O goleiro Agustín Rossi voltou ao centro das discussões no Flamengo após o empate por 2 a 2 com o Santos, na quinta-feira (8), na Vila Belmiro, pela 29ª rodada do Campeonato Brasileiro. O argentino, reconhecido pela qualidade na distribuição de jogo e pela segurança que transmitiu em momentos importantes de 2025, atravessa uma temporada marcada por erros que levantam questionamentos sobre suas decisões dentro de campo.

O problema não se resume a uma defesa mal executada. Em 2026, Rossi acumulou episódios envolvendo saídas de bola, intervenções pelo alto, posicionamento e dificuldades diante de finalizações de média e longa distância.

O contraste chama a atenção: em uma equipe com organização defensiva e jogadores experientes, falhas individuais do goleiro podem comprometer um trabalho coletivo construído durante grande parte das partidas.

Contra o Santos, uma decisão mudou o jogo

O Flamengo vencia o Santos por 2 a 0, com gols de Danilo e Lucas Paquetá, e tinha o confronto sob controle quando uma saída de bola equivocada de Rossi iniciou a sequência que alterou o cenário da partida.

Ao tentar construir a jogada desde a defesa, o goleiro entregou um passe arriscado para Jorginho, pressionado próximo à própria área. A situação terminou em pênalti, expulsão do volante e gol de Neymar.

Com um jogador a menos, o Flamengo perdeu parte da capacidade de controlar a partida. Pouco depois, o Santos chegou ao empate, novamente em cobrança de pênalti convertida por Neymar.

Embora o segundo gol envolva uma jogada distinta, o erro inicial de Rossi teve participação importante na mudança de rumo do confronto.

O episódio expôs um problema que vai além da capacidade técnica de executar passes: a escolha do momento adequado para tentar uma saída curta.

A confiança que pode se transformar em perigo

Rossi possui recursos para participar da construção ofensiva. Consegue trabalhar com os pés, oferece alternativas aos defensores e permite que o Flamengo mantenha a posse de bola desde o campo defensivo.

Entretanto, ter qualidade para executar determinado movimento não significa que ele seja sempre a decisão mais segura.

Quando o adversário pressiona a saída, insistir em passes curtos pode transformar uma situação controlada em oportunidade de gol para o rival.

O lance contra o Santos exemplifica essa diferença. O problema não foi simplesmente utilizar os pés, mas escolher uma alternativa de elevado risco diante da pressão adversária.

Para um goleiro, reconhecer quando acelerar, recuar ou afastar a bola é tão importante quanto a precisão do passe.

A confiança é uma característica positiva quando acompanhada de leitura de jogo. Sem essa avaliação, pode levar a decisões que colocam companheiros em situações difíceis.

Oito gols de fora da área aumentaram os questionamentos

As dificuldades de Rossi em 2026 não ficaram restritas à construção das jogadas.

Levantamento publicado pelo ge em 24 de agosto identificou oito gols sofridos pelo argentino em finalizações de fora da área. Em três situações, ele estava adiantado em razão do desenvolvimento da jogada. Nas outras cinco, encontrava-se próximo à própria meta.

O número não significa que os oito gols tenham sido falhas individuais. Entretanto, a repetição de finalizações convertidas em gols abriu espaço para questionamentos sobre posicionamento, leitura das trajetórias e tempo de reação.

Entre os episódios analisados estiveram chutes de Gabriel, do Bragantino, Romero e Arroyo, do Cruzeiro, além de Lautaro Díaz, do Santos.

O próprio Rossi reconheceu, em agosto, que poderia ter se posicionado melhor na finalização de Arroyo. Por outro lado, contestou a interpretação de que todo chute de longa distância convertido em gol representa erro do goleiro, citando como exemplo uma finalização de Erick, do Vitória.

A distinção é necessária. Existem chutes indefensáveis, mas também finalizações nas quais pequenas diferenças de posicionamento e reação podem determinar o resultado do lance.

As falhas começaram antes da reta final

Os questionamentos sobre Rossi já haviam ganhado força em maio.

Naquele período, levantamento do ge apontou falhas do goleiro em quatro de cinco partidas consecutivas. Entre os episódios estavam a saída pelo alto no gol de Luan Cândido, do Vitória, pela Copa do Brasil, e o erro diante de uma finalização de Mendoza, do Athletico-PR, pelo Campeonato Brasileiro.

Contra o Palmeiras, na derrota por 3 a 0, sua participação nos dois últimos gols também foi criticada.

A repetição levou o treinador Leonardo Jardim a abordar publicamente a situação do argentino. Apesar dos erros, o técnico manteve sua confiança no titular e destacou a importância de recuperar o desempenho do jogador.

O histórico mostra que os questionamentos não surgiram apenas depois do empate com o Santos. Eles acompanham Rossi em diferentes momentos e competições da temporada.

O sistema defensivo protege Rossi, mas quem protege o Flamengo dos erros?

Um dos aspectos mais relevantes dessa discussão está na relação entre o desempenho coletivo da defesa e as decisões individuais do goleiro.

O Flamengo possui jogadores experientes na proteção da área e capacidade para controlar a posse de bola, reduzir a pressão dos adversários e limitar oportunidades de finalização em diferentes partidas.

Isso torna ainda mais importante analisar como os gols são sofridos.

Um sistema defensivo organizado pode reduzir a quantidade de chances concedidas, mas não consegue impedir todas as consequências de uma decisão equivocada na origem da jogada ou de uma intervenção mal executada.

Também seria incorreto atribuir automaticamente a Rossi todos os gols sofridos pela equipe. Para medir sua responsabilidade exata, seria necessário examinar individualmente cada finalização e as condições defensivas de cada lance.

Ainda assim, os episódios documentados em 2026 mostram que as falhas do goleiro tiveram consequências relevantes, inclusive em confrontos decisivos.

O passado vitorioso não elimina a necessidade de correção

Rossi teve participação importante nas conquistas do Flamengo em 2025, especialmente na Libertadores, e já demonstrou capacidade para realizar defesas decisivas.

Esse histórico precisa ser considerado, assim como as intervenções que evitaram derrotas em 2026. No empate contra o Athletico-PR, por exemplo, o goleiro falhou no gol adversário, mas posteriormente realizou defesas importantes.

A discussão, portanto, não deve ser reduzida à ideia de que Rossi é incapaz de defender ou participar da construção de jogo.

O ponto central é a regularidade.

Em uma temporada disputada sob forte pressão por resultados, a experiência de um goleiro precisa aparecer não apenas nas grandes defesas, mas também nas escolhas simples, na leitura dos riscos e na capacidade de evitar situações desnecessárias.

O Flamengo não precisa abrir mão da saída curta nem das qualidades de Rossi com os pés. Precisa, sobretudo, encontrar o equilíbrio entre a coragem para jogar e a segurança exigida de quem ocupa a última linha de defesa.