A possibilidade de o Flamengo precisar encontrar um novo patrocinador master deixou de ser apenas um cenário distante. Com o governo federal avançando para uma Medida Provisória que pode proibir as apostas esportivas online no Brasil, o clube já observa alternativas para ocupar o espaço mais valioso de sua camisa caso a Betano seja obrigada a encerrar suas operações no país.
Dois nomes aparecem neste momento: Lubrax e Cimed.
Mas a principal questão para o Flamengo não é simplesmente encontrar uma empresa interessada. É saber se alguma companhia fora do mercado de apostas terá capacidade — e disposição — para chegar perto dos R$ 268,5 milhões por temporada pagos atualmente pela Betano.
A diferença pode representar uma perda de receita significativa justamente em um momento em que o clube elevou seu patamar comercial para números inéditos no futebol brasileiro.
Betano mais que dobrou antigo patrocínio do Flamengo
A Betano assumiu o patrocínio master do Flamengo em 20 de agosto de 2025, em contrato válido até 31 de dezembro de 2028. O acordo foi aprovado pelo Conselho Deliberativo e estabeleceu o maior patrocínio da história do futebol brasileiro.
O valor definido foi de R$ 268,5 milhões por temporada, com um total próximo de R$ 895 milhões ao longo dos 40 meses de contrato.
O salto foi enorme.
Antes da Betano, a posição principal da camisa era ocupada pela Pixbet, cujo acordo rendia aproximadamente R$ 125 milhões por ano ao Flamengo. Com a mudança, o clube acrescentou mais de R$ 140 milhões anuais apenas no espaço master.
Foi justamente essa capacidade de multiplicar o valor comercial da camisa que transformou o contrato da Betano em uma peça importante da estrutura financeira rubro-negra.
Em março deste ano, considerando fornecedor esportivo e demais patrocinadores do uniforme, o Flamengo já movimentava cerca de R$ 467,6 milhões por temporada. Só a Betano respondia por mais da metade dessa cifra.
Perder o contrato, portanto, não significaria apenas trocar uma marca por outra.
Significaria tentar reconstruir uma parcela enorme da receita comercial do clube.
Mercado brasileiro havia acabado de ser regulamentado
A situação chama ainda mais atenção porque o atual modelo de apostas brasileiro é recente.
A Lei nº 14.790, aprovada em dezembro de 2023, estabeleceu regras para apostas de quota fixa e jogos online. Depois da regulamentação pelo Ministério da Fazenda, somente empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas passaram a poder operar nacionalmente a partir de 1º de janeiro de 2025.
Ou seja: o setor passou por um processo de regulamentação, autorização e fiscalização federal e, menos de dois anos depois, enfrenta a possibilidade de uma nova mudança radical.
Para o futebol, isso criou uma situação delicada.
Os clubes fecharam contratos longos contando com empresas autorizadas a operar no país. Agora, uma eventual proibição pode provocar rompimentos antecipados.
Algumas casas de apostas já comunicaram clubes que os contratos seriam rescindidos caso a atividade seja proibida. No caso da Betano, ainda não houve uma notificação formal ao Flamengo, mas representantes da empresa já teriam informado à diretoria que uma proibição total levaria ao encerramento do acordo.
Presidente da República colocou Flamengo no centro da discussão
O Flamengo ganhou ainda mais destaque no debate depois de ser citado diretamente pelo presidente da República.
Ao responder à mobilização dos clubes contra a possível proibição das bets, o presidente mencionou Flamengo e Corinthians e lembrou que grandes equipes brasileiras conquistaram títulos muito antes da entrada das casas de apostas no futebol.
A manifestação ocorreu depois que clubes e federações se organizaram para contestar a mudança. Em 17 de setembro, dirigentes participaram de uma mobilização conjunta alertando para os impactos econômicos de uma eventual proibição.
O presidente, por sua vez, tem defendido a medida principalmente com argumentos relacionados ao endividamento das famílias, vício em jogos e impactos sociais das apostas.
Nesta sexta-feira, 25 de setembro, ele voltou a confirmar publicamente que pretende assinar a Medida Provisória. Até o fechamento desta matéria, o texto ainda era tratado oficialmente como uma medida em vias de assinatura e publicação.
Clubes tentaram evitar uma ruptura
A reação do futebol não aconteceu somente por causa dos espaços nas camisas.
As bets passaram a financiar diferentes áreas do esporte brasileiro: patrocínios de clubes, campeonatos, publicidade em transmissões, placas em estádios e campanhas em emissoras e plataformas digitais.
Estimativas do setor apontam gastos bilionários por ano com publicidade e patrocínios. TVs e serviços de streaming também recebem uma parcela importante dessas receitas.
Por isso, dirigentes argumentam que uma proibição abrupta provocaria um efeito cascata muito maior do que simplesmente retirar algumas marcas dos uniformes.
Bap também participou da reação.
O presidente do Flamengo afirmou que os clubes não são contrários ao endurecimento das regras e à proteção de públicos vulneráveis, mas defendeu a manutenção de um mercado regulamentado em vez da proibição completa.
Lubrax já está dentro do Flamengo
Enquanto o futuro da Betano é discutido, a Lubrax surge como uma alternativa natural.
A marca pertence à Vibra Energia e já acertou seu retorno ao uniforme rubro-negro. A partir de outubro, ocupará a parte superior das costas da camisa, substituindo a Texaco.
A empresa também já manifestou interesse em disputar o espaço master caso ele fique disponível.
Segundo informação publicada pela RTI Esporte, a Lubrax comunicou ao Flamengo que gostaria de ser considerada numa eventual substituição da Betano.
Estar atualmente dentro do clube facilita o diálogo, mas existe uma diferença enorme entre o valor do contrato atual da Lubrax e aquilo que seria necessário para assumir o espaço principal.
É aí que começa a maior dificuldade do Flamengo.
Cimed já vinha conversando antes da crise
A Cimed é outro nome acompanhado pelo Flamengo.
O Fla Opina apurou que a farmacêutica aparece entre as empresas que podem participar de uma eventual composição para o espaço master.
E essa aproximação não começou depois da ameaça às bets.
Em agosto, João Adibe, presidente da Cimed, esteve com representantes do Flamengo para conversar sobre projetos futuros envolvendo as duas marcas.
Existe também uma relação profissional antiga entre Adibe e Luiz Eduardo Baptista.
Na época em que Bap comandava a SKY Brasil, SKY e Cimed chegaram a desenvolver conjuntamente um projeto esportivo no vôlei. Portanto, o diálogo entre os dois empresários antecede em muitos anos a atual gestão do Flamengo.
A reunião recente aconteceu quando a Betano ainda ocupava normalmente o espaço master e não havia definição sobre uma proibição do mercado de apostas.
Com a mudança no cenário, porém, aquela conversa ganha outro peso.
O que poderia representar inicialmente apenas mais um patrocinador para o portfólio rubro-negro pode se transformar em uma negociação muito maior.
O problema não é encontrar interessados
O tamanho do Flamengo praticamente garante que grandes empresas estarão dispostas a conversar caso o espaço master fique disponível.
O problema é o preço.
Durante anos, os valores pagos pelas casas de apostas inflacionaram os principais espaços comerciais dos clubes brasileiros. Empresas de setores tradicionais dificilmente trabalharam com cifras semelhantes.
O Flamengo saiu de R$ 125 milhões anuais com a Pixbet para R$ 268,5 milhões com a Betano.
Agora, caso a Betano saia, a diretoria poderá enfrentar a seguinte escolha: encontrar uma única empresa capaz de se aproximar desse valor ou aceitar uma queda importante na receita.
Também não está descartada uma engenharia comercial diferente, com mais ativos, bônus, ações digitais e outras propriedades ligadas à marca Flamengo para elevar o tamanho de um eventual novo acordo.
Mas qualquer comparação precisa partir de uma realidade: o contrato da Betano colocou o patrocínio master do Flamengo em um patamar que praticamente nenhuma empresa tradicional do mercado brasileiro havia alcançado.




