O Flamengo entrou em campo diante do Independiente del Valle cercado de adversidades.
Altitude, campo ruim, desgaste físico e um adversário acostumado àquelas condições. Era uma noite em que não bastava ter mais talento. O Flamengo precisava mostrar personalidade. Precisava entender o jogo, saber sofrer e, principalmente, mostrar por que é considerado um dos grandes times do continente.
E foi exatamente isso que fez.
O primeiro tempo talvez não tenha sido aquele Flamengo que o torcedor imagina quando pensa em domínio absoluto. Mas foi um Flamengo inteligente.
A equipe soube dosar.
Em determinados momentos, entregou a bola ao adversário. Não entrou numa correria desnecessária. Não tentou transformar um jogo a quase três mil metros de altitude numa partida de transição constante, porque isso significaria gastar uma energia que faria falta depois.
O Flamengo soube jogar uma Libertadores.
Soube sofrer quando precisava sofrer. Soube esperar quando precisava esperar. E, principalmente, não confundiu dificuldade com descontrole.
Houve erros de passe. Houve bolas que saíram mais rápidas do que normalmente sairiam. Houve problemas nas transições e na velocidade da circulação. Tudo isso era esperado numa condição tão diferente daquela enfrentada semanalmente no Brasil.
Mas a equipe permaneceu organizada.
E aí veio o segundo tempo.
O Independiente del Valle começou a sentir o jogo. O Flamengo, ao contrário, começou a crescer.
Foi justamente quando muitos poderiam esperar que a altitude cobrasse sua conta que o Rubro-Negro passou a mandar na partida.
Dominou o adversário. Ocupou melhor o campo. Criou oportunidades. Poderia, inclusive, ter construído uma vantagem ainda maior.
O 2 a 0 foi justo.
Mais do que isso: foi consequência de um Flamengo que soube exatamente quando acelerar.
Bruno Henrique nasceu para grandes noites
E o primeiro gol precisava ter um personagem do tamanho de Bruno Henrique.
Estamos falando de um jogador de quase 36 anos atuando em Quito, enfrentando altitude e desgaste físico, e novamente aparecendo quando o Flamengo mais precisava.
Isso não é coincidência.
Bruno Henrique construiu sua história no Flamengo justamente assim.
Desde 2019, existe uma característica que acompanha sua passagem pelo clube: ele não se esconde em grandes jogos.
Pelo contrário.
Bruno Henrique parece transformar os grandes jogos em sua própria casa.
Libertadores, decisões, clássicos, partidas nas quais o peso da camisa aumenta. São justamente esses momentos em que ele tantas vezes aparece.
O tempo passou. O Flamengo mudou. Companheiros chegaram e saíram. Treinadores passaram pelo clube.
Bruno Henrique continua lá.
E continua sendo decisivo.
Ele já ocupa um lugar importante na história recente do Flamengo independentemente do que aconteça daqui para frente. Mas noites como a de Quito ajudam a explicar por que essa história é tão grande.
Léo Pereira completou o placar.
E, mais uma vez, a defesa rubro-negra merece destaque.
Consistente, segura e sabendo controlar os momentos de pressão do adversário.
Rossi, que vinha recebendo críticas, também respondeu em campo. Fez defesas importantes e transmitiu segurança quando o Flamengo precisou dele.
Samuel Lino e uma equipe cheia de protagonistas
Seria injusto, porém, transformar essa vitória numa história de um ou dois jogadores.
Samuel Lino novamente mostrou por que se tornou uma peça fundamental dessa equipe.
Está jogando muita bola.
É agressivo, participa das ações ofensivas, ocupa espaço, oferece alternativa e hoje faz parte daquela espinha dorsal que Leonardo Jardim começa a consolidar.
Mas poderíamos continuar citando nomes.
A verdade é que, se resolvermos analisar individualmente a partida, teremos que falar praticamente de todo o Flamengo.
E talvez seja justamente esse o maior elogio possível.
Porque o que mais me chamou atenção não foi uma individualidade.
Foi a equipe.
Durante muito tempo, vimos um Flamengo que dependia demais de alguém resolver.
Um drible. Uma arrancada. Um chute diferente. Uma jogada individual que salvasse uma atuação coletiva pouco convincente.
Agora estamos começando a enxergar outra coisa.
Estamos vendo um grupo.
E equipe é exatamente isso: a união de um grupo em torno de uma ideia.
O Flamengo soube vestir a Libertadores
Na coluna da manhã eu disse que o Flamengo precisava vestir a camisa da Libertadores.
E vestiu.
Raça.
Determinação.
Coragem.
Mas também inteligência.
Porque Libertadores não é apenas correr, disputar bola e demonstrar vontade.
Também é saber jogar.
É entender que existem partidas em que você precisa controlar. Outras em que precisa atacar. Há momentos de sofrer e momentos de impor sua superioridade.
O Flamengo fez todas essas coisas dentro da mesma partida.
Soube dosar na altitude.
Soube atacar no momento certo.
Soube perceber quando o adversário estava cansando.
E, quando chegou a hora de dominar, dominou.
Foi futebol de campeão.
Isso não significa que o Flamengo já seja campeão da Libertadores. Existe muito caminho pela frente.
Mas existem comportamentos que identificamos em equipes capazes de conquistar grandes títulos.
E o Flamengo apresentou vários deles em Quito.
A semifinal está muito perto
Eu não tenho dificuldade nenhuma em dizer: o Flamengo está muito próximo da semifinal da Libertadores.
Futebol exige respeito.
O Independiente del Valle continua sendo um adversário perigoso e haverá mais 90 minutos.
Mas existe também uma realidade.
O Flamengo venceu por 2 a 0 fora de casa, na altitude, num campo difícil, diante de um adversário acostumado àquelas condições.
Agora o segundo jogo será no Maracanã.
Sem altitude.
Num gramado melhor.
Com sua torcida.
E com uma vantagem enorme construída no Equador.
O Del Valle terá de fazer algo extraordinário para mudar essa história.
Porque se o Flamengo que entrar no Maracanã apresentar novamente essa força coletiva — e, além dela, permitir que o enorme talento individual de seu elenco apareça — o adversário vai precisar correr muito.
Muito mesmo.
Para superar o Clube de Regatas do Flamengo.




