Gestão profissional x modelo anterior: o que dizem os números?

Quando Luiz Eduardo Baptista, o Bap, assumiu a presidência do Flamengo, uma das principais mudanças prometidas estava no departamento de futebol.

A intenção era reduzir a influência do modelo baseado em dirigentes estatutários e entregar o comando da área a um executivo profissional, contratado e remunerado. José Boto foi escolhido para ocupar a função e recebeu poderes amplos para conduzir o planejamento do futebol rubro-negro. Na gestão anterior, Marcos Braz ocupava a vice-presidência de futebol sem remuneração, seguindo o modelo estatutário do clube.

Passado mais de um ano e meio da mudança, os números permitem uma primeira comparação entre dois modelos muito diferentes.

E os valores chamam atenção.

Gestão Bap ultrapassa R$ 902 milhões

Considerando somente operações para a chegada de novos jogadores, o Flamengo já investiu R$ 902,231 milhões desde o início da gestão Bap e José Boto.

Foram R$ 469,965 milhões em 2025 e mais R$ 432,266 milhões em 2026 até o levantamento divulgado no início de agosto. Os números incluem direitos econômicos, luvas e custos de intermediação das negociações.

Entre as maiores operações estão:

Lucas Paquetá — R$ 315,669 milhões Samuel Lino — R$ 203,001 milhões Jorge Carrascal — R$ 107,310 milhões Vitão — R$ 81,863 milhões Emerson Royal — R$ 78,837 milhões Juninho — R$ 40,091 milhões Andrew — R$ 34,734 milhões Jorginho — R$ 23,832 milhões Danilo — R$ 16,894 milhões em luvas

O valor de Saúl não foi divulgado no levantamento. Além disso, existem despesas com renovações, aquisição de percentuais de jogadores que já pertenciam ao elenco e outras operações que não fazem parte desses R$ 902 milhões.

O próprio Flamengo informa em suas demonstrações financeiras que somente no primeiro semestre de 2026 foram adicionados R$ 495,2 milhões em direitos de atletas ao ativo do clube, o maior investimento já realizado pelo Flamengo em um primeiro semestre. Paquetá sozinho representou R$ 315,7 milhões desse volume.

E quanto custou a transformação de 2019?

O contraste aparece quando voltamos para 2019.

Naquele ano, o Flamengo trouxe oito jogadores fundamentais para a formação da equipe que conquistaria o Campeonato Carioca, o Campeonato Brasileiro e a Libertadores.

Considerando direitos econômicos, luvas e intermediários divulgados à época, aquelas oito operações somaram aproximadamente R$ 213,2 milhões.

Os valores foram:

Arrascaeta — R$ 80,354 milhões Gerson — R$ 57,229 milhões Bruno Henrique — R$ 26,787 milhões Rodrigo Caio — R$ 24,559 milhões Filipe Luís — R$ 8,834 milhões Pablo Marí — R$ 7,925 milhões Gabigol — R$ 4,057 milhões no empréstimo de 2019 Rafinha — R$ 3,480 milhões

Em valores nominais, portanto, os R$ 902,2 milhões da gestão atual representam mais de quatro vezes o investimento realizado nessas principais contratações de 2019.

Há, porém, uma ressalva indispensável: a comparação não é matematicamente perfeita. O mercado mudou, houve inflação nos valores das transferências, o período atual envolve duas temporadas e o Flamengo de 2019 já possuía jogadores importantes no elenco. Além disso, Gabigol estava emprestado naquele primeiro ano e foi comprado posteriormente.

Ainda assim, a diferença de escala financeira é grande demais para ser ignorada.

A gestão atual também entregou títulos

Analisar custo não significa apagar resultados.

Em 2025, primeiro ano da nova administração, o Flamengo terminou a temporada campeão da Supercopa do Brasil, Campeonato Carioca, Campeonato Brasileiro e Libertadores. Portanto, o modelo profissional também entregou sucesso esportivo relevante.

A discussão, portanto, não deve ser simplesmente sobre qual gestão ganhou mais.

A pergunta é outra:

quanto custou cada projeto para alcançar o nível de competitividade desejado?

Também é necessário considerar o outro lado da conta. Desde o início da atual gestão, o Flamengo arrecadou aproximadamente R$ 595,1 milhões com vendas de jogadores, com negociações importantes envolvendo Gerson, Wesley, Alcaraz e outros atletas.

A própria demonstração financeira do clube registra que 2025 terminou com recorde de R$ 503,8 milhões em receitas com vendas de atletas.

Profissionalismo também precisa ser medido por eficiência

Ter um profissional remunerado comandando o futebol pode trazer organização, método, processos e definição mais clara de responsabilidades.

Mas profissionalismo não pode ser avaliado apenas pelo organograma.

No futebol, eficiência também passa pela capacidade de identificar jogadores, negociar valores, aproveitar oportunidades de mercado, preservar patrimônio e transformar investimento em desempenho esportivo.

O Flamengo hoje possui uma capacidade financeira muito superior à de 2019. Isso naturalmente permite realizar operações maiores.

A questão que ficará para a sequência da gestão Bap e José Boto é saber se esse poder financeiro está sendo utilizado com a mesma eficiência esportiva demonstrada quando o clube montou uma de suas equipes mais históricas gastando uma fração dos valores atuais.

Essa é uma comparação que não termina com R$ 902 milhões.

Ela apenas começa aí.