O dinheiro conseguiu unir os rivais do futebol brasileiro.

A gente não consegue ver a construção de uma liga única. Não consegue ver entendimento entre os clubes. É cada um olhando por si, cada um olhando pelo seu.

Não acho que isso seja totalmente errado, claro que não. Cada clube busca os seus direitos, os seus interesses e aquilo que considera melhor para a sua instituição.

Mas o que vimos nesta terça-feira, 3 de novembro, em Brasília, foi algo raro no futebol brasileiro: clubes historicamente rivais unidos em torno de um mesmo objetivo, a defesa dos contratos e das receitas provenientes das bets.

O dinheiro conseguiu fazer o que parecia impossível.

Uma união que não acontece no futebol brasileiro

Flamengo, Corinthians, São Paulo, Fluminense, Botafogo, Cruzeiro e outros clubes defenderam, diante do ministro Luiz Fux, no Supremo Tribunal Federal, os seus interesses financeiros e a segurança jurídica dos contratos.

São clubes que disputam títulos, jogadores, patrocínios e protagonismo. Entretanto, quando uma decisão ameaça uma fonte importante de receitas, conseguem sentar-se à mesma mesa.

E por que não vemos essa mesma união para construir uma liga única, discutir o calendário ou resolver outros problemas do futebol brasileiro?

A gente sabe que o dinheiro das bets se tornou uma das principais fontes de patrocínio do futebol nacional. Muitos clubes passaram a construir seus planejamentos financeiros contando com essas receitas.

Uma possível avalanche financeira

A perda desses contratos pode causar uma avalanche no futebol brasileiro.

E não estamos falando apenas dos grandes clubes. Existem emissoras de televisão, empresas de publicidade, placas nos estádios, fornecedores e equipes menores que também fazem parte dessa cadeia económica.

Uma redução abrupta dessas receitas poderá atingir funcionários, comprometer investimentos e obrigar clubes a rever compromissos já assumidos.

Os esportes olímpicos também poderão sofrer consequências, principalmente em instituições que mantêm outras modalidades com recursos provenientes do futebol e dos patrocínios.

O Flamengo apresentou um exemplo dessa preocupação. Durante a audiência, o vice-presidente Flávio Willeman declarou que o clube poderá perder aproximadamente R$ 430 milhões em receitas anuais, afetando o planejamento financeiro e colocando em risco a manutenção de empregos.

Estamos falando de uma quantia enorme, mesmo para uma instituição com a dimensão do Flamengo.

O risco de perder a força na América do Sul

Existe ainda outra questão que merece atenção: a competitividade internacional.

O futebol brasileiro conquistou enorme protagonismo na América do Sul nos últimos anos, impulsionado também pela capacidade financeira dos seus principais clubes.

Agora, imagina os brasileiros perdendo uma fonte importante de patrocínio enquanto adversários argentinos, colombianos e de outros países continuam a receber esse dinheiro.

Um exemplo aconteceu no próprio Maracanã, quando o Boca Juniors enfrentou o Vasco, em outubro, exibindo a marca de uma casa de apostas no uniforme.

Enquanto o futebol brasileiro discute a proibição, clubes estrangeiros podem continuar a contar com essas receitas, dependendo das regras de cada país.

Isso poderá criar uma diferença importante na capacidade de investimento, embora não signifique automaticamente que os brasileiros perderão a hegemonia continental.

A união que o dinheiro tornou possível

O que vimos em Brasília foi uma demonstração de que os clubes brasileiros conseguem agir coletivamente quando existe um interesse suficientemente forte.

O dinheiro conseguiu unir rivais que dificilmente chegam a um consenso sobre o futuro do futebol nacional.

É evidente que existe uma discussão social importante sobre os problemas provocados pelas apostas. Essa questão não pode ser ignorada.

Mas também existe a segurança jurídica dos contratos firmados sob a legislação vigente e o impacto que mudanças abruptas podem provocar nas instituições esportivas.

A questão agora é saber se essa união terminará quando o problema das bets for resolvido ou se poderá servir de exemplo para outras decisões importantes do futebol brasileiro.