Futebol é assim.

Muitas vezes um time joga aquele futebol maravilhoso, domina, encanta, cria oportunidades, mas no fim a taça vai para outro clube.

É por isso que o Flamengo precisa entender uma coisa importante: nem sempre será possível jogar bonito. Mas será obrigatório saber competir.

E, principalmente, saber jogar competições como a Libertadores.

A Libertadores não se vence apenas com elenco forte, jogadores técnicos ou capacidade de controlar a bola.

Só isso não basta.

É preciso entendê-la.

É preciso aprender a vivê-la.

A Libertadores tem ambiente hostil, campos ruins, viagens longas, deslocamentos complicados, altitude, pressão, catimba e adversários que muitas vezes crescem justamente quando jogam em casa.

Tudo isso transforma um jogo fora em algo muito mais difícil do que simplesmente comparar a qualidade dos dois elencos.

E talvez o que mais tenha me agradado na vitória sobre o Independiente del Valle seja justamente perceber que o Flamengo está aprendendo a jogar essa competição.

Não apenas jogar futebol.

Jogar a Libertadores.

O Flamengo soube entender o jogo

O Flamengo venceu por 2 a 0 fora de casa, na altitude, contra um adversário que não pode ser tratado como qualquer time.

O Independiente del Valle vinha de uma sequência fortíssima.

Nos 20 jogos anteriores, havia vencido 17.

Isso diz muito.

É uma equipe organizada, competitiva, acostumada a esse tipo de cenário e com qualidade técnica suficiente para impor dificuldades a qualquer adversário na América do Sul.

Por isso, o resultado conquistado no Equador tem valor.

O Flamengo controlou o jogo dentro das possibilidades que ele apresentava.

Soube sofrer quando precisou.

Soube diminuir o ritmo.

Soube entender o ambiente.

E, principalmente, soube aproveitar os momentos em que teve espaço para atacar.

Esse tipo de maturidade pode valer tanto quanto uma grande atuação técnica.

Nem sempre será possível dominar

Existe uma cobrança natural sobre o Flamengo.

E ela faz sentido.

Quando você tem um elenco desse nível, a expectativa é de ver um time dominante, agressivo e tecnicamente superior.

Mas nenhum campeão joga bem todas as partidas.

Nenhum.

Em algum momento será preciso ganhar no detalhe.

Em algum momento será preciso defender mais do que atacar.

Em algum momento será necessário aceitar que o adversário está melhor em determinado trecho da partida.

E é justamente aí que aparecem os times maduros.

Durante muito tempo vimos adversários do Flamengo fazendo isso.

Jogavam mal.

Sofriam.

Tinham menos posse.

Criavam pouco.

Mas saíam com o resultado.

E nós ficávamos com aquela sensação amarga de ter jogado melhor e perdido.

Agora o Flamengo começa a mostrar capacidade para fazer o contrário também.

Um resultado enorme para decidir no Maracanã

A vitória em Quito coloca o Flamengo numa posição muito favorável para o jogo de volta.

O time volta ao Maracanã com vantagem, diante da própria torcida e com a possibilidade de administrar melhor o confronto.

E tudo indica que teremos novamente um estádio cheio, provavelmente perto de 70 mil rubro-negros empurrando o time em busca de uma vaga na semifinal da Libertadores.

É uma vantagem esportiva e emocional importante.

Mas precisa ser usada com inteligência.

Não existe necessidade de transformar o jogo de volta numa partida desesperada.

O Flamengo já construiu o resultado.

Agora precisa saber utilizá-lo.

É justamente aí que entra outra característica de um time maduro: entender quando acelerar e quando controlar.

O Flamengo cresce na hora certa

Talvez esse seja o ponto mais importante de todos.

O Flamengo vem crescendo justamente no momento determinante da temporada.

O calendário começa a apertar.

A Libertadores entra em fase decisiva.

O Campeonato Brasileiro está numa disputa apertada.

E o próximo compromisso já será contra o Corinthians, no Maracanã.

É um Corinthians pressionado, vivendo dificuldades no Brasileiro, mas exatamente por isso perigoso.

Times grandes pressionados costumam entrar em jogos desse tamanho tentando transformar aquela partida numa espécie de recomeço.

Por isso o Flamengo precisará novamente jogar com inteligência.

Uma vitória sobre o Corinthians representaria muito mais do que três pontos.

Daria tranquilidade.

Daria confiança.

E colocaria o Flamengo numa situação excelente para encarar a sequência decisiva.

Na Libertadores, a vantagem já está construída.

No Brasileiro, vencer significa manter a liderança e aumentar a pressão sobre quem vem atrás.

É hora de mostrar maturidade

Hoje eu vejo um Flamengo diferente.

Um Flamengo mais organizado.

Mais inteligente.

Mais preparado para entender os diferentes momentos de um jogo.

Um Flamengo que começa a aprender a competir em situações adversas.

Isso não significa abandonar o futebol bonito.

Muito pelo contrário.

O Flamengo tem qualidade para jogar bem e deve buscar isso sempre.

Mas precisa ter uma segunda versão.

Aquela que aparece quando o campo está ruim.

Quando a altitude pesa.

Quando o adversário pressiona.

Quando o jogo não encaixa.

Quando é preciso vencer mesmo sem brilho.

Os grandes campeões possuem essa capacidade.

E talvez este Flamengo esteja começando a encontrá-la.