O Botafogo que entra no Maracanã para enfrentar o Flamengo neste domingo está longe de ser o mesmo clube que começou a temporada. Em poucas semanas, o rival rubro-negro acelerou uma profunda reformulação que envolve elenco, folha salarial, comando técnico e até a estrutura de controle da SAF.

Ao todo, o Botafogo chegou a 11 saídas durante a atual janela de transferências. O processo já havia provocado uma economia estimada em aproximadamente R$ 6 milhões por mês quando oito jogadores tinham deixado o clube. Desde então, outras três negociações foram encaminhadas: Ythallo, Caio Roque e Matheus Martins.

O movimento acontece justamente em um dos momentos mais delicados da temporada alvinegra.

Eliminado da Copa do Brasil e da Copa Sul-Americana, o Botafogo tenta encontrar estabilidade no Campeonato Brasileiro enquanto muda peças importantes fora de campo.

É nesse cenário que o time atravessa a cidade para enfrentar um Flamengo que também precisa do resultado, mas vive uma realidade completamente diferente em relação à continuidade do trabalho.

Onze jogadores deixaram o Botafogo

A reformulação do elenco não foi apenas pontual.

O planejamento do departamento de futebol estabeleceu como prioridades reduzir o número de jogadores, diminuir o custo mensal da equipe e abrir espaço para uma nova montagem do elenco.

Grande parte das 11 saídas ocorreu por meio de rescisões contratuais. Também houve empréstimos, enquanto somente duas negociações geraram compensação financeira direta para o clube.

O caso de maior impacto esportivo é o de Matheus Martins.

O atacante foi negociado com o Dínamo Moscou por aproximadamente 7 milhões de euros, valor próximo de R$ 42 milhões. Diferentemente de boa parte dos jogadores que deixaram o clube, Matheus vinha sendo utilizado regularmente.

Foram 38 partidas na temporada, com seis gols e uma assistência.

Isso significa que a reformulação não atingiu apenas jogadores sem espaço. Na reta final da janela, o Botafogo também abriu mão de uma peça que fazia parte efetivamente da rotação do time.

Folha salarial encolheu milhões

A redução de custos é um dos pontos centrais do processo.

Quando oito saídas já tinham sido concretizadas no início de agosto, a economia mensal estimada pelo Botafogo estava em aproximadamente R$ 6 milhões.

Em uma temporada completa, mantido esse nível de redução, o impacto financeiro poderia superar R$ 70 milhões.

O número ajuda a dimensionar o tamanho da mudança.

A estratégia não significa necessariamente que o Botafogo pretende reduzir permanentemente seu investimento no futebol. A ideia é retirar contratos considerados pouco eficientes para abrir margem dentro da folha e, posteriormente, investir em jogadores considerados prioritários.

O clube chegou a trabalhar com a possibilidade de buscar uma contratação de maior peso para o fechamento da janela.

Luiz Henrique, atualmente no Zenit, apareceu como sonho da diretoria. A operação, entretanto, sempre foi considerada extremamente complicada.

A redução da folha, portanto, representa também uma tentativa de reorganizar a forma como o dinheiro será distribuído no elenco.

SAF também vive uma transição

A mudança não acontece apenas dentro das quatro linhas.

O Botafogo atravessa uma transição importante na administração de sua SAF.

A GDA, ligada ao empresário mexicano Gabriel de Alba, passou a ocupar espaço no projeto após o período comandado pela Eagle Football, de John Textor.

Antes mesmo da conclusão de todo o processo societário, a nova investidora realizou um aporte de US$ 14,3 milhões, aproximadamente R$ 75 milhões na cotação divulgada na ocasião.

O dinheiro ajudou o clube a cumprir compromissos imediatos e deu fôlego financeiro durante o início da transição.

Gabriel de Alba esteve no Rio de Janeiro em agosto, participou de reuniões, visitou a estrutura do clube e acompanhou de perto os primeiros movimentos da nova administração.

Portanto, o clássico contra o Flamengo acontece enquanto o Botafogo ainda tenta compreender qual será exatamente a identidade esportiva da nova gestão.

Três treinadores enquanto Jardim permanece no Flamengo

Talvez nenhum número mostre melhor a diferença de estabilidade entre os rivais do que o banco de reservas.

Leonardo Jardim chegou ao Flamengo em março.

Desde então, o Botafogo passou por três comandos diferentes: Martín Anselmi, Franclim Carvalho e Rodrigo Bellão, que assumiu interinamente em dois momentos.

No mesmo período em que Jardim conseguiu desenvolver sequência no Flamengo, o rival precisou alterar repetidamente sua liderança técnica.

Anselmi deixou o clube depois de uma passagem marcada por irregularidade.

Franclim Carvalho assumiu posteriormente e chegou a construir resultados importantes, mas perdeu força depois da pausa da temporada. A goleada por 6 a 1 sofrida diante do Cienciano, no Peru, pela Copa Sul-Americana, foi determinante para sua demissão.

Rodrigo Bellão, treinador do Sub-20, voltou então ao comando do time profissional.

Interino encara Flamengo e Palmeiras

A situação de Bellão também chama atenção.

Mesmo sem ser inicialmente o nome escolhido para comandar definitivamente a equipe, o treinador recebeu respaldo interno para atravessar uma sequência extremamente pesada.

O planejamento é mantê-lo diante de Flamengo e Palmeiras.

A decisão passa pela confiança dos jogadores e dos profissionais do departamento de futebol, mas também pelas dificuldades encontradas pelo Botafogo no mercado.

Em agosto, com a temporada avançada e competições já entrando em momentos decisivos, o clube encontrou obstáculos para contratar um treinador considerado adequado ao projeto.

Bellão acabou se transformando na solução interna.

Sob seu comando, o Botafogo venceu o Cienciano por 1 a 0 no Nilton Santos, resultado insuficiente para evitar a eliminação continental, já que havia perdido a ida por 6 a 1.

Na sequência, perdeu por 3 a 2 para o Athletico-PR pelo Campeonato Brasileiro.

Eliminação aumentou pressão da torcida

O ambiente também ficou mais pesado nas últimas semanas.

A eliminação para o Cienciano foi acompanhada por protestos no Nilton Santos.

Apesar da vitória por 1 a 0 no jogo de volta, o placar agregado terminou em 6 a 2 para os peruanos.

Durante a partida, jogadores foram vaiados e a arquibancada chegou a direcionar gritos de protesto contra a equipe.

A derrota posterior para o Athletico-PR por 3 a 2 manteve a pressão.

O Botafogo chega ao clássico, portanto, tentando impedir que uma sequência de resultados negativos transforme o processo de reformulação em uma crise esportiva mais profunda.

Flamengo encontra rival no meio de uma reconstrução

O cenário cria um contraste interessante para o clássico.

O Flamengo também realizou movimentações importantes nesta janela. Gonçalo Plata e Wallace Yan deixaram o clube, enquanto a diretoria ainda avalia novas oportunidades no mercado.

A diferença está principalmente na estrutura.

Leonardo Jardim tem sequência de trabalho, um elenco consolidado e um time ainda diretamente envolvido na disputa pelo título brasileiro.

Do outro lado, o Botafogo chega ao Maracanã enquanto reduz folha, negocia jogadores, muda sua estrutura administrativa e utiliza um treinador interino.

Isso não significa que o clássico esteja decidido antes de a bola rolar.

Historicamente, Flamengo x Botafogo é um confronto capaz de reduzir diferenças técnicas e transformar momentos distintos em 90 minutos de enorme pressão.

Mas o contexto ajuda a entender por que o duelo deste domingo representa muito mais para o Botafogo do que apenas três pontos.

Uma vitória diante do Flamengo poderia interromper a pressão e oferecer tranquilidade para a reconstrução.

Uma nova derrota, especialmente em um clássico, tende a aumentar as cobranças sobre uma gestão que ainda está apresentando seu novo projeto ao torcedor.