Há relações no futebol que podem ser explicadas como simples negócios. Há outras que, pela quantidade de interesses envolvidos, começam a exigir perguntas mais incômodas.

O que está acontecendo entre Vasco, Palmeiras, Crefisa e o grupo interessado na compra da SAF cruz-maltina parece ter chegado justamente a esse segundo estágio.

A Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (Anresf) instaurou o primeiro Procedimento de Verificação de Conflito de sua história para analisar a possível aquisição da SAF do Vasco pelo grupo de Marcos Lamacchia, empresário que é filho de José Roberto Lamacchia e enteado de Leila Pereira, presidente do Palmeiras.

A investigação, por si só, não comprova qualquer irregularidade.

Mas também está longe de ser um detalhe.

A questão que começa a ganhar tamanho no futebol brasileiro é outra:

Vasco e o universo empresarial ligado ao Palmeiras estão ficando próximos demais?

Não começou com uma fotografia

Nos últimos dias, uma imagem chamou atenção.

Marcos Lamacchia apareceu no gramado do Nubank Parque vestindo a camisa do Vasco, ao lado de Leila Pereira, antes justamente de Palmeiras x Vasco pelo Campeonato Brasileiro.

Houve troca de camisas e registros públicos da aproximação. Lamacchia já negocia a aquisição da SAF cruz-maltina e declarou que aguarda os trâmites judiciais para avançar na operação.

Uma fotografia isolada seria apenas uma fotografia.

O problema é que ela veio depois de uma sequência muito maior de relações financeiras e empresariais.

E é aí que a história começa a ficar bem mais interessante.

R$ 80 milhões da Crefisa

Em outubro de 2025, o Vasco recebeu um empréstimo DIP de R$ 80 milhões da Crefisa, dentro de seu processo de recuperação judicial.

A operação possui ainda uma ligação direta com o futuro da SAF: caso Marcos Lamacchia se torne o novo investidor, os valores podem ser convertidos dentro da estrutura prevista para a nova operação.

A Crefisa pertence ao núcleo empresarial da família Lamacchia e é presidida por Leila Pereira, que, além da atividade empresarial, ocupa a presidência do Palmeiras.

Já seria uma relação relevante.

Mas não parou ali.

Mais R$ 40 milhões

Em julho deste ano, a Justiça autorizou o Vasco a receber outros R$ 40 milhões, dessa vez da Almirante S/A, empresa de Marcos Lamacchia.

O dinheiro também entrou no modelo de empréstimo DIP e foi destinado à recuperação judicial e ao fluxo de caixa vascaíno.

Segundo o ge, caso a empresa de Lamacchia seja vencedora do processo de aquisição da SAF, esse dinheiro poderá ser compensado com os aportes previstos no acordo de investimento.

Ou seja: enquanto a compra ainda não está definitivamente concluída, recursos ligados ao potencial futuro proprietário já ajudam a financiar a operação atual do clube.

Legalmente, são operações submetidas à Justiça e possuem estruturas próprias.

Mas, olhando exclusivamente do ponto de vista esportivo, a pergunta permanece:

até que ponto essas relações financeiras podem caminhar sem criar uma interdependência entre pessoas e empresas ligadas a dois clubes que disputam as mesmas competições?

Crefisa apareceu também em contratação

Há mais.

Em agosto, a Crefisa apareceu novamente relacionada ao Vasco. Segundo reportagem do UOL, a instituição deu aval que ajudou a viabilizar a contratação de Santiago Sosa junto ao Racing, diante da exigência de garantias financeiras pelo clube argentino.

A discussão, portanto, não está restrita ao financiamento da recuperação judicial.

Ela já chegou ao próprio mercado da bola.

É justamente quando todos esses episódios começam a ser colocados lado a lado que a aproximação deixa de ser uma simples provocação entre torcedores.

E então a Anresf entrou em campo

A Anresf decidiu que precisava investigar.

E não apenas abriu um processo.

Como o Fla Opina já mostrou anteriormente, durante a análise o órgão adotou medidas cautelares restringindo novas relações entre Vasco, Palmeiras e empresas vinculadas ao conglomerado Crefisa.

Vasco e Palmeiras ficaram impedidos, temporariamente, de negociar jogadores entre si, realizar determinadas operações financeiras, compartilhar estruturas, profissionais ou informações sensíveis. Também foram restringidas novas operações de crédito do Vasco com empresas diretamente atingidas pela decisão.

É importante fazer uma distinção.

A medida cautelar não significa que a Anresf tenha concluído que existe conflito de propriedade. O mérito ainda será analisado.

Mas existe uma pergunta inevitável:

Se a relação fosse absolutamente trivial, por que foi necessário criar tantas barreiras preventivas enquanto o caso é investigado?

É justamente aí que está o ponto mais delicado.

A regra existe para evitar influência cruzada

O Sistema de Sustentabilidade Financeira apresentado pela CBF prevê expressamente a proibição de que um mesmo proprietário controle ou exerça “influência significativa” sobre mais de um clube participante da mesma competição.

A Anresf foi criada justamente para fiscalizar, julgar e eventualmente sancionar situações envolvendo as novas regras de sustentabilidade e governança do futebol brasileiro.

Portanto, discutir a independência entre Vasco e Palmeiras não é uma teoria criada por Flamengo, imprensa ou torcedores.

É uma questão prevista na própria regulamentação.

O que a Anresf precisa determinar agora é se as relações existentes ultrapassam ou não os limites estabelecidos pelas regras.

Flamengo já havia chamado atenção para o caso

Há ainda um personagem inevitável nessa história.

O Flamengo.

Em julho, antes da abertura formal do procedimento atual, o clube enviou um ofício à Anresf pedindo que o órgão analisasse a negociação da SAF vascaína e a existência de possível conflito.

Isso aconteceu em meio a um período de crescente tensão política entre as diretorias de Flamengo e Vasco.

Desde então, as relações entre os rivais cariocas pioraram consideravelmente.

Mas, independentemente da disputa Flamengo x Vasco, a discussão agora ganhou uma dimensão institucional.

A Anresf decidiu investigar.

Coincidência demais?

Nenhum dos fatos isoladamente permite afirmar que exista alguma irregularidade.

Esse cuidado precisa ser mantido.

Mas também seria superficial analisar cada episódio separadamente e ignorar o conjunto.

Temos:

o potencial comprador da SAF do Vasco sendo enteado da presidente do Palmeiras;

um empréstimo de R$ 80 milhões da Crefisa;

outro financiamento de R$ 40 milhões através da empresa do interessado na SAF;

garantia financeira da Crefisa aparecendo numa contratação do Vasco;

uma exposição pública conjunta de Leila Pereira e Marcos Lamacchia no estádio do Palmeiras;

e, finalmente, um órgão regulador abrindo uma investigação formal e limitando preventivamente relações entre as partes.

Pode haver uma explicação jurídica perfeitamente válida para todos esses elementos.

Mas dizer que não existe absolutamente nada a ser questionado seria ignorar justamente aquilo que a própria Anresf decidiu investigar.