A reunião desta segunda-feira entre CBF e clubes não produziu apenas uma mudança pontual no Campeonato Brasileiro.
Produziu um desenho.
Quando se juntam a redução progressiva de estrangeiros, a criação de listas específicas para jogadores sub-23, a tentativa de padronizar os horários do Brasileirão e a proposta de controlar o destino de parte da nova receita da Copa do Brasil, fica evidente que a entidade está tentando construir um futebol brasileiro diferente para os próximos anos.
Parte dessa transformação era necessária há muito tempo.
Outra parte merece discussão.
Porque organizar o futebol brasileiro é uma coisa.
Engessar clubes que fizeram planejamento, aumentaram receitas e construíram capacidade para buscar jogadores onde quiserem é outra.
E o Flamengo está no centro desse debate.
O Brasil abriu a porta aos estrangeiros — agora começa a fechá-la
O movimento da CBF representa uma inversão de direção.
Em 2014, os clubes podiam relacionar apenas três estrangeiros por partida. O limite subiu para cinco naquele ano, chegou a sete em 2023 e foi elevado para nove em 2024.
Agora começa o caminho contrário.
O teto continuará em nove em 2026, cairá para oito em 2027, sete em 2028, seis em 2029 e cinco em 2030.
Não é uma alteração pequena.
Daqui a quatro temporadas, o futebol brasileiro voltará exatamente ao limite de cinco estrangeiros que vigorava antes da mudança de 2023.
A CBF tem números para justificar sua preocupação.
A média de idade dos jogadores inscritos na Série A chegou a 28,5 anos. Em 2020, estava em 27,3. Hoje, a média brasileira supera Espanha, Inglaterra, Alemanha, Itália e França.
Outro número é ainda mais relevante.
Jogadores sub-23 ficam com apenas 14% de toda a minutagem do Brasileirão. Quando são considerados apenas brasileiros com menos de 23 anos, a participação cai para 11,5%.
Na Itália, que é a liga europeia que menos utiliza sub-23 entre as cinco principais, o percentual é de aproximadamente 28%. Na França chega a 38%.
Existe, portanto, um problema real.
Mas existe uma pergunta igualmente importante:
reduzir estrangeiros resolve esse problema?
O problema talvez seja maior do que o passaporte
A própria pesquisa apresentada pela CBF oferece uma pista.
Entre 2016 e 2025, 79% das receitas obtidas pelos clubes brasileiros com vendas de jogadores vieram de atletas sub-23. Somente os sub-20 representaram 50,1% do faturamento com transferências.
Ou seja: o Brasil continua formando jovens.
O problema é que vende esses jovens muito cedo.
Enquanto isso, clubes recompõem seus elencos contratando atletas mais experientes — brasileiros e estrangeiros.
A CBF identificou que jogadores estrangeiros com mais de 23 anos receberam aproximadamente 25% da minutagem da Série A em 2026. Foram 146 estrangeiros que já entraram em campo nesta edição, e outros 13 ainda poderiam estrear.
É um crescimento importante.
Mas simplesmente retirar um argentino de 28 anos não garante que sua vaga será entregue a um brasileiro de 20.
Ela pode perfeitamente passar para um brasileiro de 31.
Esse é o ponto em que a regra começa a exigir mais cuidado.
A solução da CBF não ficará apenas nos estrangeiros
Existe uma segunda mudança, talvez até mais eficiente para o objetivo declarado pela entidade.
Os clubes continuarão podendo inscrever 50 jogadores, mas as vagas passarão a ser divididas entre duas listas.
A Lista A será livre. A Lista B será reservada a jogadores sub-23, independentemente de terem sido formados no próprio clube.
A progressão será:
2027: 30 jogadores na Lista A e 20 na Lista B 2028: 29 e 21 2029: 27 e 23 2030: 25 e 25
Curiosamente, a mudança não exige uma revolução imediata da maioria: segundo o levantamento apresentado, 16 clubes da Série A e 17 da Série B já estariam enquadrados hoje na regra projetada para 2027.
Para o Fla Opina, esse caminho parece muito mais diretamente relacionado ao problema diagnosticado.
Se a preocupação é dar minutos aos jovens, crie condições para que os jovens façam parte efetiva dos elencos.
O passaporte é uma discussão diferente.
Flamengo já sente a regra antes mesmo da redução
Não é uma discussão abstrata para o Flamengo.
O clube possui atualmente dez estrangeiros e só pode relacionar nove no Campeonato Brasileiro.
Leonardo Jardim já precisou cortar De la Cruz de uma partida contra o Corinthians exclusivamente por causa desse limite. O próprio treinador confirmou depois que o uruguaio ficou fora porque eram dez estrangeiros para nove lugares.
Em 2027 serão oito.
Se a fotografia atual do elenco fosse mantida, dois jogadores teriam de ficar fora.
É claro que ela não será mantida. Contratos acabam, atletas são vendidos e outros chegam.
Mas a regra inevitavelmente passa a interferir no planejamento do mercado.
E foi exatamente por isso que o Flamengo votou contra.
BAP tentou colocar na mesma discussão outra limitação do mercado brasileiro: a regra dos 12 jogos, que impede determinadas transferências entre clubes da Série A depois de atingido o limite. A CBF informou que o tema seria discutido em outra reunião.
O argumento merece ser ouvido.
Se o mercado internacional será progressivamente restringido, discutir ao mesmo tempo as barreiras do mercado doméstico seria coerente.
Nos horários, a CBF ataca um problema evidente
Em outro ponto da reunião, a intervenção parece muito mais difícil de contestar.
Entre 2023 e 2025, o Campeonato Brasileiro utilizou 51 combinações diferentes de dias e horários.
Na Série B foram inacreditáveis 81 combinações.
Isso não é flexibilidade.
É falta de identidade do produto.
A proposta para 2027 coloca sete dos dez jogos de uma rodada de fim de semana no domingo. Três deles ficariam concentrados às 16h. Sábado teria principalmente 16h e 19h30.
No meio de semana, seis jogos seriam disputados na quarta-feira, distribuídos entre 19h30, 20h30 e 21h30. Terça e quinta teriam janela às 20h.
Há dados que justificam a mudança.
A CBF identificou queda de público em partidas realizadas às 19h durante a semana e nos jogos de domingo depois das 20h.
Em contrapartida, os oito jogos disputados às 11h nesta temporada receberam média de 28.884 torcedores.
Aqui existe uma ressalva óbvia: 11h em julho no Sul não é 11h em janeiro no Rio de Janeiro.
A própria CBF admite que condições climáticas terão de ser consideradas.
Mas estabelecer uma grade minimamente previsível é um avanço.
A proposta ainda precisa ser negociada com as empresas que detêm os direitos de transmissão antes da implementação.
E aparece uma terceira mudança: dinheiro com responsabilidade
Talvez a transformação mais importante seja a menos chamativa.
A Copa do Brasil terá um salto financeiro enorme a partir de 2027.
CBF, Globo, Amazon e ESPN fecharam um ciclo de direitos entre 2027 e 2030 que supera R$ 4 bilhões, crescimento superior a 80% em relação ao contrato anterior.
Parte dessa receita adicional poderá ganhar uma destinação específica.
A proposta apresentada aos clubes prevê uma nova cota fixa para equipes das Séries A e B. Pouco menos de R$ 1 bilhão ao longo de quatro anos poderá entrar nesse modelo.
Clubes com determinadas pendências utilizariam o dinheiro para quitar obrigações. Quem estiver regular poderia direcioná-lo para infraestrutura. O desenho final ainda não está fechado.
É uma discussão que ganha significado quando observamos o cenário atual.
Na segunda verificação promovida pela agência brasileira de Fair Play Financeiro, mais da metade dos 40 clubes das Séries A e B declarou possuir algum tipo de débito com clubes, jogadores, funcionários ou poder público.
As punições previstas para novas obrigações não cumpridas podem passar por advertência, multa e retenção de receitas até chegar a transfer ban, perda de pontos, rebaixamento e cassação de licença.
Isso é mudança estrutural.
Flamengo está numa posição diferente nesse novo cenário
O Flamengo terminou 2025 com R$ 2,089 bilhões de receita operacional bruta, sendo R$ 1,571 bilhão de receita recorrente e R$ 519 milhões provenientes da venda de atletas. Foi a primeira vez que o clube ultrapassou a marca dos R$ 2 bilhões.
Esses números ajudam a entender por que determinadas discussões interessam tanto ao clube.
O Flamengo construiu escala financeira, ampliou sua capacidade de investimento e internacionalizou seu processo de contratação.
Não seria razoável pedir tratamento especial ao Flamengo por isso.
Mas também não parece saudável criar regras que punam eficiência esportiva ou financeira simplesmente porque alguns concorrentes não conseguem acompanhar o mesmo ritmo.
É aí que aparece a linha que a CBF terá de aprender a respeitar.
Fiscalizar quem não paga é organização.
Criar um calendário compreensível é organização.
Exigir espaço real para formação de jovens pode ser organização.
Determinar progressivamente quantos jogadores de determinado passaporte um clube profissional pode utilizar é uma intervenção muito mais discutível.




