Leonardo Jardim conseguiu aquilo que tantas vezes disse precisar desde que assumiu o Flamengo.
Tempo.
Tempo para treinar.
Tempo para conversar.
Tempo para corrigir movimentos.
Tempo para recuperar jogadores.
Tempo para trabalhar situações que, em uma sequência de partidas a cada três dias, acabam sendo corrigidas mais no vídeo e na conversa do que propriamente no campo.
O treinador português reclamou em diferentes momentos da temporada sobre essa dificuldade. Disse que o Flamengo precisava treinar junto, recuperar conceitos e construir relações dentro da equipe.
Agora terá essa oportunidade.
Depois da derrota para o Cruzeiro, o elenco recebeu dois dias de folga e se reapresenta para uma sequência de cinco treinamentos antes do clássico contra o Botafogo, domingo, no Maracanã.
É uma semana importante.
E, na minha opinião, uma semana que coloca também uma responsabilidade muito maior sobre Leonardo Jardim.
Porque desta vez não haverá uma partida no meio da semana.
Não haverá Libertadores.
Não haverá Copa do Brasil.
Não haverá viagem apertando o calendário.
Jardim ganhou tempo.
Agora precisamos descobrir o que fará com ele.
A última pausa mostrou que treinamento faz diferença
Existe uma razão para acreditar que esses dias podem produzir efeito.
Na última grande brecha que o Flamengo encontrou no calendário, depois do empate contra o Internacional, Jardim teve aproximadamente dez dias para reorganizar o trabalho.
Naquele momento, o próprio treinador dizia que precisava reunir novamente um elenco que havia sido dividido durante a Copa do Mundo, recuperar atletas e restabelecer comportamentos que tinham se perdido.
O resultado começou a aparecer.
O Flamengo venceu o Vitória por 2 a 0.
Depois encarou o Cruzeiro fora de casa pela Libertadores, goleou o Mirassol por 5 a 1 pelo Brasileiro e voltou a vencer o Cruzeiro no Maracanã para avançar na competição continental.
Não significa que todos os problemas desapareceram.
Longe disso.
Mas ficou evidente que quando Jardim conseguiu tempo para treinar, houve evolução.
O próprio treinador reconheceu isso depois da goleada sobre o Mirassol.
Disse que a equipe estava crescendo justamente porque finalmente conseguia passar ideias, trabalhar e construir relações dentro do campo.
Pois agora recebeu outra oportunidade semelhante.
E existem problemas muito claros para serem atacados.
O Flamengo perdeu sua consistência defensiva
Esse é, para mim, o ponto mais urgente.
O Flamengo de 2025 tinha uma característica extremamente importante: era uma equipe difícil de fazer gol.
Não era apenas um time ofensivo.
Não era apenas um time que tinha qualidade com a bola.
Era um time que sabia defender.
No Campeonato Brasileiro de 2025, o Flamengo terminou como a melhor defesa da competição, sofrendo somente 27 gols em 38 partidas.
Foi um dos pilares daquela campanha.
Em determinado momento do campeonato passado, o Flamengo chegou a acumular 15 partidas sem sofrer gols em 29 rodadas.
Havia uma sensação de segurança.
O adversário precisava trabalhar muito para criar.
A área era protegida.
A entrada da área também.
O Flamengo pressionava quem tinha a bola e dificultava a finalização.
Hoje essa sensação praticamente desapareceu.
E o mais curioso é que a base defensiva continua formada por jogadores que já estavam no clube.
Portanto, não estamos falando simplesmente de falta de qualidade individual.
Estamos falando de comportamento coletivo.
Não podemos jogar toda a responsabilidade em Rossi
Rossi vem sendo bastante questionado.
E com razão em algumas situações.
Existiram gols em que poderia ter feito melhor?
Claro que existiram.
Nós mesmos já discutimos isso aqui no Fla Opina.
Mas seria muito fácil analisar a fase defensiva do Flamengo simplesmente apontando para o goleiro.
A responsabilidade começa muito antes de a bola chegar em Rossi.
Quando um adversário recebe na entrada da área, consegue ajeitar o corpo, cortar para dentro e finalizar praticamente sem pressão, existe um problema defensivo anterior à defesa do goleiro.
Foi algo que vimos repetidamente contra o Cruzeiro.
O adversário corta.
Prepara.
Finaliza.
E muitas vezes existe espaço.
Ora, o goleiro precisa defender?
Precisa.
Mas o sistema defensivo também precisa impedir que aquele chute aconteça.
Ou pelo menos fazer com que aconteça em condições piores.
Pressionar.
Fechar o pé dominante.
Diminuir o espaço.
Obrigar o atacante a tomar uma decisão mais rapidamente.
Defesa não começa dentro da pequena área.
Defesa começa no momento em que o adversário recupera a bola.
Três gols de fora da área no recorte recente
Os números ajudam a entender o problema.
Nos últimos oito jogos analisados, o Flamengo sofreu sete gols.
Três vieram de fora da área.
Outros quatro aconteceram dentro dela.
Dois desses quatro foram de cabeça.
Ou seja, não existe apenas um tipo de problema.
Há dificuldade na proteção da entrada da área.
Há dificuldade nos cruzamentos.
Há problemas na disputa aérea.
Há erros na pressão sobre quem conduz a bola.
E há momentos em que o adversário consegue chegar à finalização com conforto demais.
Jardim inclusive reconheceu isso.
Depois da derrota para o Cruzeiro, explicou que quando fala em defender melhor não está falando apenas do goleiro ou dos zagueiros.
Está falando da equipe inteira.
É exatamente isso.
Cruzamentos também viraram problema
Outro ponto que precisa receber atenção especial nesta semana são as bolas levantadas na área.
O Flamengo tem permitido situações de cabeceio com uma frequência que não combina com a qualidade dos seus defensores.
E não adianta apenas olhar para quem perdeu a disputa no alto.
É necessário analisar a origem.
Quem permitiu o cruzamento?
Houve pressão sobre o jogador que estava com a bola?
A linha defensiva estava posicionada corretamente?
O volante acompanhou a entrada do jogador?
O lateral fechou o espaço?
O zagueiro estava atacando a bola ou esperando a bola chegar?
Futebol defensivo é uma sequência de responsabilidades.
O gol normalmente aparece no final de uma cadeia de erros.
Por isso o trabalho de Jardim precisa ser coletivo.
O segundo tempo virou um enorme sinal de alerta
Existe outro dado que me preocupa ainda mais.
Dos sete gols sofridos pelo Flamengo nos últimos oito jogos, seis aconteceram no segundo tempo.
Apenas um saiu antes do intervalo.
É muita coisa.
Três desses sete gols foram sofridos entre os 46 e os 60 minutos.
Ou seja, justamente no momento em que o time volta do vestiário.
Outros três aconteceram mais tarde na segunda etapa.
Isso nos obriga a fazer uma pergunta:
Por que o Flamengo está perdendo tanta consistência depois do intervalo?
É físico?
Pode ser em parte.
É mental?
Também pode ser.
É uma questão de ajuste do adversário que Jardim demora a responder?
Precisa ser analisado.
É relaxamento depois de conseguir vantagem?
Em alguns jogos, parece claramente existir.
Provavelmente não existe uma única resposta.
Mas existe um padrão.
E quando o padrão começa a se repetir, deixa de ser coincidência.
Cruzeiro escancarou o problema
A última partida foi talvez o exemplo mais claro.
O Flamengo fez um primeiro tempo muito competitivo no Mineirão.
Saiu na frente.
Criou.
Teve chances para ampliar.
Parecia controlar o jogo.
Depois do intervalo, tudo mudou.
O Cruzeiro havia finalizado sete vezes durante o primeiro tempo.
No segundo, finalizou 17 vezes.
Dezessete.
São dez finalizações a mais em apenas 45 minutos.
Isso não é simplesmente um adversário crescendo.
É o Flamengo perdendo completamente o controle que tinha construído.
E terminou exatamente como outras partidas recentes terminaram.
Com pontos escapando depois de o Flamengo abrir o placar.
O próprio Jardim falou em erros infantis
Depois do jogo, Jardim usou uma expressão bastante forte.
Falou em “perdas de bolas até infantis”.
E eu concordo.
Existem momentos em que o Flamengo entrega a bola de uma maneira que não corresponde ao nível técnico desse elenco.
Na minha época, a gente chamava isso de erro de time “chupetinho”.
Aquele time de criança que recebe a bola e perde porque o adversário simplesmente chega mais forte, toma e vai embora.
É evidente que estou exagerando para ilustrar.
Estamos falando de jogadores de altíssimo nível.
Mas justamente por serem jogadores desse nível, determinados erros chamam ainda mais atenção.
Não pode ser tão simples tomar a bola do Flamengo em determinadas zonas do campo.
Não pode ser tão simples chegar à entrada da área.
Não pode ser tão simples cortar para dentro e finalizar.
Não pode ser tão simples colocar uma bola na área e encontrar alguém livre.
São situações treináveis.
O Flamengo também precisa aprender a ganhar quando joga mal
Existe ainda outro ponto fundamental.
Nem todo jogo será uma goleada.
Nem toda partida será bonita.
Nem sempre Arrascaeta estará inspirado.
Nem sempre Pedro terá três oportunidades claras.
Nem sempre o Flamengo conseguirá controlar o adversário durante os 90 minutos.
Um candidato ao título precisa saber vencer também nesses dias.
Fazer 1 a 0.
Fechar espaços.
Diminuir o ritmo.
Fazer o adversário correr.
Administrar posse.
Controlar emocionalmente o jogo.
Se for necessário sofrer durante dez minutos, sofrer.
Isso também é futebol.
E talvez seja uma das coisas que este Flamengo mais precise recuperar.
O levantamento do Fla Opina mostrou o tamanho do problema
A matéria exclusiva que publicamos nesta manhã ajuda a colocar essa discussão em perspectiva.
O levantamento do Fla Opina mostrou que o Flamengo já deixou 12 pontos escapar no Campeonato Brasileiro em partidas nas quais chegou a estar vencendo.
Foram três empates e duas derrotas depois de sair na frente.
Doze pontos.
Hoje a diferença para o Palmeiras é de seis.
É claro que futebol não permite simplesmente pegar esses 12 pontos e adicioná-los à tabela.
Mas o número mostra uma coisa.
O Flamengo está desperdiçando vantagens.
E isso tem ligação direta com a capacidade de controlar partidas.
O time consegue chegar ao gol.
Consegue construir superioridade.
Mas não consegue sempre proteger aquilo que conquistou.
Na reta decisiva de um campeonato, isso custa caro.
Muito caro.
Jardim agora tem cinco sessões para trabalhar
É por isso que essa semana se torna tão importante.
Leonardo Jardim terá cinco treinamentos antes de enfrentar o Botafogo.
Não vai resolver todos os problemas do Flamengo em cinco treinos.
Seria absurdo exigir isso.
Mas precisa haver sinais.
Mais concentração na entrada do segundo tempo.
Mais proteção na entrada da área.
Mais pressão sobre o jogador que prepara a finalização.
Melhor controle dos cruzamentos.
Mais organização depois da perda da bola.
Menos erros de passe em regiões perigosas.
E principalmente uma equipe capaz de manter durante 90 minutos os conceitos que apresenta durante determinados períodos.




