O Flamengo tem dinheiro. Isso ninguém discute. Tem receita, força de marca, torcida gigantesca e capacidade para realizar operações que poucos anos atrás seriam inimagináveis no futebol brasileiro.

E deve usar essa força.

O que precisa ser discutido é outra coisa: dinheiro compra qualidade?

Um levantamento do Gato Mestre coloca o Flamengo na liderança dos valores divulgados em contratações entre os clubes da Série A em 2026. Só na primeira janela deste ano, os negócios chegaram a aproximadamente R$ 341,4 milhões, dentro da metodologia usada para comparar os clubes brasileiros.

Quando ampliamos o período para toda a gestão de Luiz Eduardo Baptista, o Bap, o número impressiona ainda mais.

Segundo levantamento do ge baseado no balanço financeiro do Flamengo, foram R$ 902,231 milhões em investimentos para novos jogadores desde o início da gestão, considerando direitos, luvas e comissões de intermediação.

Quase R$ 1 bilhão.

É muito dinheiro.

Mas gastar muito significa necessariamente contratar bem?

Na minha opinião, não.

O Flamengo pode gastar. O problema é como gasta

Antes que alguém interprete essa discussão de maneira errada: eu não sou contra o Flamengo investir.

Muito pelo contrário.

O Flamengo construiu uma situação financeira que permite disputar grandes jogadores. Se existe capacidade para contratar atletas de qualidade sem comprometer o futuro do clube, deve fazê-lo.

O problema começa quando passamos a tratar o tamanho de uma transferência como prova automática da qualidade de uma contratação.

Não é.

Lucas Paquetá é o exemplo mais evidente do tamanho que o Flamengo alcançou. A operação com o West Ham foi fechada na casa dos €42 milhões, aproximadamente R$ 250 milhões pela cotação utilizada pela Folha. No balanço rubro-negro, quando entram direitos, luvas e intermediação, o custo contabilizado chega a R$ 315,669 milhões.

Paquetá é jogador de Seleção Brasileira, formado pelo próprio Flamengo e com anos de futebol europeu. Há argumentos esportivos claros para justificar um investimento elevado.

Mas nem toda contratação pode ser analisada da mesma forma.

Carrascal é um caso que merece pergunta

Jorge Carrascal custou €12 milhões em valor de transferência ao Flamengo. Quando são considerados direitos, luvas e intermediação no balanço, o custo da operação aparece em aproximadamente R$ 107,3 milhões.

Agora vem o ponto que me chama atenção.

Antes de chegar ao Flamengo, Carrascal havia sido transferido do CSKA para o Dínamo de Moscou por cerca de €3,5 milhões. Depois, o Flamengo desembolsou €12 milhões para tirá-lo do mesmo mercado russo.

É claro que jogadores valorizam.

Rendimento melhora, mercado muda, contrato pesa, idade pesa, oferta e procura pesam.

Mas sair de uma negociação de aproximadamente €3,5 milhões para uma venda de €12 milhões naturalmente permite uma pergunta: o jogador valorizou tecnicamente nessa proporção?

Questionar isso não significa dizer que Carrascal é mau jogador.

Significa analisar investimento.

Samuel Lino e Emerson Royal também custaram caro

Samuel Lino foi outra grande aposta.

O Flamengo acertou €22 milhões fixos, mais €2 milhões previstos em bônus por metas, numa operação que poderia chegar a €24 milhões. No balanço posterior, considerando outros componentes da negociação, o custo total contabilizado chegou a aproximadamente R$ 203 milhões.

Emerson Royal custou €9 milhões em transferência junto ao Milan. Com direitos, luvas e intermediação, o balanço aponta aproximadamente R$ 78,8 milhões investidos na operação.

São jogadores que podem ajudar.

Podem fortalecer o elenco.

Mas a pergunta continua válida: o Flamengo está pagando preço de mercado ou está pagando um prêmio muito alto simplesmente porque todos sabem que o Flamengo tem dinheiro?

Essa é uma diferença enorme.

O déficit aumenta a responsabilidade

A discussão ganha ainda mais importância quando olhamos as contas.

Segundo a Folha de S.Paulo, o Flamengo fechou o primeiro semestre de 2026 com déficit de R$ 33,8 milhões. O Palmeiras, outra grande potência financeira do país, registrou déficit ainda maior: R$ 124,1 milhões.

Isso não significa que Flamengo ou Palmeiras estejam quebrados. A própria análise ressalta a solidez financeira dos dois clubes.

Mas mostra que existe limite.

Receita gigantesca não torna gasto irrelevante.

O Flamengo precisa faturar cada vez mais para sustentar um futebol cada vez mais caro.

E o mercado continua apresentando cifras enormes.

Na tentativa por Luiz Henrique, por exemplo, o Flamengo chegou a trabalhar com uma proposta de €30 milhões fixos mais €5 milhões em bônus, algo próximo de R$ 200 milhões na cotação daquele momento. A negociação acabou não avançando naquele estágio, mas o valor mostra o patamar em que o clube está disposto a operar.