O Athletico-PR foi um dos clubes que chamou atenção na votação da CBF que aprovou a redução gradual do número de estrangeiros permitidos por partida no futebol brasileiro.

O motivo é simples: o clube paranaense tem atualmente 11 jogadores estrangeiros no elenco, um dos maiores números da Série A, e ainda assim votou a favor de uma medida que, nos próximos anos, vai obrigar o próprio Athletico a reduzir sua utilização de atletas de fora do país.

A nova regra começa em 2027, quando o limite cai de nove para oito estrangeiros por partida. Depois, passa para sete em 2028, seis em 2029 e chega a cinco em 2030. A proposta foi aprovada pela maioria dos clubes das Séries A e B, com apenas Flamengo e Bahia votando contra.

O Athletico, portanto, votou a favor mesmo sabendo que será diretamente atingido pela mudança.

E isso ajuda a responder uma pergunta que ficou no ar depois da reunião da CBF: por que clubes que hoje dependem bastante de estrangeiros apoiaram uma regra que restringe justamente esse mercado?

Athletico está entre os mais afetados

Hoje, Athletico, Botafogo e Vasco aparecem entre os clubes com 11 estrangeiros no elenco. Flamengo e Grêmio também estão acima do atual limite de nove relacionados por partida.

No caso do Athletico, a situação chama ainda mais atenção porque o impacto dos estrangeiros dentro do time não é pequeno.

Levantamento recente mostrou que 52,3% dos gols do Athletico no período pós-Copa foram marcados por jogadores estrangeiros, o maior percentual entre os clubes analisados.

Ou seja: o clube não apenas possui muitos estrangeiros. Eles também têm peso direto dentro do desempenho ofensivo da equipe.

Mesmo assim, o Athletico acompanhou a maioria e aprovou a redução.

A lógica por trás da mudança

A justificativa central apresentada pela CBF para a nova regra está ligada à queda no espaço dos jogadores brasileiros mais jovens.

Segundo levantamento apresentado pela própria entidade, a participação de brasileiros sub-23 na Série A caiu de 28,3% dos minutos em 2020 para 11,5% em 2026.

No mesmo período, a presença de estrangeiros acima de 23 anos aumentou de forma significativa, chegando a 25% dos minutos disputados no campeonato.

A CBF entende que esse movimento estaria diminuindo o espaço para a formação e desenvolvimento de atletas brasileiros.

A solução encontrada foi reduzir gradualmente o número de estrangeiros e, ao mesmo tempo, mudar o modelo de inscrição dos elencos.

A lista total continuará com 50 jogadores, mas será dividida entre uma Lista A, destinada aos atletas acima de 23 anos, e uma Lista B, voltada aos sub-23.

Um voto contra o interesse imediato?

O caso do Athletico mostra que nem todos os clubes votaram pensando apenas na composição atual de seus elencos.

No curto prazo, a mudança claramente exige adaptação.

Se mantiver os 11 estrangeiros atuais, o Athletico já terá de deixar jogadores de fora das relações em 2027 e precisará reduzir progressivamente esse número nos anos seguintes.

Por outro lado, os clubes que apoiaram a medida podem estar olhando para um cenário de médio e longo prazo, com maior utilização de jogadores brasileiros e valorização das categorias de base.

Essa foi justamente a linha defendida pela CBF durante a apresentação da proposta.

O problema é que a votação também abriu espaço para uma discussão maior: reduzir estrangeiros realmente significa dar mais oportunidades aos jovens brasileiros?

Debate está longe de ser consenso

A relação direta entre estrangeiros e falta de espaço para jovens brasileiros está sendo questionada por parte da imprensa esportiva.

Há quem defenda que o principal problema não está no número de estrangeiros, mas na dificuldade dos clubes brasileiros em manter seus talentos por mais tempo.

Jogadores promissores muitas vezes são vendidos ainda muito jovens para o futebol europeu, principalmente porque as transferências representam uma parte fundamental das receitas dos clubes.

Nesse cenário, limitar estrangeiros não garante automaticamente que o espaço será ocupado por jogadores da base.

Também existe a possibilidade de os clubes simplesmente buscarem jogadores brasileiros mais experientes.

Outro efeito possível é o aumento do preço dos atletas brasileiros no mercado interno, já que haverá menos alternativas estrangeiras disponíveis ao longo dos próximos anos.

Flamengo ficou praticamente sozinho

Enquanto o Athletico acompanhou a maioria, o Flamengo seguiu pelo caminho oposto.

O Rubro-Negro votou contra a redução e chegou a sugerir uma alternativa mais gradual: baixar o limite para oito estrangeiros em 2027 e reavaliar a situação antes de novas reduções.

A proposta não chegou a ser analisada.

BAP também tentou incluir na discussão o fim da regra dos 12 jogos, argumentando que não faria sentido restringir a contratação de estrangeiros sem facilitar ao mesmo tempo a circulação de jogadores brasileiros entre clubes do próprio país.

A discussão dos 12 jogos ficará para uma próxima reunião.

E esse próximo encontro pode começar a mostrar se o isolamento do Flamengo aconteceu apenas nesse tema específico ou se existe uma dificuldade maior de articulação política do clube dentro da CBF.