A crise de resultados do Palmeiras não é a única preocupação que circula nos bastidores do clube. Enquanto Abel Ferreira concentra boa parte das críticas públicas depois da perda da liderança do Brasileirão para o Flamengo, outro assunto voltou a ganhar força entre conselheiros: a aproximação da família de Leila Pereira com o Vasco e a tentativa de aquisição da SAF cruz-maltina por Marcos Lamacchia.

A informação foi publicada nesta quarta-feira, 9 de setembro, pelo colunista Danilo Lavieri, do UOL. Segundo a apuração, o tema, que já vinha sendo discutido internamente, voltou a ferver depois da instabilidade esportiva do Palmeiras, da derrota para o Vasco na final do Brasileirão Sub-20 e da proximidade de um confronto entre os dois clubes pela Copa do Brasil.

Marcos Lamacchia é filho de José Roberto Lamacchia, marido de Leila Pereira. Ele lidera a Almirante Participações, grupo que tenta adquirir a nova SAF do Vasco. A ligação familiar e empresarial passou a ser questionada com mais força dentro do Palmeiras justamente porque os clubes não são apenas concorrentes no mercado: disputam as mesmas competições e podem se enfrentar em partidas decisivas.

Segundo Lavieri, alguns conselheiros já passaram da discussão interna para cobranças diretas a Leila e a José Roberto Lamacchia, que também é conselheiro do Palmeiras. Até entre aliados da presidente existe preocupação com o desgaste de imagem caso a operação avance.

O Palmeiras foi procurado pelo UOL e não se manifestou sobre o tema.

O ponto que incomoda dentro do Palmeiras

Uma das perguntas que circulam nos bastidores é simples e desconfortável: o que aconteceria se o Vasco eliminasse o Palmeiras com participação decisiva de um jogador cuja contratação tivesse sido viabilizada com apoio financeiro de empresas ligadas à família de Leila?

A questão não é apenas hipotética do ponto de vista financeiro. A Crefisa, empresa do conglomerado da família, já havia emprestado R$ 80 milhões ao Vasco em 2025 e aparecia como garantidora na estrutura da operação analisada para a SAF.

Por isso, em 27 de agosto, a Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol abriu o primeiro Procedimento de Verificação de Conflito de sua história. Como medida cautelar, Vasco e Palmeiras ficaram impedidos de negociar jogadores entre si, realizar operações financeiras conjuntas, compartilhar estruturas, profissionais, sistemas ou informações sensíveis durante a apuração.

Também foram vedadas novas operações de crédito ao Vasco por empresas do grupo ligado à Crefisa e à Crefipar.

A medida, porém, não significa que a agência tenha concluído que existe uma infração. O procedimento foi aberto justamente para verificar se há influência cruzada ou risco de conflito incompatível com as regras do futebol brasileiro.

Operação da SAF continua andando

Enquanto a discussão cresce no Palmeiras, a tentativa de compra do Vasco continua avançando na esfera empresarial e judicial.

Na terça-feira, 8 de setembro, a Almirante Participações apresentou novos ajustes à proposta vinculante pela SAF. Entre as mudanças está o compromisso de substituir uma garantia da Crefisa por fiança bancária ou seguro garantia de R$ 324 milhões, caso o grupo seja vencedor do processo competitivo.

A proposta também prevê que um eventual empréstimo de até R$ 150 milhões seja convertido em sinal da operação e estabelece outros mecanismos destinados a garantir o pagamento das obrigações da Recuperação Judicial do Vasco.

Na prática, a estrutura está sendo ajustada para responder aos questionamentos feitos pela Justiça e pelos órgãos responsáveis pela fiscalização.

Isso não encerra, porém, o debate político dentro do Palmeiras.

Bap já havia levantado o problema

O Flamengo acompanha o caso com interesse desde antes da atual pressão interna no Palmeiras.

Em junho, o presidente rubro-negro, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, afirmou que recorreria à Justiça caso Marcos Lamacchia concretizasse a compra da SAF do Vasco. O dirigente questionou publicamente a possibilidade de integrantes de uma mesma estrutura familiar manterem influência relevante sobre dois clubes que disputam as mesmas competições.

A posição do Flamengo não decide a legalidade da operação. Essa avaliação cabe às autoridades e aos órgãos reguladores.

Mas mostra que a questão ultrapassou os limites de Palmeiras e Vasco há meses.

Agora, pela primeira vez, a resistência ganha peso dentro do próprio clube presidido por Leila.

Até a roupa virou assunto

O ambiente está tão sensível que até uma situação sem relação comprovada com a SAF ganhou repercussão.

Na terça-feira, Leila apareceu no CT do Palmeiras vestida de vermelho e preto, pouco depois de o Flamengo assumir a liderança do Brasileirão. Parte dos torcedores associou imediatamente as cores ao rival e criticou a escolha.

Não existe qualquer evidência de que tenha sido provocação, mensagem política ou ação de marketing.

A repercussão serve, na verdade, para mostrar o nível de tensão em torno da presidente neste momento: detalhes que em outra fase provavelmente passariam despercebidos agora se transformam em debate.

O assunto central, porém, é muito maior do que a cor de uma roupa.

O que está em jogo é até onde pode ir a ligação empresarial de uma família diretamente conectada à presidência de um grande clube quando outro integrante dessa mesma família tenta assumir o controle de um adversário direto.