Quando o Flamengo reuniu no mesmo elenco Erick Pulgar, Jorginho, Lucas Paquetá e Arrascaeta, a possibilidade de ver os quatro atuando juntos rapidamente passou a fazer parte do imaginário do torcedor.

Experiência internacional, qualidade técnica, capacidade de construção, intensidade e jogadores capazes de decidir partidas.

No papel, parecia um dos meios-campos mais fortes do futebol sul-americano.

Na prática, porém, essa formação quase não existiu.

Os quatro jogadores estiveram simultaneamente em campo em apenas quatro partidas durante toda a temporada de 2026.

Somados, foram somente 175 minutos juntos.

Mais surpreendente ainda: o quarteto começou uma partida como titular apenas uma vez.

E desde o dia 11 de março, na vitória por 2 a 0 sobre o Cruzeiro pelo Campeonato Brasileiro, Pulgar, Jorginho, Paquetá e Arrascaeta não dividem novamente o campo ao mesmo tempo.

Apenas quatro jogos com os quatro juntos

A primeira aparição aconteceu na Supercopa do Brasil, diante do Corinthians.

Naquela ocasião, Paquetá começou no banco e entrou durante o segundo tempo. O quarteto permaneceu junto por apenas 11 minutos, até Arrascaeta deixar o gramado.

Depois, os quatro voltaram a dividir o meio-campo contra o Lanús, pela Recopa Sul-Americana.

A terceira oportunidade ocorreu diante do Fluminense.

Mas foi somente contra o Cruzeiro, em março, que o Flamengo iniciou uma partida com os quatro entre os titulares.

Naquela vitória por 2 a 0, o quarteto permaneceu junto por 77 minutos, até Paquetá ser substituído por Carrascal.

Foi também a experiência mais longa da formação.

Desde então, passaram-se mais de cinco meses sem que Leonardo Jardim ou seu antecessor conseguissem repetir a combinação.

Lesões impediram qualquer sequência

Não existe apenas uma razão para explicar a ausência do quarteto.

Uma das principais é física.

Os quatro jogadores passaram pelo departamento médico em momentos diferentes da temporada.

Jorginho perdeu seis partidas em fevereiro devido a uma lesão na coxa esquerda. Mais tarde, em abril, voltou a ficar fora por quatro jogos após sofrer um problema na panturrilha direita.

Pulgar também enfrentou um período considerável de ausência. O chileno ficou aproximadamente um mês fora e perdeu 13 partidas por causa de uma lesão no ombro direito.

A situação de Arrascaeta foi ainda mais complicada.

O uruguaio sofreu uma fratura na clavícula no fim de abril e acabou perdendo todo o restante do primeiro semestre.

Paquetá, por sua vez, sofreu uma lesão na coxa esquerda durante a Copa do Mundo e também desfalcou a equipe por quatro partidas depois do retorno ao Flamengo.

Na prática, quando um jogador voltava a ficar disponível, outro frequentemente estava em recuperação.

Essa sucessão de problemas físicos praticamente impediu que a comissão técnica pudesse testar a formação com continuidade.

O problema agora passa a ser tático

Com os jogadores voltando a ficar disponíveis, entretanto, surge outra questão.

Onde colocar cada um deles?

Pulgar possui características importantes na proteção da defesa e na saída de bola.

Jorginho é responsável pela organização e pelo controle do ritmo da equipe.

Arrascaeta funciona melhor próximo ao ataque, recebendo entre as linhas e participando diretamente da criação.

E é justamente Paquetá quem cria o maior quebra-cabeça.

Quando utilizado aberto pelo lado direito, o camisa 20 não conseguiu apresentar o mesmo rendimento demonstrado quando atua por dentro.

Como segundo volante, Paquetá participa mais da construção, pisa na área, aproxima-se de Arrascaeta e consegue utilizar melhor sua capacidade física e técnica.

O problema é que essa posição também é ocupada por Jorginho.

Ou seja: para colocar os quatro juntos, Leonardo Jardim precisa encontrar uma maneira de utilizar Paquetá sem retirar dele aquilo que o torna um dos jogadores mais importantes do elenco.

Jorginho recuperou espaço

A discussão ganhou ainda mais força recentemente porque Jorginho voltou a apresentar bom rendimento.

Nos confrontos contra o Cruzeiro pela Libertadores, o experiente meio-campista demonstrou novamente capacidade para controlar o jogo e organizar a saída rubro-negra.

Ao mesmo tempo, Paquetá também disputa espaço nas regiões centrais do campo.

Nas partidas recentes, Leonardo Jardim chegou a utilizar Paquetá entrando no lugar de Arrascaeta — e também realizou o movimento contrário.

Esse cenário mostra que, atualmente, o treinador parece enxergar os dois jogadores como alternativas em determinadas situações, e não necessariamente como peças obrigatórias de uma mesma formação.

Arrascaeta e Paquetá juntos ainda são importantes

Apesar da dificuldade de encaixe, Arrascaeta e Paquetá possuem características capazes de aumentar consideravelmente a criatividade da equipe.

Contra o Cruzeiro, os dois voltaram a iniciar juntos uma partida.

O resultado não foi positivo para o Flamengo, mas a dupla já havia construído um retrospecto favorável anteriormente.

Antes da derrota, Arrascaeta e Paquetá tinham atuado juntos em partidas contra Cruzeiro, Fluminense, Independiente Medellín, Bahia e Corinthians, acumulando quatro vitórias e um empate.

Isso mostra que a questão não é simplesmente escolher um ou outro.

O desafio é encontrar um equilíbrio que permita utilizar o máximo de talento possível sem comprometer o funcionamento coletivo.

O Flamengo precisa escolher entre nomes e funcionamento

Elencos fortes criam problemas que equipes com menos opções normalmente não enfrentam.

Quando existem jogadores de nível semelhante disputando as mesmas zonas do campo, o treinador precisa tomar decisões que inevitavelmente deixarão algum nome importante fora.

Leonardo Jardim tem Pulgar, Jorginho, Paquetá e Arrascaeta.

Além deles, ainda existem outras alternativas para o setor.

A pergunta, portanto, não é apenas se os quatro possuem qualidade para atuar juntos.

Isso parece evidente.

A verdadeira questão é: o Flamengo funciona melhor com os quatro simultaneamente?

Essa resposta ainda não existe porque a amostragem é pequena demais.

Foram apenas 175 minutos.