Cruzeiro e Flamengo fizeram, na noite de quarta-feira, no Mineirão, um jogo que mostrou por que os dois clubes podem sonhar alto nesta Libertadores. O empate por 1 a 1 não traduz completamente a intensidade da partida. Foram duas equipes dispostas a jogar, com elencos fortes, treinadores experientes e ambição clara de avançar e lutar pelo título continental.

Na minha leitura, porém, o Flamengo foi superior em vários momentos. Mesmo atuando fora de casa, diante de um adversário forte e de um Mineirão cheio, o Rubro-Negro conseguiu pressionar, controlar trechos importantes do jogo e criar oportunidades para sair de Belo Horizonte com um resultado ainda melhor.

Os números ajudam a sustentar essa impressão. O Flamengo terminou com 56% de posse de bola, 15 finalizações contra 11 do Cruzeiro e cinco chutes no alvo, enquanto o time mineiro acertou apenas um. O Rubro-Negro ainda acertou a trave duas vezes. Otávio, goleiro do Cruzeiro, precisou aparecer em momentos importantes e foi um dos nomes da equipe mineira.

Isso não significa diminuir o Cruzeiro. Pelo contrário. É justamente a qualidade do adversário que torna a atuação do Flamengo mais relevante. O Cruzeiro é aguerrido, tenta propor o jogo, possui jogadores capazes de decidir e mostrou que também tem argumentos para buscar a classificação no Maracanã. Foi um confronto entre duas equipes que entraram em campo com postura de quem acredita que pode conquistar a América.

O Flamengo mostrou intensidade, capacidade técnica e personalidade para jogar fora de casa. Depois de sair atrás no segundo tempo, não se desorganizou. Leonardo Jardim mexeu na equipe, Pedro e Paquetá entraram, e o empate saiu pouco depois, com Paquetá aproveitando o rebote após Léo Ortiz acertar o travessão.

Esse tipo de reação é importante em uma competição como a Libertadores. Nem sempre um candidato ao título vai dominar durante 90 minutos, principalmente em um mata-mata contra um adversário forte. O que se espera é capacidade de suportar os momentos ruins, reagir e permanecer vivo na eliminatória. Foi isso que o Flamengo conseguiu fazer.

A partida também teve um lance de arbitragem que, para mim, foi um erro claro. Aos 10 minutos do primeiro tempo, Matheus Henrique chegou atrasado e atingiu Bruno Henrique com as travas na região da canela. O árbitro Yael Falcón mostrou apenas o cartão amarelo, e o VAR não recomendou revisão no monitor.

Depois do jogo, o próprio Matheus Henrique admitiu que ficou com receio de ser expulso quando viu como havia ficado a perna de Bruno Henrique. A justificativa apresentada pela arbitragem foi de que não teria existido intensidade suficiente para o vermelho.

Eu discordo dessa interpretação. Não considero correto reduzir uma entrada desse tipo apenas à intensidade do impacto. As travas atingiram a perna do adversário e criaram um risco evidente à sua integridade física.

A regra trata como jogo brusco grave uma entrada que utilize força excessiva ou coloque em risco a segurança do adversário. Portanto, não é necessário existir uma regra automática dizendo que qualquer contato acima do tornozelo representa expulsão. O ponto, para mim, é outro: naquele lance específico, a forma da entrada, as travas expostas e o local atingido colocaram Bruno Henrique em risco.

Por isso, na minha visão, era lance para vermelho.

E não estamos falando apenas de uma interpretação de torcedor do Flamengo. Quatro dos cinco ex-árbitros consultados pelo UOL entenderam que Matheus Henrique deveria ter sido expulso. Uma expulsão aos 10 minutos evidentemente mudaria as condições da partida, embora ninguém possa afirmar qual seria o resultado final.

Ainda assim, não quero que a arbitragem seja o centro da análise. O erro existiu, na minha avaliação, mas não apagou o brilho de uma grande partida. Flamengo e Cruzeiro entregaram um confronto intenso, competitivo e digno de Libertadores.

O que mais me chamou atenção foi a postura rubro-negra. O Flamengo entrou na casa de um adversário de alto nível, conseguiu se impor durante boa parte da partida e mostrou que possui elenco, qualidade e personalidade para sonhar com mais uma conquista continental.

O empate mantém tudo aberto para o Maracanã. Mas, depois do que vi no Mineirão, ficou uma impressão importante: este Flamengo tem capacidade para ser campeão.

Ainda há muito caminho pela frente, ajustes a fazer e adversários fortíssimos no torneio. Ninguém conquista Libertadores em uma única boa apresentação. Porém, se mantiver esse nível de concentração, intensidade, qualidade técnica e ambição, o Flamengo pode, sim, buscar o quinto título continental.

Essa é a Libertadores. Jogo grande, pressão, polêmica, talento e dois gigantes buscando a América.

E o Flamengo mostrou no Mineirão que está vivo — e muito vivo — na luta pelo penta.