O Flamengo já sabe quem poderá encontrar na semifinal da Libertadores. O Estudiantes eliminou o Corinthians e está classificado. Mas existe uma palavra que precisa ser repetida antes do jogo desta noite: poderá.

O Flamengo ainda não está na semifinal.

A vitória por 2 a 0 diante do Independiente del Valle, fora de casa e na altitude, colocou o Rubro-Negro numa situação excelente. O resultado permite até uma derrota por um gol de diferença sem comprometer a classificação. É uma vantagem importante, construída num ambiente difícil e que precisa ser valorizada.

Mas é justamente aí que mora o perigo.

Jogos como esse muitas vezes colocam o time que está em vantagem numa situação mental complicada. A sensação de que o trabalho já foi feito pode diminuir a intensidade, tirar alguns pontos percentuais de concentração e fazer uma partida aparentemente controlada mudar completamente de cenário.

O Flamengo não pode permitir isso.

A classificação ainda precisa ser conquistada

Entrar pensando no Estudiantes seria um erro.

A semifinal ainda não começou. O adversário desta noite é o Independiente del Valle, e os 90 minutos precisam ser tratados como uma decisão de Libertadores.

Não importa que o Flamengo possa perder por um gol. Não importa que tenha feito 2 a 0 no Equador. E muito menos importa que já conheça o possível adversário da próxima fase.

A única preocupação precisa ser confirmar a classificação.

O melhor caminho para isso não é administrar passivamente a vantagem. É controlar a partida.

O Flamengo precisa se impor no Maracanã, assumir a posse de bola, controlar o ritmo, diminuir as possibilidades de o Del Valle crescer emocionalmente no confronto e deixar claro desde os primeiros minutos quem está no comando.

Quanto mais tempo o adversário passar sem acreditar numa reação, melhor para o Flamengo.

Não se joga uma decisão pensando na margem para perder

Existe uma diferença enorme entre saber que pode perder por um gol e entrar em campo disposto a administrar uma possível derrota.

O primeiro cenário é uma vantagem matemática.

O segundo seria uma postura perigosa.

Um time com a qualidade e a estrutura do Flamengo não pode entrar no Maracanã calculando quanto pode perder para continuar na competição. Precisa jogar para vencer.

Principalmente numa Libertadores.

Basta um gol inesperado do adversário para transformar completamente o ambiente. O Del Valle ganha confiança, o Flamengo começa a olhar para o relógio, a torcida fica mais apreensiva e uma eliminatória que parecia resolvida passa a exigir atenção máxima.

É exatamente esse roteiro que precisa ser evitado.

O Flamengo deve trabalhar para que o adversário nunca tenha a oportunidade de acreditar que existe uma remontada possível.

Controlar não significa jogar devagar

Quando falo em controlar a partida, não significa tocar a bola de lado durante 90 minutos.

Controle é outra coisa.

É saber quando acelerar, quando pressionar, quando diminuir o ritmo e principalmente onde manter a bola.

Um Flamengo dominante pode utilizar a vantagem sem abrir mão de atacar.

Aliás, marcar primeiro provavelmente seria a maneira mais eficiente de transformar uma noite potencialmente perigosa numa classificação tranquila. Um gol rubro-negro obrigaria o Del Valle a buscar uma diferença ainda maior e colocaria uma pressão enorme sobre o time equatoriano.

O que não pode acontecer é o Flamengo entregar o campo e esperar o adversário.

Isso seria oferecer justamente aquilo de que o Del Valle precisa: posse, território e confiança.

Falta transformar domínio em gols

Existe ainda um ponto que o Flamengo precisa melhorar.

O time tem criado situações, controlado partidas e conseguido chegar ao último terço, mas em alguns momentos falta a letalidade necessária diante do gol.

Em Libertadores, isso pesa.

O jogo de ida é um bom exemplo. O Flamengo sofreu durante parte da partida, mas quando encontrou as oportunidades foi eficiente e voltou do Equador com uma vantagem enorme.

É essa capacidade que precisa aparecer novamente.

Não é necessário atacar de maneira desesperada. O Flamengo não precisa transformar o jogo numa trocação porque não é ele quem precisa reverter resultado.

Mas quando as oportunidades aparecerem, precisa matar o confronto.

Um time que pretende ser campeão da Libertadores precisa aprender a transformar momentos favoráveis em gols e classificações.

O Maracanã também precisa comandar o jogo

Jogar uma decisão no Maracanã é outra vantagem que não pode ser desperdiçada.

O Flamengo precisa utilizar sua torcida para empurrar o adversário para trás desde o começo.

Não necessariamente com uma pressão desenfreada, mas com presença.

Bola no campo ofensivo. Marcação alta quando possível. Recuperação rápida. Posse de bola com objetivo. Finalizações.

Tudo isso ajuda a impedir que o Del Valle consiga transformar o jogo numa sequência de ataques e bolas paradas.

O estádio precisa perceber desde cedo que o Flamengo está jogando para vencer — e não apenas esperando o relógio passar.

O Estudiantes pode esperar

O Estudiantes já está classificado.

Ótimo.

O Flamengo poderá pensar nele depois.

Se fizer o trabalho nesta noite, haverá tempo suficiente para analisar o adversário argentino, recuperar o histórico recente, estudar seus pontos fortes e preparar uma semifinal que promete ser muito difícil.

Mas antecipar essa discussão dentro de campo seria um enorme erro.

Primeiro vem o Independiente del Valle.

Primeiro vêm os 90 minutos.

Primeiro vem a classificação.

O Flamengo construiu uma vantagem importante em Quito. Agora precisa demonstrar maturidade para utilizá-la sem transformar segurança em acomodação.

Não precisa jogar desesperado.

Também não pode jogar relaxado.

Precisa jogar como Flamengo.

Controlando, impondo ritmo, sendo eficiente e lembrando que, em mata-mata de Libertadores, uma vaga só está garantida quando o árbitro encerra a partida.