A possível entrada de Marcos Lamacchia no controle da SAF do Vasco deixou de ser apenas um tema de bastidores e passou oficialmente pelo radar da Confederação Brasileira de Futebol. A Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol da CBF já recebeu os documentos do pré-acordo firmado entre o empresário e o clube carioca e iniciou a análise da operação à luz das regras de Fair Play Financeiro.
O ponto central é a ligação familiar de Marcos Lamacchia com Leila Pereira, presidente do Palmeiras. O empresário é filho de José Roberto Lamacchia e enteado de Leila. Pela regulamentação adotada pela CBF, a discussão sobre multipropriedade não se limita apenas a uma mesma pessoa controlar formalmente dois clubes. O regulamento também alcança situações de controle ou influência significativa sobre equipes que possam disputar a mesma competição.
Segundo apuração do UOL, o artigo 86 estabelece restrições envolvendo propriedade ou controle sobre mais de um clube da mesma divisão e estende a análise a parentes de primeiro grau, incluindo enteados. É esse dispositivo que colocou a negociação entre Lamacchia e Vasco sob avaliação da agência.
CBF já recebeu documentos da operação
O Vasco entregou os documentos solicitados, incluindo o Memorando de Entendimento, o MOU, assinado com Marcos Lamacchia. O material apresenta bases financeiras do negócio e informações sobre a composição societária prevista para a SAF.
Entre os números apresentados estão cerca de R$ 1,3 bilhão em dívidas do Vasco e uma previsão de R$ 700 milhões para futebol e centro de treinamento. A documentação também considera déficit de R$ 200 milhões a R$ 300 milhões por ano durante os próximos cinco anos, segundo a reportagem.
A agência enviou questionamentos ao Vasco e ao empresário. As partes responderam que não enxergam conflito na operação. Agora, o departamento técnico analisa a estrutura societária e os vínculos envolvidos para determinar se existe incompatibilidade com o regulamento.
A expectativa é que um parecer seja levado a uma reunião da agência em setembro. Se for identificado um potencial conflito, poderá ser aberto um procedimento formal para definir medidas.
Ligação com Leila já provocou embate com Bap
A possível compra da SAF já provocou uma forte discussão entre dirigentes de Flamengo, Palmeiras e Vasco. Em junho, o presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, afirmou que poderia recorrer à Justiça caso a operação fosse concretizada, questionando a possibilidade de propriedade cruzada e a ligação familiar entre o futuro investidor do Vasco e Leila Pereira.
Leila reagiu, negou participação nas negociações e ameaçou processar Bap caso as insinuações continuassem. Pedrinho, presidente do Vasco, também rebateu o dirigente rubro-negro e afirmou que Leila não participava das tratativas.
O cenário agora ganha um elemento novo: independentemente das declarações públicas, a CBF efetivamente abriu uma análise prévia da documentação. Isso não significa que a entidade tenha concluído que existe irregularidade, mas mostra que a questão será examinada dentro do novo sistema de controle do futebol brasileiro.
O que a CBF pode fazer
Existe diferença entre impedir juridicamente uma compra e limitar seus efeitos nas competições da CBF. Segundo a apuração, a agência não possui poder para anular uma operação civil. Entretanto, pode impor medidas no âmbito esportivo caso identifique incompatibilidade com as regras.
Uma solução prevista é o chamado “Blind Trust”, mecanismo que poderia afastar o controlador de interferência direta na administração enquanto persistisse uma situação considerada conflitante. A agência também poderia, dependendo da conclusão, negar o registro do novo proprietário no âmbito esportivo.
A venda ainda possui outras etapas. O negócio precisa passar pelos procedimentos internos do Vasco, incluindo Conselho Deliberativo e assembleia geral, além de depender de entendimento com a A-Cap, antiga acionista da SAF vascaína. Por isso, a conclusão da transação não é imediata.




