O “atleta Marcão”, como foi ironicamente chamado pelo presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, voltou ao centro da discussão envolvendo Gerson e o clube.

Pai, empresário e personagem central das negociações da carreira do meio-campista, Marcão concedeu entrevista nesta quinta-feira e fez diversas acusações contra o Flamengo. Entre elas, classificou o processo judicial movido pelo clube como uma “armação”.

Até aí, está no seu direito.

Marcão pode discordar da cobrança. Pode questionar a validade da cláusula. Pode contratar advogados, apresentar sua defesa e tentar demonstrar diante da Justiça que Flamengo, Gerson e FGM Sports não possuem qualquer dívida entre si.

O problema começa quando ele apresenta publicamente uma versão da cobrança que não corresponde ao que foi divulgado sobre a ação judicial.

Marcão afirmou que o Flamengo estaria dizendo que ele recebeu antecipadamente cerca de R$ 42 milhões em direitos de imagem e que agora deveria devolver esse dinheiro após a saída de Gerson.

Mas não é isso que o Flamengo alega.

E esse detalhe muda completamente a discussão.

O Flamengo não diz que Marcão recebeu R$ 42 milhões

Segundo documentos e trechos do processo publicados por ESPN, UOL, ge e outros veículos, a ação do Flamengo está baseada em uma cláusula do contrato de direitos de imagem firmado na renovação de Gerson em abril de 2025.

A tese rubro-negra é relativamente simples.

Caso ocorresse uma rescisão antecipada nas condições previstas pelo contrato, existiria uma multa correspondente ao saldo restante do acordo de direitos de imagem.

Gerson recebia cerca de R$ 750 mil mensais por esse contrato.

Quando deixou o Flamengo, restavam 57 meses de vínculo.

A conta apresentada pelo clube chegou aos R$ 42,75 milhões cobrados judicialmente.

Não se trata, portanto, de R$ 42,75 milhões que Marcão teria recebido antecipadamente.

Trata-se de um valor calculado a partir dos meses que, segundo a interpretação do Flamengo, deixaram de ser cumpridos após a rescisão antecipada.

A diferença é enorme.

Se restasse apenas um mês do contrato, a lógica seria referente àquele período. Se restassem 20 meses, seria considerada a quantidade correspondente. No caso concreto, restavam 57.

É essa cláusula que está sendo discutida na Justiça.

Marcão tem direito de contestar a cláusula

É importante fazer uma separação que algumas paixões do futebol não permitem.

O fato de o Flamengo cobrar não significa que automaticamente tenha razão.

E o fato de Gerson e Marcão contestarem a ação também não significa que estejam certos.

Existe uma disputa jurídica.

A defesa sustenta, entre outros argumentos, que o pagamento dos €25 milhões da multa esportiva pelo Zenit encerrou a relação contratual e que o contrato de imagem não poderia produzir a cobrança defendida pelo Flamengo.

O Flamengo possui interpretação diferente e sustenta que o contrato de imagem tinha existência própria e previa expressamente as consequências de uma rescisão antecipada.

Quem decidirá qual interpretação prevalece é a Justiça.

O processo pode durar meses ou anos.

O Fla Opina não pretende substituir o juiz.

Mas uma coisa é discutir se a cláusula vale.

Outra é dizer que o Flamengo está cobrando a devolução de R$ 42 milhões entregues antecipadamente.

Pelo conteúdo do processo que se tornou público, isso simplesmente não corresponde à tese apresentada pelo clube.

Chamar de “armação” não muda o contrato

Marcão utilizou uma palavra pesada: “armação”.

Só que existe um contrato.

Existe uma cláusula.

Existe uma ação judicial baseada nessa cláusula.

E existe uma defesa contestando sua aplicação.

Pode ser que a Justiça conclua que o Flamengo está errado.

Pode ser que conclua que Gerson e a FGM Sports devem pagar.

Pode ainda chegar a uma interpretação intermediária.

Tudo isso faz parte de uma disputa contratual.

O que não parece razoável é transformar a discussão numa narrativa segundo a qual o Flamengo teria inventado que Marcão recebeu R$ 42 milhões antecipadamente.

O clube não está pedindo a devolução de um adiantamento de R$ 42,75 milhões. Está cobrando uma multa que entende ter sido acionada pela rescisão antecipada do contrato de imagem.

Essa é a discussão verdadeira.

A multa de €25 milhões também foi assinada

Outro argumento utilizado por Marcão envolve a redução da multa internacional de Gerson.

Antes da renovação, a cláusula para transferência ao exterior estava estabelecida em €200 milhões. Depois do novo acordo assinado em abril de 2025, caiu para €25 milhões.

O Zenit já demonstrava interesse no jogador naquele momento.

Meses antes, o clube russo havia apresentado propostas ao Flamengo. Uma delas começou em €18 milhões, e outra negociação envolveu €20 milhões fixos mais valores condicionados a metas.

O Flamengo optou por manter Gerson e renovar seu contrato.

O jogador recebeu valorização salarial, estendeu o vínculo até o fim de 2030 e, dentro daquele novo acordo, a multa internacional foi reduzida.

Poucos meses depois, o Zenit depositou os €25 milhões previstos e Gerson deixou o Flamengo.

Isso também não aconteceu escondido de Gerson ou de seu estafe.

Foi um contrato negociado, aceito e assinado pelas partes.

Marcão pode hoje discordar das consequências que outros dispositivos daquele acordo produziram.

Mas não pode apagar o fato de que participou ativamente da construção daquele novo vínculo.

A carreira de Gerson merece uma reflexão

E aqui talvez esteja o ponto que mais preocupa o Fla Opina.

Gerson é um excelente jogador.

Já foi protagonista de grandes conquistas, teve duas passagens importantes pelo Flamengo e construiu uma relação que poderia ter se transformado numa história ainda maior dentro do clube.

Mas sua carreira também é marcada por mudanças de clube antes do término dos contratos originalmente assinados.

Saiu da Roma antes do fim do vínculo. Foi vendido pelo Flamengo ao Olympique de Marselha. Retornou ao Flamengo antes de completar o contrato francês. Renovou até 2030 e deixou o Rubro-Negro meses depois. Assinou por cinco anos com o Zenit e ficou apenas um semestre antes de retornar ao Brasil para defender o Cruzeiro.

Transferências antes do fim de contratos são absolutamente normais no futebol.

Não existe ilegalidade nisso.

Mas a sequência permite uma pergunta legítima:

qual projeto de carreira está sendo construído para Gerson?

A cada novo ciclo existe uma negociação, uma valorização, uma transferência e um novo recomeço.

Marcão é empresário do filho e participa diretamente dessas decisões.

Gerson é adulto e, naturalmente, também responde pelas escolhas feitas em sua própria carreira.