A crise entre Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus pode ganhar um novo capítulo nos próximos dias. Depois da saída do capitão da concentração da seleção portuguesa e de uma sequência de declarações que expuseram a ruptura entre os dois, a Federação Portuguesa de Futebol tenta agora reconstruir o diálogo.
Segundo informação publicada pelo jornal A Bola, Jorge Jesus já aceitou participar de uma reunião mediada pela FPF para tentar reduzir a tensão e encontrar uma saída para o conflito.
Agora, falta Cristiano Ronaldo.
A Federação aguarda uma resposta do camisa 7 para saber se será possível colocar novamente treinador e capitão frente a frente.
Não se trata apenas de uma conversa qualquer.
A relação entre os dois chegou a um ponto em que já existe dúvida sobre a continuidade de Cristiano Ronaldo na seleção portuguesa. Aos 41 anos, o maior artilheiro da história do futebol de seleções deixou a concentração depois de uma sequência de episódios que começaram com uma decisão técnica e terminaram numa crise pública.
A tentativa da FPF é impedir que uma trajetória de mais de duas décadas termine dessa forma.
Jorge Jesus aceita conversar
A posição de Jorge Jesus representa uma mudança importante no cenário dos últimos dias.
O treinador português já vinha defendendo publicamente sua autoridade para decidir quem joga e quem fica no banco. Foi justamente essa discussão que esteve no centro da crise.
Contra a Noruega, Cristiano Ronaldo começou entre os reservas. Havia uma conversa anterior envolvendo a possibilidade de o atacante atuar aproximadamente 30 minutos, mas Jorge Jesus decidiu não utilizá-lo.
Cristiano chegou a aquecer durante a partida, mas terminou o jogo sem entrar.
A partir dali, a situação começou a deteriorar.
Nos dias seguintes, o capitão deixou de treinar normalmente com o grupo. Houve conversas internas, participação do presidente da FPF, Pedro Proença, e uma tentativa de diminuir a tensão.
Parecia que o problema poderia ser resolvido.
Não foi.
O Fla Opina mostrou anteriormente que, segundo relato do jornalista espanhol Edu Aguirre, próximo de Cristiano Ronaldo, Jorge Jesus teria reconhecido em uma conversa privada que não deveria ter deixado o jogador tanto tempo aquecendo sem utilizá-lo.
Ainda segundo essa versão, o treinador teria prometido reconhecer publicamente a situação.
Na coletiva seguinte, porém, Jorge Jesus adotou outro discurso.
Reforçou sua autoridade, afirmou que nenhum estatuto poderia interferir nas decisões do treinador e deixou claro que Gonçalo Ramos continuaria sendo sua opção para começar a partida seguinte.
Cristiano decidiu deixar a concentração.
Agora a FPF tenta reconstruir a ponte.
FPF quer evitar ruptura definitiva
O movimento da Federação Portuguesa de Futebol ajuda a mostrar o tamanho do problema.
Cristiano Ronaldo não é apenas mais um jogador do elenco.
São mais de duas décadas vestindo a camisa de Portugal, recordes internacionais, participação em grandes competições e títulos que modificaram a própria história da seleção.
Uma eventual despedida sempre seria um acontecimento enorme.
Uma despedida provocada por uma crise entre capitão e treinador teria um peso ainda maior.
É exatamente esse cenário que a Federação tenta evitar.
Segundo A Bola, a FPF mantém contatos para viabilizar uma nova reunião entre Cristiano, Jorge Jesus e representantes da entidade.
Jorge Jesus já demonstrou disponibilidade.
Cristiano ainda não respondeu.
Jesus também mudou o tom publicamente
Nas últimas declarações antes do jogo deste domingo contra a Noruega, no Estádio do Dragão, Jorge Jesus adotou um tom diferente daquele utilizado no auge da crise.
Questionado sobre a possibilidade de reconciliação, o treinador evitou aprofundar o conflito, mas fez questão de destacar a dimensão histórica do jogador.
“É um símbolo da Seleção portuguesa, é um símbolo de Portugal”, afirmou.
Jesus acrescentou que, depois da partida contra a Noruega, haverá tempo para conversar sobre o assunto.
A declaração não resolve o problema.
Mas é significativamente diferente do ambiente existente poucos dias antes, quando treinador e capitão pareciam caminhar para uma ruptura definitiva.
Portugal venceu sem Cristiano
Existe ainda um elemento esportivo que torna a situação mais delicada.
Portugal venceu a Dinamarca por 4 a 2 sem Cristiano Ronaldo.
Gonçalo Ramos começou como titular, marcou e a seleção portuguesa conseguiu manter o desempenho mesmo em meio à turbulência criada pela saída do capitão.
Isso fortalece a liberdade de Jorge Jesus para continuar tomando decisões exclusivamente esportivas.
Ao mesmo tempo, uma eventual reconciliação não significa necessariamente que Cristiano voltará a ter o mesmo papel que teve durante praticamente toda sua trajetória internacional.
Esse talvez seja o ponto mais difícil da conversa.
A questão já não parece ser simplesmente saber se Cristiano Ronaldo continuará ou não sendo convocado.
A discussão também envolve qual será o papel do camisa 7 dentro desta nova seleção.
Reconciliação não significa titularidade
Jorge Jesus tem deixado uma coisa clara desde que assumiu Portugal: o histórico de nenhum jogador pode garantir lugar na equipe.
Foi esse princípio que colocou Cristiano no banco.
Mesmo que uma reunião termine com um acordo entre os dois, isso não significa que o treinador devolverá automaticamente ao atacante a condição de titular absoluto.
Cristiano precisará decidir se aceita continuar na seleção dentro de uma realidade diferente daquela que viveu durante grande parte da carreira.
Essa talvez seja a verdadeira negociação.
Não sobre quem estava certo ou errado contra a Noruega.
Mas sobre como administrar o último capítulo de uma das maiores carreiras da história do futebol internacional sem retirar do treinador a autoridade para escolher sua equipe.
A bola agora está com Cristiano
Jorge Jesus já aceitou conversar.
A FPF quer a reunião.
Falta saber o que Cristiano Ronaldo pretende fazer.
O jogador afirmou, quando deixou a concentração, que no momento certo explicaria aos portugueses aquilo que aconteceu.
Até agora, essa explicação completa ainda não veio.
Por isso, uma eventual reunião pode definir muito mais do que a relação pessoal entre Cristiano e Jorge Jesus.
Pode determinar se o camisa 7 ainda terá um último capítulo com Portugal ou se a partida contra a Noruega, assistida integralmente do banco, acabará marcada como uma das últimas imagens de Cristiano Ronaldo ligado à seleção dentro de campo.
Depois de dias de ruptura, a porta para o diálogo voltou a ser aberta.
Jorge Jesus já atravessou metade do caminho.
Agora falta saber se Cristiano Ronaldo também aceitará voltar à mesa.




