A situação do gramado voltou a colocar o Maracanã no centro das discussões nesta semana, mas o problema atual do estádio vai além das condições do campo.

Dois anos depois da assinatura da concessão de longo prazo ao consórcio formado por Flamengo e Fluminense, a gestão acumula uma sequência de episódios que aumentaram a pressão sobre a administração: uma multa de mais de R$ 400 mil aplicada pelo Governo do Estado, um inquérito do Ministério Público por suspeitas de superlotação, reclamações recorrentes sobre o gramado e uma nova discussão envolvendo o Vasco e o direito de utilização do estádio.

Ao mesmo tempo, o Maracanã atravessa uma temporada de utilização extrema.

Segundo dados apresentados pela própria administração, o estádio chegará ao fim de setembro com 58 partidas disputadas em 2026. Na comparação apresentada pelo CEO Fred Nantes, o San Siro, que também recebe dois grandes clubes regularmente, tinha 31 jogos no mesmo período.

O volume de partidas tornou-se parte central da justificativa da concessionária para as condições do campo.

Mas ele também levanta uma questão inevitável: se o calendário está acima da capacidade de recuperação do gramado, até que ponto o problema é apenas técnico e até que ponto envolve planejamento e gestão?

Gramado abaixo do padrão virou problema recorrente

As críticas ao gramado não começaram agora.

Jogadores de Flamengo, Fluminense e adversários já reclamaram publicamente das condições apresentadas ao longo da temporada. Em agosto, depois de novas queixas, o consórcio aproveitou uma pausa entre partidas para realizar intervenções principalmente na área do gol norte.

A própria administração reconheceu que a qualidade atual está abaixo do nível desejado.

Fred Nantes afirmou que existe frustração interna com as condições do campo, embora tenha rejeitado a ideia de negligência. Segundo os dados apresentados pela gestão, quatro de cinco fatores considerados importantes para a conservação do gramado pioraram de 2025 para 2026, incluindo maior incidência de chuva e redução do intervalo de recuperação entre partidas.

A situação chegou a um ponto em que o tipo de grama será substituído.

Depois do Campeonato Brasileiro, em dezembro, a atual Bermuda Celebration dará lugar à Celebration Hybrid, variedade que promete maior tolerância a sombra, frio e desgaste, além de crescimento até 30% mais rápido.

A decisão de trocar completamente o gramado mostra que o próprio modelo atual chegou ao limite diante da utilização do estádio.

Multa de R$ 401 mil aumenta pressão sobre gestão

O gramado, entretanto, não é o único problema enfrentado pela concessionária.

O Governo do Estado aplicou uma multa de R$ 401.217,48 à Fla-Flu Serviços S.A., empresa responsável pela administração do complexo.

A penalidade corresponde a 2% do valor anual da outorga, de aproximadamente R$ 20 milhões, e teve como base um relatório produzido por um verificador independente sobre a gestão realizada em 2025.

Entre os pontos indicados estão problemas na comprovação e no planejamento de serviços de manutenção.

O relatório apontou ausência de cronogramas suficientemente detalhados e falta de documentação técnica capaz de comprovar determinados serviços previstos na manutenção do estádio. A avaliação externa chegou a mencionar ocorrência de falhas estruturais na gestão.

A concessionária recorreu da penalidade.

Por isso, a cobrança está atualmente suspensa enquanto o Governo do Estado analisa o recurso. Isso significa que a multa ainda não representa uma decisão administrativa definitiva.

É uma distinção importante.

Mas, mesmo com o processo ainda em discussão, o episódio acrescentou mais um ponto de desgaste a uma administração que já estava sendo pressionada pelas condições do campo.

Ministério Público apura possível superlotação

Outro problema envolve algo ainda mais sensível: segurança e capacidade do estádio.

O Ministério Público do Rio de Janeiro abriu inquérito civil para investigar possível superlotação em partidas de Flamengo e Fluminense realizadas entre dezembro de 2025 e agosto de 2026.

Segundo o MP, foram identificados indícios de que, em determinados setores, a quantidade de ingressos emitidos poderia ter ultrapassado a capacidade física autorizada.

A investigação solicitou dados detalhados sobre ingressos vendidos, gratuidades, cortesias e presença de público por setor.

Foram chamados a prestar informações não apenas a concessionária e os clubes, mas também a Federação de Futebol do Rio, Polícia Militar e empresas envolvidas na comercialização dos bilhetes.

Até aqui, trata-se de investigação, e não de constatação definitiva de superlotação.

Fred Nantes classificou o inquérito como mais “midiático” do que técnico e afirmou que a concessionária forneceria todos os dados solicitados pelo Ministério Público.

Ainda assim, é mais uma frente aberta em torno da administração.

Vasco volta a colocar uso do Maracanã em discussão

Como se não bastassem os problemas internos, uma antiga disputa voltou à mesa.

O Vasco está classificado para a semifinal da Copa Sul-Americana contra o Boca Juniors, mas não poderá realizar a partida em São Januário pelas regras da Conmebol.

A partir da semifinal, a competição exige estádio com capacidade mínima de 30 mil espectadores. São Januário opera com pouco mais de 20 mil lugares dentro das atuais normas de segurança.

O técnico Pedro Emanuel já deixou clara a preferência pelo Maracanã caso São Januário não possa receber a partida e afirmou considerar o estádio a “segunda casa” do Vasco.

O problema é que a administração do Maracanã já recusou pedidos recentes do clube justamente utilizando as condições do gramado como justificativa.

Em agosto, o Vasco tentou atuar no estádio contra o Vitória, pela Copa do Brasil. Flamengo e Fluminense alegaram que a data coincidia com um cronograma previamente estabelecido de recuperação do campo. O Vasco chegou à Justiça, mas não conseguiu autorização.

Agora, o cenário reaparece em escala maior.

A semifinal da Sul-Americana acontecerá na mesma janela de outubro em que Flamengo e Fluminense poderão ter compromissos da Libertadores. O Vasco estuda solicitar o estádio novamente e até uma nova judicialização é considerada em caso de negativa.

O Nilton Santos aparece como alternativa.

Administração diz que gramado não comporta mais eventos

Ao ser questionado recentemente sobre um eventual pedido do Vasco, Fred Nantes respondeu usando justamente o desgaste apresentado nos estudos do gramado.

A posição da administração é que não existe condição técnica para inserir eventos extras além daqueles aos quais a concessionária já está obrigada.

Esse argumento, porém, expõe um paradoxo.

Se o gramado está tão pressionado que um jogo adicional representa risco técnico, então o próprio volume de utilização do Maracanã virou um problema estrutural de planejamento.

O estádio não recebe apenas Flamengo e Fluminense.

Além do futebol, há compromissos comerciais de grande porte. Neste mês, o Maracanã receberá uma partida da NFL, dentro da estratégia de expansão internacional da liga norte-americana. O acordo prevê pelo menos três partidas no Rio em um período de cinco anos.

Eventos desse tamanho têm enorme valor comercial e institucional.

Mas também precisam coexistir com Libertadores, Brasileiro, Copa do Brasil, Sul-Americana, jogos de dois concessionários e eventuais pedidos de terceiros.

A equação está ficando cada vez mais difícil.

Concessão completou apenas dois anos

A pressão ganha peso adicional porque a atual concessão é relativamente recente.

Flamengo, Fluminense e Governo do Estado assinaram em setembro de 2024 o contrato que concedeu à dupla a administração, operação e manutenção do complexo do Maracanã por 20 anos.

Antes disso, os clubes já administravam o estádio desde 2019 por meio de contratos temporários.

Portanto, não se trata de uma gestão recém-chegada ao equipamento.

A administração atual conhece o estádio, sua utilização e suas limitações há anos.

Isso aumenta a cobrança quando problemas conhecidos continuam surgindo.

Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que administrar o Maracanã apresenta uma dificuldade peculiar. Flamengo e Fluminense utilizam o mesmo estádio, ambos disputam múltiplas competições, e o equipamento ainda precisa gerar receitas através de outros eventos.

A questão não é simplesmente reduzir o calendário.

É encontrar um modelo em que a exploração comercial não comprometa aquilo que é a função principal do estádio: receber partidas de futebol em condições adequadas.

NFL, Libertadores e Brasileiro na mesma equação

O restante de 2026 resume bem a dimensão do desafio.

O Maracanã precisa receber partidas decisivas de Flamengo e Fluminense, seguir atendendo o Campeonato Brasileiro, preparar-se para a NFL e ainda lidar com a pressão do Vasco para disputar no estádio uma semifinal continental.

Tudo isso com um gramado que a própria gestão admite não estar no padrão desejado.

A solução definitiva ficou para dezembro, quando haverá a troca da grama.

Até lá, a concessionária continuará tentando administrar recuperação, utilização e interesses comerciais em uma estrutura que já dá sinais claros de sobrecarga.

A discussão sobre o Maracanã, portanto, deixou de ser simplesmente estética.

Não é mais apenas se o campo está bonito ou feio.

Hoje envolve qualidade esportiva, segurança, cumprimento contratual, acesso ao estádio, planejamento de calendário e capacidade administrativa.

E todos esses temas chegaram à mesa praticamente ao mesmo tempo.