R$ 102 milhões e pouca sequência: o custo de De la Cruz para o Flamengo
O Flamengo não contratou Nicolás De la Cruz como uma aposta ou como um jogador para compor o elenco. O uruguaio chegou ao clube cercado de expectativas, com status de titular e depois de uma longa negociação com o River Plate. O investimento também foi compatível com essa condição.
De acordo com as demonstrações financeiras do próprio Flamengo, o custo total reconhecido da contratação, incluindo direitos federativos, luvas, intermediação e outros custos necessários, foi de aproximadamente R$ 102,5 milhões.
Mais de dois anos depois, porém, o retorno esportivo está muito abaixo do que se esperava de uma contratação desse tamanho.
De la Cruz mostrou qualidade em determinados momentos, principalmente durante o primeiro semestre de 2024. Entretanto, a falta de sequência, os problemas físicos e a necessidade permanente de controlar seus minutos transformaram a contratação em um dos piores custos-benefícios recentes do Flamengo.
Qualidade nunca foi o principal problema
Tecnicamente, De la Cruz reúne características importantes. É um jogador dinâmico, capaz de atuar como segundo volante ou meia, participa da construção das jogadas e ajuda na pressão sem a bola.
Em 2024, o uruguaio chegou a ser considerado o “motorzinho” do time comandado por Tite. Fez boas partidas, marcou dois gols e deu seis assistências.
O problema foi a disponibilidade.
Na primeira temporada, De la Cruz participou de 41 dos 73 jogos disputados pelo Flamengo. Foi titular 37 vezes, mas completou os 90 minutos em apenas nove partidas. Depois da Copa América, esteve presente em somente 16 dos 34 compromissos do clube.
Em 2025, os números diminuíram ainda mais. Segundo levantamento do Gato Mestre, foram 34 partidas oficiais, 23 como titular, com 2.066 minutos em campo, apenas um gol e nenhuma assistência. Em comparação, havia disputado 3.134 minutos em 2024.
Ou seja: além de jogar menos, De la Cruz também passou a entregar menos participação ofensiva.
Um histórico físico que já era conhecido
A situação não pode ser tratada como uma simples sequência de lesões ocasionais.
De la Cruz chegou ao Flamengo com um quadro de sinovite crônica no joelho direito e já havia passado por quatro cirurgias antes de ser contratado: três no joelho direito e uma no esquerdo.
Desde que chegou ao clube, não passou por novas cirurgias. O Flamengo adotou tratamentos conservadores, aplicações, trabalhos de fortalecimento e um rigoroso controle de carga. No fim de 2025, o jogador também realizou no Uruguai um procedimento regenerativo, que não foi cirúrgico.
O problema no joelho direito também pode provocar compensação e sobrecarga no esquerdo. Por isso, até os treinamentos precisam ser administrados cuidadosamente.
Na prática, o Flamengo não consegue tratar De la Cruz como um jogador plenamente disponível durante toda a temporada.
Gramado sintético virou mais uma limitação
A preocupação física também interfere diretamente na utilização do uruguaio em partidas realizadas em gramados sintéticos.
Em diferentes ocasiões, o Flamengo optou por não relacionar ou preservar De la Cruz nesses campos. Em abril de 2026, por exemplo, o próprio Leonardo Jardim afirmou que o jogador costuma sentir bastante incômodo nesse tipo de piso por causa de seu problema crônico no joelho.
É uma limitação importante.
O Campeonato Brasileiro possui clubes que mandam seus jogos em campos sintéticos, e o Flamengo disputa uma temporada longa, com viagens, partidas decisivas e pouco tempo de recuperação.
Um jogador contratado por mais de R$ 100 milhões não deveria ter sua utilização condicionada ao tipo de gramado, ao controle de carga e à necessidade de escolher cuidadosamente em quais partidas poderá atuar.
Caso expôs desgaste entre Jardim e departamento médico
A situação de De la Cruz ganhou um novo capítulo depois da Copa do Mundo de 2026.
O uruguaio disputou as três partidas da seleção do Uruguai, mas, depois de retornar ao Flamengo, participou de apenas 14 minutos pelo clube, no empate com o Internacional.
Após a reapresentação, De la Cruz relatou um desconforto muscular durante uma avaliação. Os exames não identificaram lesão, e o departamento médico considerou que o jogador poderia participar normalmente das atividades.
A comissão técnica, porém, entendeu que ele ainda não apresentava as condições físicas necessárias. Leonardo Jardim decidiu controlar as cargas e não relacioná-lo para algumas partidas. O gramado sintético também pesou na ausência diante da Chapecoense.
Essa diferença de avaliação ajudou a expor o desgaste já existente entre a comissão técnica e o departamento médico.
De la Cruz não pode ser responsabilizado pela crise institucional. Entretanto, sua condição física virou um dos principais símbolos da falta de sintonia entre os setores.
De um lado, o departamento médico liberava o atleta por não existir uma lesão diagnosticada. Do outro, Jardim entendia que o jogador não estava preparado para suportar as exigências de uma partida.
Disponibilidade também faz parte do desempenho
Ao analisar o custo-benefício de um jogador, não basta considerar somente sua qualidade quando está em campo.
Disponibilidade, capacidade de recuperação, sequência e participação em jogos decisivos também fazem parte do retorno esportivo.
Nesse aspecto, De la Cruz ficou muito abaixo do esperado.
O Flamengo realizou um investimento de aproximadamente R$ 102,5 milhões em um jogador que:
precisa de controle permanente de carga; apresenta problemas crônicos nos joelhos; normalmente é preservado em gramados sintéticos; dificilmente consegue completar longas sequências como titular; teve queda de minutagem entre 2024 e 2025; e agora manifesta interesse em deixar o clube.
O Peñarol demonstrou interesse em receber o jogador por empréstimo. A ideia inicial dos uruguaios era uma operação por um ano e sem custos, condição que evidentemente não agradou ao Flamengo. De la Cruz, por sua vez, sinalizou positivamente para a possibilidade de sair.
Depois de um investimento tão alto, liberá-lo sem uma compensação financeira relevante representaria praticamente a confirmação do prejuízo.




