O Independiente del Valle chega ao Maracanã diante de uma combinação que ajuda a dimensionar o tamanho da missão desta quinta-feira. Depois de perder por 2 a 0 em Quito, a equipe equatoriana precisa marcar pelo menos duas vezes para levar a decisão contra o Flamengo aos pênaltis e três para conquistar a classificação no tempo normal.
O problema é que o estádio onde terá de buscar essa reação guarda um retrospecto particularmente duro para o clube equatoriano.
Em três partidas contra o Flamengo no Maracanã, o Independiente del Valle nunca marcou um gol. Foram três derrotas rubro-negras? Não: três vitórias do Flamengo — 3 a 0, 4 a 0 e 1 a 0 — com nove gols marcados pelo Rubro-Negro e nenhum sofrido.
Agora, pela primeira vez nesses encontros no Rio, o Del Valle não precisa apenas marcar: precisa fazer isso mais de uma vez.
E tentará quebrar essa escrita sem Carlos “Charli” González, seu principal goleador.
Três viagens ao Maracanã e nenhum gol
A relação recente entre Flamengo e Independiente del Valle começou justamente em uma decisão continental.
Na Recopa Sul-Americana de 2020, os times empataram por 2 a 2 no primeiro confronto, disputado em Quito. Na volta, diante de quase 70 mil pessoas no Maracanã, o Flamengo venceu por 3 a 0, com um gol de Gabigol e dois de Gerson, e ficou com o título.
Poucos meses depois, os clubes voltaram a se encontrar, desta vez na fase de grupos da Libertadores.
No Equador, o Del Valle aplicou uma goleada por 5 a 0. No reencontro no Rio, porém, aconteceu o inverso: Flamengo 4 a 0, com gols de Lincoln, Pedro e Bruno Henrique, duas vezes. Mais uma passagem dos equatorianos pelo Maracanã sem balançar a rede.
A terceira visita aconteceu na Recopa de 2023.
O Del Valle venceu o primeiro jogo por 1 a 0 no Equador. Na volta, Arrascaeta marcou nos acréscimos e deu ao Flamengo vitória por 1 a 0 no Maracanã. O resultado levou a decisão à prorrogação e depois aos pênaltis, quando o clube equatoriano venceu por 5 a 4 e conquistou o título. Mesmo naquela noite histórica para o Del Valle, porém, a equipe não marcou durante os 120 minutos no Rio.
O retrospecto, portanto, produz um contraste curioso para a partida atual: o Del Valle já saiu do Maracanã com um troféu, mas nunca conseguiu fazer um gol contra o Flamengo no estádio.
E agora precisa de pelo menos dois
A vantagem construída pelo Flamengo em Quito muda completamente a exigência.
Vitória, empate ou até derrota por um gol classificam o Rubro-Negro. Uma vitória equatoriana por dois gols leva a definição para os pênaltis. Para avançar diretamente, o Del Valle precisa vencer por três ou mais.
Isso significa que, para permanecer vivo após os 90 minutos, o clube equatoriano terá de fazer no mínimo duas vezes aquilo que ainda não conseguiu sequer uma vez em suas três visitas anteriores ao Maracanã contra o Flamengo: marcar.
O desafio ganha outro componente quando se observa o desempenho ofensivo do Del Valle fora de casa nesta Libertadores.
Só uma vez fez dois gols fora de casa na Libertadores
Antes desta visita ao Rio, o Independiente del Valle disputou quatro partidas como visitante na Libertadores de 2026.
Empatou por 0 a 0 com o Rosario Central, venceu o Libertad por 3 a 2, perdeu por 2 a 0 para a Universidad Central e derrotou o Deportes Tolima por 1 a 0.
Ou seja: em quatro partidas fora de casa, o Del Valle marcou quatro gols — e somente uma vez conseguiu fazer os dois ou mais de que necessita nesta quinta-feira.
Foi justamente naquele 3 a 2 diante do Libertad, no Paraguai, que Charli González mostrou a dimensão de sua importância. O atacante marcou os três gols do Del Valle.
Agora ele não estará disponível.
Sete dos 15 gols passaram por Charli González
Charli González é o maior artilheiro do Independiente del Valle nesta edição da Libertadores.
O centroavante marcou sete dos 15 gols feitos pela equipe até o primeiro jogo das quartas de final. Isso corresponde a aproximadamente 47% de toda a produção ofensiva do clube na competição.
Foram dois gols contra a Universidad Central, três contra o Libertad no Paraguai, outro novamente diante do Libertad no Equador e mais um contra o Deportes Tolima nas oitavas.
Nenhum outro jogador do elenco chega perto desse volume.
Junior Sornoza tem dois gols. Jordy Alcívar, Justin Lerma, Djorkaeff Reasco, Arón Rodríguez, Daykol Romero e Matías Perelló aparecem com um cada.
A distribuição mostra que o Del Valle possui alternativas, mas também evidencia quanto González concentrou a definição ofensiva do time.
A lesão mudou o primeiro jogo
A importância do atacante apareceu justamente na partida de ida contra o Flamengo.
O Independiente del Valle controlou boa parte do primeiro tempo em Quito. Teve mais posse de bola, pressionou o Flamengo e Charli González acertou a trave antes de sofrer a lesão muscular que o obrigou a deixar a partida.
Ele sentiu o problema por volta dos 41 minutos e não voltou para a segunda etapa. Djorkaeff Reasco entrou em seu lugar.
O Del Valle terminou aquela partida com 63% de posse de bola, 18 finalizações e dez escanteios, contra apenas quatro finalizações e três escanteios do Flamengo. Apesar do volume, acertou somente três chutes no gol e terminou sem marcar.
O Flamengo, em contraste, transformou sua baixa produção ofensiva em enorme eficiência: Bruno Henrique marcou aos 16 minutos da etapa final e Léo Pereira ampliou aos 30.
O Del Valle teve território, posse e volume.
O Flamengo teve os gols.
Del Valle mostrou reação sem Charli no Equador
A ausência do artilheiro, contudo, não permite ao Flamengo imaginar um adversário sem alternativas.
Três dias depois da derrota por 2 a 0, o Independiente del Valle voltou ao Campeonato Equatoriano e venceu o Libertad FC por 3 a 2 fora de casa, já sem Charli González.
Os gols foram marcados por Matías Perelló, Yandri Vásquez e Steven Góngora, mostrando que o elenco conseguiu distribuir a produção ofensiva mesmo sem seu principal goleador.
O resultado também confirmou o excelente momento doméstico do clube.
O Del Valle encerrou a primeira fase da LigaPro na liderança, com 74 pontos, consolidando-se como principal equipe do campeonato equatoriano até aqui.
Portanto, o Flamengo encontrará um adversário desfalcado, mas não uma equipe em crise.
Sornoza continua sendo o cérebro
Se González representava a principal referência para finalizar as jogadas, Junior Sornoza continua sendo o jogador em torno do qual boa parte delas é construída.
Capitão e uma das principais referências da história recente do clube, o meia marcou dois gols nesta Libertadores e permanece como organizador do time de Joaquín Papa.
A própria Conmebol destaca Sornoza como uma das peças centrais da campanha. Ele soma oito títulos pelo Independiente del Valle e participou diretamente da consolidação do clube entre os protagonistas do futebol sul-americano.
Além dele, Reasco surge como a opção natural para substituir González no comando do ataque. Foi justamente o jogador escolhido por Joaquín Papa quando Charli saiu lesionado em Quito.
Reasco já marcou nesta Libertadores, na vitória por 4 a 1 sobre o Libertad.
O paradoxo do Del Valle
Talvez o dado mais interessante do primeiro confronto esteja justamente na contradição entre desempenho e resultado.
O Independiente del Valle finalizou 18 vezes, teve quase dois terços da posse, cobrou dez escanteios e passou longos períodos no campo ofensivo.
Perdeu por 2 a 0.
O técnico Joaquín Papa reconheceu depois da partida que a derrota foi um “golpe duríssimo” e afirmou que sua equipe havia produzido o suficiente para merecer outro resultado.
Agora, porém, merecimento já não resolve.
No Maracanã, o Del Valle precisará transformar volume em gols.
E precisará fazer isso em um estádio onde, diante do Flamengo, seu ataque nunca conseguiu marcar.




