, e não venceu. O consórcio formado por Flamengo e Fluminense apresentou a proposta vencedora e assumiu os compromissos decorrentes dessa escolha.
É perfeitamente legítimo que o Vasco questione uma negativa quando entende possuir respaldo contratual. O que não considero razoável é transformar cada divergência de calendário em uma disputa na qual as obrigações dos concessionários parecem ter menos importância que o interesse pontual de outro clube.
Também não podemos confundir direito de utilização esportiva com direito de exploração econômica do complexo. São questões diferentes, regidas por condições distintas.
Quem organiza uma partida deve cumprir as despesas e exigências correspondentes. Quem administra uma concessão de 20 anos precisa responder por uma estrutura que custa milhões mesmo quando os portões estão fechados.
O Maracanã de hoje não pode ser analisado sem lembrar o de 2017
A recuperação daquele estádio deteriorado não ocorreu por acaso.
Houve dinheiro investido, trabalhadores mobilizados, despesas extraordinárias assumidas e decisões tomadas para que o futebol pudesse continuar acontecendo.
O Flamengo não era obrigado originalmente a pagar as dívidas de energia deixadas pela antiga concessionária, mas aceitou fazê-lo para viabilizar sua utilização.
Anos depois, ao lado do Fluminense, assumiu a gestão de longo prazo do complexo por meio de uma licitação pública.
Isso não dá aos dois clubes liberdade para descumprir o contrato, discriminar adversários ou ignorar determinações judiciais. Também não elimina a obrigação de entregar um gramado adequado e manter as instalações em boas condições.
Pelo contrário: quanto maior a responsabilidade assumida, maior deve ser a cobrança pela qualidade da administração.
Entretanto, direitos e obrigações precisam ser analisados em conjunto.
Não é coerente exigir que Flamengo e Fluminense respondam por investimentos, manutenção, custos operacionais e conservação do estádio, mas tratar suas necessidades de planejamento como obstáculos sem importância.
O Maracanã é patrimônio público. Sua administração, porém, tem responsáveis definidos por contrato.
E a história mostra que o Flamengo começou a pagar parte dessa conta muito antes de conquistar a concessão.
Na minha avaliação, esse passado precisa fazer parte de qualquer discussão séria sobre o futuro do estádio.
Porque o direito de jogar no Maracanã merece respeito. Mas quem sustenta sua operação e assume suas responsabilidades também merece.




