Em menos de um mês, quatro jogadores formados ou desenvolvidos nas categorias de base do Flamengo deixaram o Rio de Janeiro com o mesmo destino: Portugal.
Rayan Lucas foi para o Alverca. Alan Santos acertou com o Benfica. Kaio Nóbrega seguiu para o Estoril. E Guilherme Gomes foi negociado com o Gil Vicente.
Os negócios são diferentes entre si, mas existe um elemento que se repete e chama atenção: o Flamengo, em vez de simplesmente vender os jogadores e encerrar completamente a relação econômica com eles, optou por manter percentuais relevantes dos direitos econômicos em praticamente todas as operações.
É um movimento que pode indicar uma estratégia mais clara do clube para jovens que já chegaram ao limite da formação, mas ainda não encontraram espaço consistente no elenco profissional.
Portugal, nesse cenário, começa a aparecer não apenas como mercado comprador, mas como uma espécie de segunda etapa de desenvolvimento e valorização para atletas da base rubro-negra.
Quatro saídas em poucas semanas
O primeiro movimento recente foi o de Rayan Lucas.
O volante de 21 anos acertou com o Alverca no início de agosto. O Flamengo não recebeu compensação financeira imediata, mas manteve 50% dos direitos econômicos do jogador.
Rayan já havia passado anteriormente pelo Sporting, onde atuou principalmente pela equipe B, e retornou ao Flamengo sem conseguir espaço definitivo no elenco principal.
Poucos dias depois, foi a vez de Alan Santos.
O atacante de 19 anos foi negociado em definitivo com o Benfica. Também não houve pagamento imediato ao Flamengo, mas o clube permaneceu com 50% dos direitos econômicos do atleta, apostando em uma futura valorização.
Na sequência, Kaio Nóbrega também deixou o clube.
O volante de 19 anos acertou em definitivo com o Estoril. O Flamengo permaneceu com 30% dos direitos econômicos, sem receber valor imediato na transferência.
Por fim, Guilherme Gomes foi negociado com o Gil Vicente.
Nesse caso, houve retorno financeiro imediato: € 400 mil por 70% dos direitos econômicos. O clube português ainda terá a possibilidade de adquirir mais 15% por € 100 mil.
O padrão começa a aparecer
Quando quatro jogadores deixam a mesma base em poucas semanas e seguem para o mesmo país, dificilmente se trata apenas de coincidência.
Os casos mostram um padrão de atuação.
O Flamengo identifica jogadores que têm potencial, mas encontram dificuldade para conquistar espaço no profissional. Em vez de simplesmente liberá-los por completo ou mantê-los sem perspectiva, negocia a saída e preserva participação econômica.
A lógica é simples.
Se o jogador se valoriza em Portugal e depois é vendido para um mercado maior, o Flamengo ainda participa da operação.
Em alguns casos, o clube prefere abrir mão de receita imediata em troca de um percentual maior no futuro.
É uma estratégia de risco.
Mas também pode ser extremamente lucrativa quando funciona.
Portugal é um mercado especialmente interessante
Para o jogador brasileiro, Portugal possui características que facilitam a transição.
O idioma reduz a barreira de adaptação.
O futebol português serve como porta de entrada para a Europa.
E, principalmente, os clubes do país possuem longa tradição de desenvolver jogadores jovens e revendê-los para mercados financeiramente mais fortes.
Benfica, Porto, Sporting e vários clubes médios construíram durante anos modelos baseados justamente em captação, desenvolvimento e revenda.
Isso transforma Portugal em uma ponte natural entre o futebol brasileiro e mercados como Inglaterra, Espanha, França, Alemanha e Itália.
Para o Flamengo, manter percentuais nesses jogadores significa continuar acompanhando economicamente essa trajetória.
O caso de Guilherme mostra outra possibilidade
A negociação de Guilherme Gomes ajuda a mostrar uma versão diferente da estratégia.
Ao contrário das outras três operações, o Flamengo recebeu dinheiro imediatamente.
O Gil Vicente pagará € 400 mil por 70% dos direitos.
Isso significa que o clube rubro-negro consegue gerar receita agora e ainda manter participação relevante caso o jogador seja vendido futuramente.
É uma combinação interessante.
Guilherme estava no último ano do sub-20 e vinha sem espaço no elenco profissional.
Manter o jogador indefinidamente na base já não parecia produtivo.
Vendê-lo por completo poderia significar perder qualquer participação futura.
A solução intermediária foi transformar parte do ativo em receita e preservar outra parte.
O Flamengo está mudando a forma de lidar com a base?
É cedo para afirmar que Portugal virou oficialmente uma política do clube.
Mas os negócios mostram uma direção clara.
Durante muito tempo, clubes brasileiros mantiveram jogadores jovens até o limite contratual, emprestaram sucessivamente ou venderam por valores baixos sem conservar participação futura.
O Flamengo parece estar tentando evitar isso em alguns casos.
O objetivo passa a ser transformar jogadores sem espaço imediato em ativos que ainda podem gerar receita alguns anos depois.
Nesse modelo, a saída não significa necessariamente o fim da relação econômica.
É quase como se o clube terceirizasse uma etapa da valorização.
O jogador sai.
Ganha minutos.
Adapta-se à Europa.
Valoriza.
E o Flamengo continua participando do resultado financeiro.
Mas existe um risco
Nem toda aposta funciona.
O jogador pode não se firmar.
Pode perder valor.
Pode trocar de clube sem gerar uma venda relevante.
E, nos casos em que não há pagamento imediato, o Flamengo assume o risco de nunca receber nada.
Também existe uma discussão esportiva.
Alguns desses jogadores poderiam, eventualmente, desenvolver-se dentro do próprio Flamengo.
Liberá-los cedo demais pode significar perder uma opção futura para o elenco.
É por isso que o equilíbrio precisa ser bem calculado.
A base não pode servir apenas como fonte de receita.
Mas também não faz sentido manter dezenas de atletas sem espaço, bloqueando desenvolvimento e acumulando contratos.
O projeto do Leixões volta à memória
O movimento atual também faz lembrar uma discussão antiga dentro do Flamengo.
Durante a gestão de Rodolfo Landim, o clube chegou a estudar uma entrada no futebol português por meio do Leixões.
Uma das ideias por trás do projeto era justamente utilizar Portugal como plataforma de desenvolvimento e valorização para jogadores jovens formados no Flamengo.
A lógica era clara: atletas sem espaço imediato no profissional poderiam ganhar minutos em uma competição europeia, adaptar-se a outro mercado e aumentar o próprio valor.
O projeto encontrou resistência e não avançou como imaginado.
Na época, houve forte debate político dentro do Flamengo sobre a conveniência de investir em um clube no exterior e sobre os riscos de uma operação desse tipo.
Hoje, porém, o cenário produz uma ironia difícil de ignorar.
Rayan Lucas está no Alverca.
Alan Santos está no Benfica.
Kaio Nóbrega foi para o Estoril.
Guilherme Gomes seguiu para o Gil Vicente.
Ou seja: o caminho que o Flamengo tentou estruturar institucionalmente por meio do Leixões acabou acontecendo de forma fragmentada através de outros clubes portugueses.
A diferença é importante.
Se o Flamengo tivesse uma estrutura própria ou uma parceria estratégica consolidada em Portugal, poderia acompanhar mais de perto o desenvolvimento desses jogadores, controlar melhor o processo esportivo e talvez capturar uma parcela ainda maior da valorização futura.
Isso não significa que o projeto do Leixões necessariamente daria certo.
Nem que os riscos existentes na época desapareceriam.
Mas os movimentos atuais mostram que a ideia de utilizar Portugal como vitrine para a base estava longe de ser absurda.
Na prática, o mercado acabou construindo espontaneamente uma rota que o Flamengo já havia tentado




