O Maracanã vive uma situação curiosa. Ao mesmo tempo em que continua sendo a principal casa do Flamengo e um dos estádios mais utilizados do futebol brasileiro, enfrenta questionamentos em duas frentes diferentes: a qualidade do gramado e uma investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro sobre possíveis irregularidades relacionadas à lotação de partidas.

Nesta sexta-feira (11), o CEO do Maracanã, Fred Nantes, falou publicamente sobre os dois assuntos.

A coletiva havia sido convocada principalmente para explicar as condições atuais do campo, alvo constante de críticas de jogadores e treinadores. Mas o dirigente também foi questionado sobre o inquérito instaurado pelo Ministério Público e decidiu responder.

A reação foi forte.

Nantes classificou a repercussão da investigação como “muito mais midiática do que qualquer outra coisa”. Ao mesmo tempo, afirmou que a administração fornecerá todas as informações solicitadas e destacou que existe uma relação de colaboração com o Ministério Público.

A declaração muda o estágio público do caso.

A investigação não começou agora. O inquérito foi instaurado em agosto para apurar possíveis situações de superlotação em partidas de Flamengo e Fluminense realizadas entre dezembro de 2025 e agosto de 2026. O MP solicitou dados sobre ingressos vendidos, cortesias, gratuidades e o número efetivo de pessoas presentes em diferentes setores do estádio.

O que havia até então era a investigação.

Agora existe também uma posição pública da gestão.

CEO contesta repercussão, mas promete entregar dados

A estratégia adotada por Fred Nantes foi clara.

O executivo não negou que o Ministério Público tenha direito a obter as informações. Pelo contrário: afirmou que os documentos serão entregues dentro do prazo e lembrou que a administração do estádio já respondeu a solicitações anteriores.

O ponto de discordância está na dimensão que o assunto ganhou publicamente.

Ao chamar o caso de “midiático”, Nantes tenta separar duas questões: a obrigação institucional de colaborar com o MP e a interpretação de que a investigação já representaria prova de irregularidades.

Essa distinção é importante.

Até que o procedimento seja concluído, os fatos levantados devem ser tratados como suspeitas sob investigação, e não como responsabilidade comprovada de Flamengo, Fluminense ou da administração do Maracanã.

Ao mesmo tempo, o assunto não pode ser diminuído.

O Ministério Público identificou indícios de emissão de ingressos acima das capacidades previstas para determinados setores e justamente por isso abriu o procedimento e solicitou informações detalhadas.

A partir de agora, o que realmente importa é comparar os dados oficiais da administração com aquilo que foi levantado pelo MP.

Outro problema está visível para todos

Se na investigação sobre lotação ainda existem documentos a serem analisados, no gramado não há grande discussão sobre a existência de um problema.

O próprio Fred Nantes reconheceu isso.

Segundo o CEO, o campo “não está na qualidade que gostaria”.

A frase é significativa porque as críticas ao Maracanã deixaram de ser pontuais.

Jogadores e treinadores têm reclamado das condições do gramado, e o problema ganhou ainda mais destaque para Flamengo e Fluminense, justamente os dois clubes responsáveis pela gestão do estádio.

A administração apresentou uma série de fatores para explicar a deterioração.

O principal deles é a intensidade de utilização.

O Maracanã deve chegar ao fim de setembro com 58 partidas realizadas em 2026. Segundo os dados apresentados na coletiva, nenhum outro grande estádio utilizado como comparação chega perto do mesmo volume. O contrato de concessão ainda estabelece a obrigação de aproximadamente 70 jogos anuais.

Chuva, temperatura, umidade, pouco intervalo entre partidas e dificuldade de recuperação da grama também foram apresentados como fatores que, combinados, ajudam a explicar o estado atual do campo.

O problema é que essas explicações não mudam a exigência fundamental.

O Maracanã precisa oferecer um campo compatível com o futebol de alto nível.

Novo gramado em 2027

A principal decisão anunciada durante a coletiva foi justamente uma tentativa de atacar o problema estrutural.

Após o encerramento do Campeonato Brasileiro, o Maracanã substituirá a atual Bermuda Celebration pela Celebration Hybrid, variedade híbrida escolhida pela maior resistência ao uso intenso.

A troca será realizada em dezembro e já terá impacto no calendário do estádio.

O tradicional Jogo das Estrelas, organizado por Zico, poderá precisar ser antecipado porque o período normalmente utilizado para o evento coincidirá com a substituição do gramado.

A mudança também é pensada para um 2027 particularmente pesado.

Além da temporada de Flamengo e Fluminense, o Maracanã receberá partidas da Copa do Mundo Feminina, inclusive jogos decisivos. A gestão entende que uma espécie mais resistente será necessária para suportar novamente uma agenda muito superior àquela encontrada em grande parte dos estádios internacionais.

Maracanã está diante de dois testes diferentes

A coletiva de Fred Nantes acabou juntando dois assuntos que, à primeira vista, parecem independentes.

Mas ambos tratam da mesma questão: a capacidade da gestão do Maracanã de administrar um estádio submetido a enorme pressão operacional.

Em um caso, é preciso demonstrar ao Ministério Público que os procedimentos de venda, controle de acesso e capacidade foram corretamente executados.

No outro, é necessário provar que um estádio com dezenas de partidas por temporada pode continuar oferecendo um gramado de qualidade.

A explicação sobre o excesso de jogos é plausível.

Mas também evidencia a dimensão do desafio.

Flamengo e Fluminense assumiram a gestão de um dos estádios mais importantes do mundo. Isso traz receitas, controle de calendário e vantagens esportivas, mas também traz responsabilidade.

E, neste momento, o Maracanã está sendo cobrado justamente por isso.