A noite começou com Luiz Eduardo Baptista, o Bap, mobilizando a imprensa no Maracanã para fazer um anúncio considerado importante. No fim, o presidente confirmou que Arrascaeta será homenageado com um busto na sede do Flamengo, assim como Bruno Henrique. Uma homenagem justa para um dos maiores jogadores da história recente do clube, mas que acabou ficando em segundo plano diante do que aconteceu depois dentro de campo.

Diante de 70.791 torcedores, o Flamengo abriu o placar com Léo Pereira, mas permitiu que Calleri empatasse para o São Paulo. O resultado de 1 a 1 deixou um gosto ainda mais amargo porque, pouco depois, o Palmeiras perdeu por 2 a 1 para o Atlético-MG no Nubank Parque, antigo Allianz Parque.

Se tivesse vencido, o Flamengo terminaria a rodada somente quatro pontos atrás do líder e ainda manteria um jogo a menos. Mas não venceu. Com o empate, chegou aos 38 pontos, enquanto o Palmeiras permaneceu com 44. A diferença continua em seis pontos.

Não faltou vontade. Faltou organização

Não acredito que tenha faltado vontade aos jogadores. Também não me parece que o Flamengo tenha entrado em campo sem determinação ou sem querer o resultado.

O que faltou foi organização tática.

Em muitos momentos, o meio-campo do Flamengo parecia uma enorme cratera. Havia espaços gigantescos entre os setores, pouca compactação e uma defesa constantemente exposta.

Samuel Lino foi utilizado numa função mais centralizada. Ele se esforçou, correu, lutou e esteve entre os melhores jogadores do Flamengo. O problema não foi sua dedicação. O problema é que aquela não é sua principal característica.

Quando Samuel Lino avançava para participar do ataque, surgia um espaço enorme no meio. O Flamengo perdia o controle da região central, deixava a defesa desprotegida e permitia que o São Paulo avançasse com muita facilidade.

O próprio Leonardo Jardim reconheceu que o Flamengo apresentou pouca dinâmica, circulação lenta e falta de agressividade com a bola no primeiro tempo.

Um sistema defensivo que continua vulnerável

Venho falando há bastante tempo sobre os problemas defensivos do Flamengo. Leonardo Jardim ainda não conseguiu corrigir completamente esses erros.

O gol de Calleri voltou a mostrar uma equipe vulnerável pelo alto. O São Paulo encontrou espaço para cruzar, o atacante venceu a disputa dentro da área e marcou de cabeça.

Para um treinador que gosta de utilizar um estilo mais reativo, ter um sistema defensivo organizado é fundamental. Não é possível entregar a bola ao adversário, baixar as linhas e esperar pelos contra-ataques se a equipe não consegue proteger sua própria área.

O Flamengo não pode ser reativo e, ao mesmo tempo, desorganizado. Essa combinação é extremamente perigosa.

O Flamengo parecia visitante dentro do Maracanã

Outra situação ficou muito clara e incomodou bastante a torcida: o Flamengo jogou recuado dentro da própria casa.

Em vários momentos, parecia que o São Paulo estava jogando no Morumbi. O adversário ocupava o campo ofensivo, pressionava o Flamengo perto da área e controlava a posse de bola com tranquilidade.

Estamos falando de um Maracanã com mais de 70 mil flamenguistas. Mesmo assim, houve momentos em que o Flamengo ficou cercado dentro do próprio campo, tentando apenas afastar a pressão do São Paulo.

Esse comportamento não combina com a história do clube.

O Flamengo é um time que, especialmente dentro de casa, precisa assumir o protagonismo. Precisa pressionar, controlar o adversário e mostrar desde o início quem manda no Maracanã.

Leonardo Jardim tem sua maneira de trabalhar e gosta de equipes mais reativas. Isso pode funcionar em determinados jogos, principalmente contra adversários que oferecem muitos espaços. Mas o Flamengo não pode transformar o Maracanã em um lugar confortável para o visitante.

Esse não é o DNA do clube.

Dorival venceu a disputa tática

Dorival Júnior montou um esquema confortável para o São Paulo. O treinador reforçou o meio-campo, fechou os espaços e conseguiu neutralizar boa parte das principais armas ofensivas do Flamengo.

O São Paulo iniciou a partida no 4-3-1-2 e conseguiu controlar o primeiro tempo. A equipe paulista não apenas se defendeu: em vários momentos, foi o melhor time em campo e jogou com naturalidade dentro do Maracanã.

Quando o Flamengo abriu o placar, parecia que finalmente assumiria o controle. Mas o time não conseguiu manter o ritmo, recuou novamente e permitiu a reação do adversário.

O empate não aconteceu por acaso. Foi consequência de uma equipe que abriu o placar, mas não soube controlar o jogo nem aproveitar a vantagem.

Leonardo Jardim tem muito trabalho pela frente

O Flamengo ainda está vivo na disputa pelo título. A derrota do Palmeiras impediu que a distância aumentasse e mostrou que o campeonato continua aberto.

Mas o Flamengo desperdiçou uma oportunidade enorme.

Não é toda rodada que o líder perde dentro de casa. Quando isso acontece, o concorrente precisa aproveitar. O Rubro-Negro tinha o Maracanã lotado, abriu o placar e estava diante de um adversário que vivia um momento de pressão.

Mesmo assim, deixou a vitória escapar.

Leonardo Jardim precisa encontrar uma maneira de compactar melhor o time, proteger a defesa e fazer o Flamengo controlar os jogos dentro de casa. Também precisa entender que o tamanho e a tradição do clube exigem uma postura diferente no Maracanã.

O Flamengo não pode aceitar ser amassado dentro da própria casa.

Existe qualidade no elenco. Existe vontade. Existem jogadores capazes de decidir. O que está faltando é uma equipe organizada, equilibrada e consciente do que precisa fazer em cada momento da partida.

O campeonato ainda oferece oportunidades. Mas, para alcançar o Palmeiras, o Flamengo terá que parar de desperdiçá-las.