Quando a CBF decidiu reduzir gradualmente o limite de estrangeiros no futebol brasileiro, um dos principais argumentos foi a necessidade de ampliar espaço para jogadores jovens formados no país.
O raciocínio parece simples:
menos estrangeiros, mais oportunidades para brasileiros.
Mas será que essa relação é tão direta?
Portugal oferece um contraponto interessante.
Na atual temporada, 68,8% dos jogadores da Primeira Liga portuguesa são estrangeiros. Apenas 31,2% são portugueses. Diário de Notícias
Mesmo assim, o país continua revelando jogadores, exportando talento e mantendo algumas das academias mais valiosas e rentáveis do futebol mundial.
É justamente esse contraste que José Boto levantou ao discutir a limitação de estrangeiros no Brasil.
E os números ajudam a entender por quê.
Quase sete em cada dez jogadores em Portugal são estrangeiros
O dado impressiona.
Hoje, de cada dez jogadores inscritos na principal divisão portuguesa, praticamente sete nasceram fora do país.
Isso significa que a proporção de estrangeiros em Portugal é quase três vezes maior do que a observada atualmente no Brasileirão.
Enquanto a Série A brasileira gira em torno de 25% de atletas estrangeiros, a Primeira Liga portuguesa chega a 68,8%. Diário de Notícias
Se a presença de estrangeiros impedisse automaticamente a formação de jogadores locais, Portugal deveria apresentar dificuldades enormes para revelar talentos.
Mas os dados internacionais mostram outro cenário.
Benfica é a academia mais lucrativa do mundo
Segundo levantamento publicado pelo Observatório do Futebol CIES em abril de 2026, o Benfica foi o clube que mais faturou no mundo com jogadores formados em sua própria academia na última década.
Foram aproximadamente:
€589 milhões em vendas de jogadores formados no clube.
O levantamento considera atletas que passaram pelo menos três temporadas no clube entre os 15 e 21 anos.
O Benfica lidera o ranking mundial à frente de Ajax e Chelsea. Observatório do Futebol CIES
E Portugal não aparece apenas uma vez.
O Sporting também figura entre os dez clubes que mais arrecadaram com jogadores formados em suas academias na última década. Observatório do Futebol CIES
Ou seja:
um país cuja primeira divisão tem quase 70% de estrangeiros possui duas das academias financeiramente mais produtivas do planeta.
Porto e Sporting também aparecem entre os melhores fora do Big Five
Outro levantamento do CIES, publicado em janeiro, mediu o valor de mercado dos jogadores formados pelos clubes e ainda sob contrato.
Entre todos os clubes que estão fora das cinco grandes ligas europeias, os dois primeiros colocados foram:
FC Porto e Sporting.
Logo depois também aparece o Benfica. Observatório do Futebol CIES
Isso revela algo importante.
Portugal não apenas vende jogadores formados na base.
Continua mantendo um estoque relevante de jovens formados internamente com elevado valor de mercado.
Portugal exportou quase €2 bilhões em jogadores formados no país
Quando ampliamos a análise para o país inteiro, o número fica ainda mais impressionante.
Entre 2016 e 2025, clubes portugueses geraram aproximadamente:
€1,987 bilhão com transferências internacionais de jogadores formados em Portugal.
Foi o quarto maior valor do mundo no período, atrás apenas de França, Brasil e Espanha. Observatório do Futebol CIES
E 36,6% dessa receita veio da venda de jogadores com 20 anos ou menos.
Ou seja:
Portugal tem muitos estrangeiros.
Mas também continua produzindo jovens capazes de gerar quase €2 bilhões em transferências internacionais.
O país também aumentou muito sua presença no exterior
Outro levantamento do CIES mostra que Portugal foi uma das nacionalidades que mais cresceram no número de jogadores atuando fora do país.
Desde 2021, o número de jogadores portugueses no exterior aumentou em 198 atletas, crescimento de aproximadamente 66%. Observatório do Futebol CIES
Isso significa que a presença maciça de estrangeiros dentro da liga portuguesa não impediu o país de continuar exportando seus próprios jogadores.
Pelo contrário.
Portugal permanece como um dos mercados que mais forma, desenvolve e distribui jogadores pelo futebol internacional.
Mas Portugal também tem um problema
Seria errado olhar apenas para esses números e concluir que o modelo português é perfeito.
O próprio Sindicato dos Jogadores de Portugal demonstrou preocupação com a redução da presença de jogadores nacionais.
Hoje, apenas 31,2% dos atletas da primeira divisão são portugueses.
O presidente do Sindicato, Joaquim Evangelista, alertou que existe um problema especialmente na transição entre formação e futebol profissional.
Segundo ele, jogadores formados em Portugal estão enfrentando dificuldades para encontrar espaço primeiro nas divisões profissionais e depois na própria Primeira Liga. Diário de Notícias
Esse ponto é importante porque mostra que as duas coisas podem acontecer ao mesmo tempo:
Portugal pode continuar sendo extremamente eficiente na formação e exportação de talentos…
e ainda assim enfrentar dificuldades para dar oportunidades a todos os jovens.
É exatamente esse o debate que o Brasil precisa fazer
A CBF apresentou um dado preocupante.
Em 2020, jogadores brasileiros sub-23 ocupavam 28,3% dos minutos da Série A.
Em 2026, esse percentual caiu para:
11,5%.
No mesmo período, a participação de estrangeiros com mais de 23 anos saltou de 7,8% para 25% dos minutos.
Considerando brasileiros e estrangeiros, jogadores sub-23 representam hoje apenas 13,8% dos minutos da Série A. CBF
O problema existe.
Os jovens perderam espaço.
Mas a comparação com Portugal levanta outra questão:
o estrangeiro é a causa do problema ou apenas uma parte de uma transformação muito maior?
O Brasil continua sendo o maior exportador de jogadores do mundo
Existe ainda outra informação que torna o debate mais complexo.
O próprio Brasil continua sendo o país que mais exporta jogadores.
Segundo o CIES, em maio de 2026 havia 1.455 jogadores formados no Brasil atuando no exterior.
Era o maior número do mundo, à frente da França, com 1.275, e da Argentina, com 1.016. Observatório do Futebol CIES
Portanto, o futebol brasileiro não deixou de formar jogadores.
Muito pelo contrário.
Continua formando mais atletas para o mercado internacional do que qualquer outro país.
A questão talvez esteja em outro ponto:
quantos desses jogadores permanecem tempo suficiente para ocupar espaço no próprio Brasileirão?
A venda precoce pode pesar tanto quanto o estrangeiro
O Brasil também aparece entre os países que mais vendem jogadores jovens.
Entre 2016 e 2025, clubes brasileiros receberam aproximadamente €2,604 bilhões com transferências internacionais de jogadores formados no país.
É o segundo maior valor do mundo, atrás apenas da França. Observatório do Futebol CIES
E existe um detalhe importante:
50,1% desse dinheiro veio de jogadores vendidos com 20 anos ou menos.
Nenhum outro país entre os grandes exportadores analisados pelo CIES possui uma proporção tão elevada nessa faixa etária. Observatório do Futebol CIES
Esse número muda bastante a discussão.
Talvez parte da baixa minutagem dos jovens brasileiros não aconteça simplesmente porque estrangeiros ocupam suas vagas.
Pode acontecer também porque muitos dos melhores jovens deixam o país muito cedo.
Portugal também vende — mas um pouco mais tarde
Em Portugal, apenas 36,6% da receita internacional com jogadores formados no país veio de atletas com até 20 anos.
A maior parcela, 39%, ocorreu com jogadores entre 21 e 23 anos. Observatório do Futebol CIES
No Brasil, metade do dinheiro chega antes dos 21.
Essa diferença talvez ajude a explicar parte do fenômeno.
Portugal muitas vezes consegue:
formar → utilizar → valorizar → vender.
O Brasil frequentemente:
forma → estreia → vende.
Se esse diagnóstico estiver correto, limitar estrangeiros resolve apenas uma parte do problema.
A questão talvez seja a transição
É aqui que a discussão ganha outra dimensão.
Um clube pode revelar dezenas de jogadores por temporada.
Isso não significa necessariamente que conseguirá transformá-los em jogadores consolidados do time principal.
Existe uma etapa entre base e profissional:
a transição.
Minutagem, empréstimos, equipes B, competições de desenvolvimento, planejamento esportivo e paciência fazem parte desse processo.
José Boto já explicou em entrevistas que, no Flamengo, a exigência por resultado imediato torna especialmente difícil lançar jovens sem que estejam preparados para suportar a pressão. A Bola
Esse é um problema muito diferente de simplesmente contar quantos estrangeiros existem no elenco.




