Luiz Eduardo Baptista, o BAP, abriu uma nova frente de discussão dentro da CBF. Depois de o Flamengo ser derrotado na votação que reduziu gradualmente o limite de estrangeiros no futebol brasileiro, o presidente rubro-negro colocou na mesa outra mudança importante: o fim da regra dos 12 jogos no Brasileirão.
Hoje, um jogador pode atuar por até 12 partidas por um clube da Série A e ainda se transferir para outra equipe da mesma divisão. Ao ultrapassar esse limite, ele fica impedido de defender um novo time naquela edição do campeonato.
BAP quer eliminar essa trava.
A proposta não foi votada na reunião de segunda-feira porque, segundo a CBF, o tema não fazia parte da pauta previamente definida. A entidade, porém, informou que a discussão deverá entrar em uma reunião futura com os clubes das Séries A e B.
A discussão tem potencial para mexer diretamente no mercado interno do futebol brasileiro.
Por que o Flamengo quer mudar a regra
A posição do Flamengo está ligada à leitura de que o futebol brasileiro caminha para ficar mais restritivo justamente em duas frentes ao mesmo tempo.
De um lado, os clubes aprovaram a redução gradual do número de estrangeiros permitidos por partida. O limite, que atualmente é de nove, cairá para oito em 2027 e continuará diminuindo até chegar a cinco em 2030.
Do outro, continua existindo uma limitação importante para contratar jogadores brasileiros durante o próprio campeonato.
É aí que entra a regra dos 12 jogos.
Se um atleta já tiver ultrapassado essa marca por um clube da Série A, ele deixa de ser uma opção para outro time da mesma divisão naquela edição do Brasileirão.
Na prática, isso reduz o número de jogadores disponíveis no mercado nacional conforme a competição avança.
A leitura defendida por BAP é simples: se o futebol brasileiro pretende diminuir a dependência de estrangeiros, precisa ao mesmo tempo permitir maior circulação de jogadores brasileiros entre os clubes.
Flamengo tentou levar os dois assuntos juntos
Durante a reunião que aprovou a redução de estrangeiros, o Flamengo tentou conectar os dois debates.
Além de se posicionar contra a redução até cinco estrangeiros em 2030, BAP apresentou uma proposta mais branda para o tema: reduzir para oito em 2027 e voltar a discutir o assunto depois da próxima temporada.
Essa alternativa nem chegou a ser analisada.
O presidente rubro-negro também queria que a CBF discutisse o fim da trava dos 12 jogos naquele mesmo encontro.
A entidade respondeu que esse ponto não estava incluído na pauta e, por isso, não poderia ser deliberado naquele momento.
O tema ficou para depois.
Regra dos 12 jogos já incomoda outros clubes
A crítica à regra não nasceu no Flamengo.
Abel Ferreira, técnico do Palmeiras, já havia questionado publicamente a limitação, argumentando que ela dificulta a contratação de jogadores brasileiros ao longo da temporada.
A lógica é semelhante à defendida agora pelo Flamengo: quando um atleta nacional deixa de estar disponível por já ter ultrapassado o limite de partidas, os clubes acabam olhando com mais frequência para mercados estrangeiros.
Isso cria uma situação contraditória.
A CBF pretende reduzir progressivamente a presença de estrangeiros, mas mantém uma regra que diminui o número de brasileiros disponíveis para transferências internas durante a competição.
A próxima votação, portanto, não será apenas sobre um detalhe de regulamento.
Ela vai testar até onde os clubes estão dispostos a flexibilizar o próprio mercado nacional.
A votação também pode medir a força política do Flamengo
Existe ainda outro componente que torna essa discussão especialmente interessante.
Na votação sobre estrangeiros, Flamengo e Bahia ficaram praticamente isolados. A reunião contou com 38 clubes das Séries A e B, e apenas os dois votaram contra a redução aprovada pela maioria.
O dado chama atenção porque vários clubes que aprovaram a mudança possuem hoje elencos numerosos de estrangeiros.
Athletico, Botafogo, Vasco, Flamengo e Grêmio, por exemplo, já possuem dez ou 11 atletas estrangeiros em seus grupos. Fluminense, Bahia, Cruzeiro, Atlético-MG e Internacional aparecem com nove.
Isso não significa que esses clubes tenham votado contra os próprios interesses. Eles podem considerar que o benefício esportivo ou institucional da mudança será maior no longo prazo.
Mas o tamanho da maioria mostrou que, naquele tema, o Flamengo teve pouca capacidade de convencer os demais clubes.
Por isso, a discussão dos 12 jogos pode funcionar também como um novo termômetro da posição política de BAP dentro desse processo de decisões da CBF.
Uma mudança que pode alterar o mercado brasileiro
Se a regra cair, o efeito no mercado será imediato.
Clubes poderão negociar jogadores entre si durante praticamente toda a competição, desde que estejam dentro das janelas de transferências previstas pela CBF.
Um atleta que perdeu espaço em um grande clube poderia reforçar outro time mesmo depois de ter participado de uma parcela significativa do campeonato.
Também aumentaria o número de opções disponíveis para reposições emergenciais causadas por lesões, vendas ou mudanças de treinador.
Ao mesmo tempo, a medida pode gerar resistência.
Clubes poderiam ficar mais receosos em negociar jogadores para adversários diretos durante a mesma edição do campeonato. Também existe a possibilidade de atletas importantes mudarem de lado em momentos decisivos da disputa.
É justamente esse equilíbrio entre liberdade de mercado e integridade esportiva que deverá estar no centro da próxima discussão.




