O Flamengo continua produzindo jogadores, ganhando títulos e descobrindo talentos no Ninho do Urubu. O problema é que, nos últimos anos, uma pergunta passou a acompanhar quase toda nova geração rubro-negra: quantos desses garotos realmente terão oportunidade no time profissional?
A questão volta a ganhar força justamente quando uma nova safra começa a chamar atenção.
O Sub-17 chegou a 13 partidas consecutivas sem derrota no Campeonato Brasileiro, com oito vitórias e cinco empates. O principal personagem é João Vitor Couto. Aos 17 anos, o camisa 10 alcançou 22 gols na temporada, 15 deles no Brasileiro, e foi convocado para defender a Seleção Brasileira Sub-17 na UEFA Friendship Cup. Daniel Silva, companheiro de equipe, também foi chamado.
São números que naturalmente fazem o torcedor olhar para baixo e imaginar quem poderá aparecer no Maracanã daqui a alguns anos.
Mas o caminho entre o Sub-17 e o profissional do Flamengo hoje está longe de ser simples.
Uma base que aprendeu a ganhar
Pouco mais de um ano atrás, o Flamengo comemorava uma das maiores conquistas de sua história nas categorias inferiores.
Em agosto de 2025, o Rubro-Negro derrotou o Barcelona nos pênaltis, no Maracanã, e conquistou pela segunda vez consecutiva a Copa Intercontinental Sub-20. Lorran marcou, Iago buscou o empate no último lance e Léo Nannetti brilhou nas penalidades.
Aquela geração vinha de outro feito enorme: o bicampeonato da Libertadores Sub-20.
Ou seja, não faltaram títulos.
O que aconteceu depois mostra, porém, como a velocidade da base é diferente daquilo que o torcedor imagina.
Boa parte daquele elenco já seguiu outros caminhos, perdeu espaço ou entrou no mercado. E o Flamengo iniciou uma profunda reformulação no Sub-20.
A própria diretoria mudou a filosofia da categoria. Para 2026, reduziu o número de atletas e passou a defender que o sucesso da base não deveria ser medido apenas pela quantidade de troféus, mas também pela capacidade de produzir jogadores com retorno esportivo e financeiro.
O Flamengo também passou a contratar para a base
A mudança trouxe outro movimento interessante: o Ninho deixou de ser apenas lugar de formação e passou a funcionar também como mercado.
O Flamengo buscou jovens fora do clube para reforçar o Sub-20.
O argentino Juan Sayago, do River Plate, chegou por empréstimo com opção de compra. O mexicano Diego Reyes, do América-MEX, também foi contratado para a categoria e tornou-se o quinto reforço do Sub-20 naquele momento da temporada.
A lógica é compreensível.
Se o profissional contrata para ficar mais forte, a base também pode buscar jogadores para elevar o nível competitivo, acelerar desenvolvimento e encontrar talentos antes que cheguem ao mercado principal.
Só que isso cria uma nova disputa.
O garoto que sobe do Sub-17 já não encontra apenas jogadores formados com ele no Ninho. Pode encontrar também argentinos, mexicanos e jovens captados em outros clubes brasileiros disputando exatamente a mesma vaga.
E logo acima existe um elenco profissional recheado de jogadores experientes e contratações milionárias.
O funil ficou apertado.
Portugal virou uma porta recorrente
É aí que aparece um fenômeno que merece atenção.
Durante a intertemporada deste ano em Portugal, Leonardo Jardim levou vários jovens da base. O treinador explicou que aquele período serviria para avaliá-los, mas também reconheceu que seria uma oportunidade para que eles se apresentassem ao mercado europeu.
Pouco depois, alguns movimentos começaram a acontecer.
Kaio Nóbrega, de 19 anos, encaminhou saída para o Estoril sem pagamento imediato ao Flamengo. O clube manteve 30% dos direitos econômicos pensando em uma negociação futura.
Alan Santos, também de 19 anos, acertou com o Benfica. Novamente, não houve pagamento imediato pela transferência, mas o Flamengo preservou 50% dos direitos econômicos.
Já Guilherme Gomes, de 20 anos, foi encaminhado ao Gil Vicente por 400 mil euros por 70% dos direitos. Ele havia renovado até 2028, mas teve pouquíssimo espaço com Leonardo Jardim.
O movimento não começou agora.
Em 2025, Lucas Furtado, herói do bicampeonato da Libertadores Sub-20, foi liberado para o Vitória de Guimarães sem compensação imediata, enquanto o Flamengo manteve 50% dos direitos econômicos.
Quatro casos, quatro clubes portugueses.
Não significa que Portugal seja o único caminho da base rubro-negra. Mas a recorrência chama atenção.
Vender cedo pode ser estratégia
Existe uma lógica econômica nesse modelo.
Ao liberar um jovem que teria poucas oportunidades no profissional e preservar parte dos direitos econômicos, o Flamengo aposta na valorização futura.
Se o jogador crescer na Europa e for negociado posteriormente, o clube pode receber uma parcela relevante sem ter arcado com minutos, salário de profissional ou espaço no elenco principal.
É uma espécie de investimento diferido.
O problema aparece quando o jogador realmente explode.
Nesse momento, o torcedor inevitavelmente pergunta se o Flamengo não poderia ter aproveitado aquele talento antes de entregá-lo ao mercado.
E essa discussão ganha ainda mais peso porque o próprio clube já produziu exemplos gigantescos do valor que existe no Ninho.
Vinícius Júnior, Lucas Paquetá e João Gomes não foram apenas boas vendas. Foram jogadores que conseguiram mostrar qualidade no profissional antes de partir.
Nos últimos anos, com elencos cada vez mais fortes e caros, esse espaço diminuiu. A própria direção da base reconheceu a responsabilidade de voltar a produzir jogadores desse nível, enquanto Leonardo Jardim chegou a admitir que estava “em dívida” com os jovens por ter tido poucas oportunidades de observá-los durante a temporada.
E agora vem outra geração
É por isso que João Vitor Couto e os atuais jogadores do Sub-17 são mais importantes do que simplesmente seus resultados no Brasileiro.
Eles representam o próximo teste desse modelo.
João Vitor já marca em sequência. Luiz Guilherme também aparece entre os destaques ofensivos. Daniel Silva chegou à Seleção. O time saiu de um início complicado para construir uma série de 13 jogos invicto.
Em pouco tempo, alguns desses jogadores estarão batendo à porta do Sub-20.
Depois, teoricamente, viria o profissional.
Mas é justamente nesse último degrau que a história recente levanta dúvidas.




