Durante décadas, o Flamengo construiu uma identidade que ia muito além dos títulos. Havia uma frase que resumia parte dessa cultura: “Craque o Flamengo faz em casa.”

Ela não nasceu por acaso.

O Flamengo formou Zico, Júnior, Adílio, Andrade, Athirson, Sávio, Juan, Júlio César e tantos outros jogadores que vestiram a camisa profissional, ganharam títulos e deixaram marcas profundas na história do clube.

Mais recentemente, o Ninho voltou a produzir nomes de enorme impacto, como Vinícius Júnior, Lucas Paquetá e João Gomes.

A base do Flamengo nunca deixou de formar.

O que mudou foi o Flamengo.

Quando o clube precisava da base

Durante muitos anos, o Flamengo não tinha dinheiro para montar elencos milionários.

Contratações de grande porte eram exceção. Em muitos momentos, a solução estava dentro de casa.

O garoto da base não entrava apenas porque alguém acreditava em formação. Ele entrava porque o Flamengo precisava dele.

Foi assim que muitos tiveram oportunidade.

Jogavam Carioca, Brasileiro, clássicos, entravam no Maracanã lotado, erravam, acertavam, amadureciam e, eventualmente, tornavam-se jogadores importantes.

A falta de dinheiro, paradoxalmente, obrigava o Flamengo a olhar para aquilo que produzia.

Hoje, o cenário é completamente diferente.

O Flamengo tornou-se uma das maiores potências financeiras do continente. Contrata jogadores por dezenas de milhões de euros, mantém uma folha salarial enorme e possui um elenco recheado de atletas experientes.

Financeiramente, isso representa uma evolução gigantesca.

Para a base, porém, criou um novo problema.

O dinheiro fechou a porta?

Quanto mais forte fica o elenco profissional, menor tende a ser o espaço para experiências.

Um treinador pressionado por títulos naturalmente escolhe o jogador pronto.

Se há um atleta de seleção ou uma contratação milionária para determinada posição, colocar um jovem de 18 ou 19 anos deixa de ser necessidade e passa a ser opção.

E essa opção está sendo utilizada cada vez menos.

O próprio diretor da base, Alfredo Almeida, reconheceu neste ano que o desafio é produzir mais jogadores capazes de se firmar no profissional, citando Vinícius Júnior e Paquetá como referências.

Leonardo Jardim também levou jovens para a intertemporada em Portugal com a intenção de avaliá-los, mas falou abertamente sobre a possibilidade de eles se apresentarem ao mercado europeu.

Essa frase diz muito sobre o momento atual.

O jovem não viaja apenas para convencer o treinador do Flamengo.

Também viaja para ser visto por quem pode tirá-lo do Flamengo.

Portugal virou uma saída

Nos últimos meses, vários jogadores formados no Ninho seguiram justamente esse caminho.

Kaio Nóbrega foi encaminhado ao Estoril sem pagamento imediato ao Flamengo, que manteve percentual dos direitos econômicos.

Alan Santos seguiu para o Benfica em operação semelhante.

Guilherme Gomes foi negociado com o Gil Vicente.

Outros jovens também deixaram o clube mantendo o Flamengo percentuais para uma possível venda futura.

Há uma estratégia por trás disso.

O clube entende que, se aquele jogador não terá espaço no profissional, é melhor permitir que ele jogue em outro lugar e preservar parte de seus direitos.

Se valorizar, o Flamengo recebe depois.

Em alguns casos, pode funcionar muito bem.

O problema é transformar isso em política recorrente.

Formar para ganhar depois?

A lógica financeira é fácil de entender.

O Flamengo mantém 30%, 40%, 50% de um jogador que sai praticamente sem custo para outro clube.

Se esse jogador for vendido por milhões no futuro, entra dinheiro no caixa.

Mas existe uma pergunta que me incomoda.

Por que o clube que formou o jogador precisa esperar outro clube valorizá-lo?

O Flamengo possui estrutura, torcida, Maracanã, exposição internacional e disputa as maiores competições do continente.

Poucos lugares no futebol sul-americano oferecem uma vitrine maior.

Um jovem que joga bem pelo Flamengo pode multiplicar seu valor rapidamente.

Vinícius Júnior não precisou sair de graça para ser valorizado.

Paquetá também não.

João Gomes teve espaço, jogou, tornou-se importante e depois saiu valorizado.

A diferença está justamente aí.

Eles tiveram oportunidade de vestir a camisa principal.

O novo Sub-17 já está chegando

Enquanto essa discussão acontece, outra geração cresce.

O Sub-17 chegou a 13 partidas consecutivas sem perder no Campeonato Brasileiro, com oito vitórias e cinco empates.

João Vitor Couto tornou-se um dos grandes destaques: são 22 gols na temporada, 15 no Brasileiro, além de convocação para a Seleção Brasileira da categoria.

Daniel Silva também chegou à Seleção.

São garotos carregando novamente o nome do Flamengo, vencendo partidas e construindo expectativa.

Em pouco tempo, chegarão ao Sub-20.

Depois, teoricamente, viria o profissional.

É justamente nesse ponto que a pergunta começa.

O problema não é vender

Não sou contra vender jogadores da base.

Seria absurdo pensar assim.

A base também é patrimônio financeiro do clube.

O problema é a forma como muitos estão saindo.

Quando um jogador recebe oportunidades, mostra seu futebol e depois é negociado, o Flamengo aproveitou esportivamente e financeiramente aquilo que formou.

Quando o jogador passa anos no Ninho, chega ao limite da categoria e sai praticamente sem valor imediato porque nunca encontrou espaço no profissional, a sensação é diferente.

O Flamengo investiu na formação.

Outro clube recebe o jogador.

Outro clube oferece minutos.

Outro clube tenta valorizá-lo.

E o Flamengo fica esperando uma venda futura para talvez receber alguma coisa.

Para mim, existe algo errado nessa equação quando isso deixa de ser exceção.

O paradoxo do Flamengo rico

Talvez essa seja uma das ironias da transformação do clube.

Quando o Flamengo era pobre, precisava dos garotos.

Agora que ficou rico, parece precisar menos deles.

É claro que ninguém deseja voltar ao tempo em que o clube não conseguia contratar.

Muito pelo contrário.

O Flamengo precisa continuar forte financeiramente e contratar grandes jogadores.

Mas dinheiro e base não deveriam ser caminhos opostos.

Os maiores clubes do mundo contratam craques e continuam abrindo espaço para jovens.

Uma coisa não deveria eliminar a outra.