Eu já critiquei muitas vezes a Data Fifa.
Já falei sobre o calendário, sobre os clubes perderem jogadores em momentos decisivos, sobre viagens intermináveis e sobre a dificuldade de montar um planejamento quando boa parte do elenco simplesmente desaparece por causa das seleções.
Mas esta Super Data Fifa conseguiu levar o problema para outro nível.
São 16 dias de janela internacional, entre 21 de setembro e 6 de outubro. Pela primeira vez, as antigas Datas Fifa de setembro e outubro foram unidas em um único período, permitindo que algumas seleções disputem até quatro partidas. E isso acontece pouco mais de dois meses depois da final da Copa do Mundo de 2026, realizada em 19 de julho. FourFourTwo
A justificativa para o novo formato inclui justamente redução de viagens e preocupação com o bem-estar dos jogadores.
Na prática, porém, estamos assistindo a uma janela em que alguns dos principais nomes do futebol mundial estão voltando machucados para seus clubes.
E aí fica difícil não fazer uma pergunta simples:
Era realmente necessário criar uma Data Fifa tão longa logo depois de uma Copa do Mundo?
Uma lista que assusta
Um levantamento citado pelo jornalista Mauro Cezar Pereira contabilizou 16 jogadores lesionados em poucos dias desta Data Fifa. UOL
Entre os nomes confirmados estão jogadores que dispensam apresentação.
Giorgian de Arrascaeta.
Kylian Mbappé.
Jamal Musiala.
Kai Havertz.
Alexander Isak.
Cody Gakpo.
Brian Brobbey.
Dan Ballard.
Eric García.
E a lista ainda pode crescer até o fim da janela.
Mbappé sofreu uma hiperextensão no joelho esquerdo defendendo a França e teve previsão inicial de dez a 12 dias fora. Musiala sofreu uma lesão muscular. Havertz também teve problema muscular e pode perder semanas. Isak voltou lesionado para o Liverpool. Gakpo machucou o tornozelo. UOL
São Real Madrid, Bayern de Munique, Arsenal, Liverpool, Barcelona e outros gigantes recebendo de volta jogadores com problemas físicos.
Não estamos falando de atletas periféricos.
Estamos falando de protagonistas.
E ainda temos amistosos
O problema fica ainda mais difícil de aceitar quando parte dessas partidas nem sequer possui caráter decisivo.
Há seleções disputando Nations League e jogos oficiais. Isso faz parte da competição e precisa ser respeitado.
Mas também existem amistosos.
Brasil e Uruguai, por exemplo, utilizaram esta janela para partidas de preparação contra adversários que, com todo respeito, não representam o mais alto nível competitivo do futebol mundial.
A Seleção Brasileira joga amistosos durante uma janela que interrompe o Campeonato Brasileiro justamente quando a temporada nacional começa a entrar em sua fase decisiva.
O Uruguai enfrentou a Coreia do Sul.
E foi justamente nessa partida que o Flamengo perdeu Arrascaeta.
Para o Flamengo, a conta chegou
Vou falar aqui também como torcedor do Flamengo.
O clube entregou seu principal jogador saudável para a seleção uruguaia.
Arrascaeta marcou, deu assistência e, depois, caiu sobre o punho esquerdo.
Resultado: fratura.
Cirurgia.
E aproximadamente dois meses de recuperação projetados.
Nesta quinta-feira, o Flamengo informou oficialmente que a operação foi concluída com sucesso e sem intercorrências. Flamengo
Ótimo.
Mas isso não muda o principal.
O Flamengo perdeu seu camisa 10 justamente no período mais importante da temporada.
O clube disputa a liderança do Campeonato Brasileiro e terá uma semifinal de Libertadores contra o Estudiantes nos dias 15 e 22 de outubro.
Arrascaeta não estará lá.
Não porque se machucou defendendo o Flamengo.
Não porque tomou uma pancada numa semifinal.
Não porque se lesionou tentando decidir um clássico.
Ele se machucou em um amistoso de seleção.
E essa diferença importa.
Quem devolve uma semifinal?
A FIFA possui o chamado Club Protection Programme.
O programa prevê indenização aos clubes quando jogadores sofrem determinadas lesões durante compromissos das seleções principais e permanecem temporariamente incapacitados por mais de 28 dias consecutivos. A compensação é baseada no salário fixo do jogador. HNS Family
Tudo muito bonito no papel.
Mas existe algo que esse dinheiro não consegue pagar.
Quem devolve ao Flamengo Arrascaeta numa semifinal de Libertadores?
Quem devolve ao Real Madrid Mbappé em um jogo importante?
Quem devolve ao Arsenal Havertz?
Quem devolve ao Liverpool Isak ou Gakpo?
Uma indenização pode ajudar financeiramente.
Ela não devolve um gol.
Não devolve uma assistência.
Não devolve um jogo.
E certamente não devolve um título perdido.
O risco fica com quem paga o salário
Esse é o ponto que mais me incomoda nesse sistema.
O clube contrata.
O clube paga salário.
O clube investe em estrutura.
O clube cuida da preparação física.
O clube monta o elenco.
O clube faz o planejamento da temporada.
Chega a Data Fifa, entrega seu patrimônio esportivo para uma seleção e assume praticamente todo o risco técnico da operação.
Depois, se o atleta retorna lesionado, começa a corrida para reorganizar o time.
É exatamente o que Leonardo Jardim está fazendo agora.
O Flamengo montou um dos elencos mais fortes do continente e terá alternativas para tentar substituir Arrascaeta.
Mas isso não muda o absurdo da situação.
Você pode ter Paquetá, Carrascal, Plata, Samuel Lino ou quem quiser.
Nenhum deles faz Arrascaeta deixar de ser Arrascaeta.
E haverá outra Data Fifa
Talvez o mais curioso seja que essa enorme pausa nem sequer encerra o calendário internacional de 2026.
Entre 9 e 17 de novembro, haverá outra Data Fifa, desta vez com duas partidas previstas para as seleções. FourFourTwo
Ou seja: os clubes ainda terão outra interrupção antes do fim da temporada.
Na Europa, isso acontece enquanto trabalhos recém-iniciados ainda procuram estabilidade depois da Copa do Mundo.
No Brasil, acontece durante a reta final das competições.
Dois contextos diferentes.
O mesmo problema.
Até quando os clubes aceitarão?
Thomas Tuchel, treinador da Inglaterra, disse nesta janela que considerar poupar jogadores para protegê-los para seus clubes seria uma “loucura”. Para ele, a seleção precisa utilizar seus melhores atletas. Reuters
Eu consigo entender o lado do treinador.
Se é técnico da seleção, quer os melhores.
Mas também consigo entender cada vez menos a passividade dos clubes.
Em algum momento, os grandes clubes do mundo precisarão discutir esse calendário com muito mais força.
E talvez os próprios jogadores também tenham que entrar nessa conversa.
Não estou dizendo que ninguém deve defender seu país.
Não estou dizendo que uma Copa do Mundo ou uma partida decisiva de seleção não tenha importância.
Estou falando de bom senso.
De necessidade.
De colocar o jogador no centro da decisão.
Quatro partidas numa mesma janela, tão pouco tempo depois de uma Copa do Mundo, precisam mesmo existir?
Todo amistoso precisa contar com os principais jogadores durante 90 minutos?
Todo clube precisa simplesmente aceitar qualquer convocação, em qualquer momento da temporada, independentemente do contexto?
São perguntas que o futebol precisa começar a responder.
Porque nesta Super Data Fifa já temos uma resposta para outra pergunta.
Quem paga a conta?
Os clubes.
Desta vez, quem paga é o Flamengo.
O Real Madrid paga.
O Liverpool paga.
O Arsenal paga.
O Bayern paga.
E, no fim, quem também paga é o próprio futebol mundial.
Porque nenhum torcedor compra ingresso, liga a televisão ou acompanha uma decisão para ver os melhores jogadores no departamento médico.




