Eu venho falando há meses, nas matérias e nos canais do Fla Opina, sobre a negociação envolvendo a SAF do Vasco e a família Lamacchia.

E quanto mais esse processo avança, mais uma pergunta precisa ser feita: onde termina uma negociação empresarial legítima e começa um conflito de interesses capaz de colocar em dúvida a independência entre dois clubes que disputam as mesmas competições?

Marcos Faria Lamacchia, enteado de Leila Pereira e filho de José Roberto Lamacchia, lidera a Almirante Participações, grupo interessado na aquisição de 90% da SAF vascaína.

José Roberto, marido da presidente do Palmeiras e fundador da Crefisa, participa da estrutura da negociação como avalista.

Esse é o ponto que torna impossível tratar o negócio simplesmente como “um empresário comprando um clube”.

Estamos falando de uma família diretamente ligada à presidente de um dos maiores clubes do Brasil tentando assumir o controle de outro gigante que disputa Brasileirão, Copa do Brasil, mercado de transferências e vagas internacionais contra o próprio Palmeiras.

Leila afirma que não participa da negociação. E é importante registrar isso.

Mas o problema do conflito de interesses não depende necessariamente de ela aparecer numa reunião negociando pessoalmente a SAF.

O debate é muito maior.

A própria Anresf viu motivo para investigar

A Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol, a Anresf, abriu procedimento formal para analisar justamente a possibilidade de conflito de propriedade e influência cruzada.

Enquanto o caso é analisado, o Vasco ficou impedido cautelarmente de manter determinadas relações comerciais com o Palmeiras e com empresas relacionadas ao grupo da família Lamacchia.

Isso inclui negociação de jogadores entre Vasco e Palmeiras e novos empréstimos relacionados à Crefisa.

A decisão não significa que a operação tenha sido considerada ilegal.

Mas significa algo muito importante: a dúvida é suficientemente séria para que o órgão responsável pela fiscalização do futebol brasileiro tenha decidido intervir antes da conclusão do negócio.

As imagens também alimentam a discussão

Em agosto, antes de Palmeiras x Vasco, Marcos Lamacchia apareceu no gramado vestindo a camisa vascaína.

Mais tarde, houve uma troca simbólica de camisas com Leila Pereira. A presidente do Palmeiras recebeu uma camisa do Vasco, enquanto Marcos recebeu uma do Palmeiras.

Pode ter sido apenas uma cordialidade institucional.

Mas é impossível ignorar o contexto.

Naquele momento, Marcos já negociava a compra da SAF vascaína. Palmeiras e Vasco entrariam em campo como adversários minutos depois.

Esse tipo de imagem inevitavelmente cria perguntas.

Não necessariamente porque houve qualquer favorecimento esportivo — não existe prova disso —, mas porque dirigentes também precisam compreender que a aparência de independência institucional é parte da credibilidade de uma competição.

E agora o desconforto chegou ao Palmeiras

O fato novo desta semana torna tudo ainda mais relevante.

Segundo apuração de Danilo Lavieri, do UOL, o possível conflito envolvendo Vasco e família Lamacchia voltou a ser discutido com força dentro do Conselho do Palmeiras.

E não apenas por opositores.

Há aliados de Leila preocupados com o desgaste que a operação pode causar à própria presidente e à imagem do clube.

Uma pergunta passou a circular entre conselheiros: como ficaria o ambiente se o Vasco eliminasse o Palmeiras em uma partida decisiva com participação de jogadores contratados dentro de uma estrutura financeira ligada ao mesmo grupo familiar?

A pergunta pode ser hipotética.

O desconforto, não.

Leila sempre defendeu as SAFs

Existe ainda outro elemento que precisa fazer parte dessa discussão.

Leila Pereira já declarou diversas vezes ser favorável ao modelo das SAFs e crítica ao formato associativo tradicional.

Em maio, chegou a defender que quem considerasse elevada a tributação sobre associações poderia transformar seu clube em SAF.

Posteriormente, disse que não pretende transformar o Palmeiras durante seu mandato, mas admitiu que, no futuro, poderia tornar-se proprietária de um clube.

Não há problema algum em defender SAF.

O debate começa quando os interesses empresariais de pessoas tão próximas à presidente de um clube passam a se encontrar com os interesses esportivos de outro clube concorrente.

A solução é muito mais simples do que parece

Na minha opinião, não deveríamos sequer chegar ao ponto de discutir durante meses se determinado passe, empréstimo, contratação ou resultado esportivo ocorreu dentro de um ambiente completamente independente.

Futebol precisa eliminar a dúvida antes que ela apareça.

Se a família Lamacchia deseja assumir a SAF do Vasco, existe uma solução institucional muito simples para afastar qualquer questionamento relevante:

Leila Pereira deixa a presidência do Palmeiras.

O próprio Danilo Lavieri colocou essa hipótese de forma direta nesta quarta-feira: se a família quer avançar no Vasco, Leila pode renunciar ao Palmeiras e eliminar boa parte do conflito político e institucional criado pela operação.

Não significa acusá-la de favorecer ninguém.

Significa proteger os clubes e proteger a competição.