Leonardo Jardim no Flamengo tem um desafio que vai muito além de montar escalações: gerir um elenco recheado de estrelas, jogadores experientes e atletas acostumados a grandes clubes. Ter um grande elenco é privilégio. Saber administrá-lo é uma obrigação.

O Flamengo construiu um grupo com qualidade suficiente para disputar todos os títulos da temporada. Há jogadores de Seleção, campeões de Libertadores, Champions League, atletas que passaram por gigantes europeus e outros que ainda carregam a ambição de serem protagonistas.

No papel, parece o cenário ideal.

Na prática, pode se transformar rapidamente em um barril de pólvora.

É justamente aí que começa uma das funções mais importantes de Leonardo Jardim no Flamengo. Mais do que escolher onze jogadores, desenhar um sistema ou preparar uma estratégia para o próximo adversário, o português precisa gerir pessoas.

E talvez essa seja uma das tarefas mais difíceis de seu trabalho.

Um elenco grande também produz insatisfeitos

Não existe elenco recheado sem jogador insatisfeito.

Se existem 25 ou 30 atletas de alto nível e apenas 11 podem começar uma partida, alguém importante necessariamente ficará no banco.

O problema começa quando aquele que fica de fora também possui currículo, ambição e motivos para acreditar que deveria estar jogando.

O Flamengo já viveu diferentes versões desse cenário nos últimos meses.

Everton Cebolinha deixou o clube e acertou com o Santos depois de perder espaço. O atacante admitiu publicamente que estava chateado com sua situação e que buscava novamente protagonismo. O próprio Flamengo confirmou que a saída ocorreu depois de um pedido do atleta.

Nicolás De la Cruz também teve o futuro discutido. O Peñarol abriu conversas para tentar levá-lo de volta ao Uruguai, e o presidente do clube confirmou que o jogador tinha interesse em passar um período novamente em seu país, especialmente diante da dificuldade para conseguir sequência no Flamengo.

Agora surgiu Saúl Ñíguez.

O espanhol retornou depois de uma temporada duramente afetada por problemas físicos. Passou por cirurgia no início do ano, voltou a jogar, sofreu novo problema e ficou 95 dias sem atuar antes de reaparecer diante do Mirassol.

Quando conseguiu retornar, encontrou um Flamengo diferente.

O elenco havia mudado, a concorrência aumentara e Saúl já não tinha o espaço que imaginava possuir.

A insatisfação apareceu.

E, então, apareceu também uma saída possível.

Saúl mostrou por que gestão também ganha jogador

O América do México procurou o Flamengo no último dia da janela e apresentou uma proposta de empréstimo por Saúl até junho de 2027. Clube e jogador acabaram recusando a operação.

Mas existe uma diferença importante entre simplesmente permanecer porque uma negociação fracassou e permanecer porque o treinador convenceu o jogador de que ainda existe um projeto para ele.

Segundo apuração do Fla Opina, Leonardo Jardim chamou Saúl para uma conversa.

O treinador explicou que conta com sua experiência, considera sua qualidade importante para o grupo e acredita que ele ainda terá oportunidades na temporada.

Para um jogador que estava frustrado exatamente pela falta de minutos, essa conversa teve peso.

Saúl resolveu ficar.

Isso é gestão.

Jardim não precisou prometer uma vaga entre os titulares. Seria um erro fazer isso. Um técnico não pode oferecer aquilo que depende do rendimento de cada semana.

Mas podia oferecer algo igualmente importante: clareza.

Dizer ao jogador onde ele está, o que espera dele e mostrar que sua permanência não significa simplesmente ocupar um espaço no banco.

Para quem está ficando de fora, às vezes essa conversa é tão importante quanto uma escalação.

O treinador precisa cuidar também de quem não joga

Existe uma tendência no futebol de avaliar treinadores apenas pelos jogadores escolhidos.

Mas, num elenco como o Flamengo, talvez seja necessário avaliar também como ele administra os que não escolhe.

O titular normalmente está satisfeito.

O verdadeiro desafio está no banco.

É conversar com o jogador experiente que acredita que merece atuar. É administrar o jovem que está pedindo passagem. É convencer um atleta com história no futebol europeu de que ainda terá importância mesmo sem começar todas as partidas.

É também saber quando liberar.

Cebolinha entendeu que precisava sair para voltar a ser protagonista. O Flamengo permitiu. Nem toda gestão precisa terminar com o jogador permanecendo.

Em outros casos, como o de Saúl, preservar o atleta pode ser mais interessante.

O grande gestor precisa reconhecer essa diferença.

Danilo mostra que reserva não significa irrelevância

Danilo talvez seja um dos melhores exemplos dentro do próprio Flamengo.

Aos 35 anos, não precisa começar todas as partidas para justificar sua presença no elenco.

O zagueiro já atuou por Real Madrid, Manchester City e Juventus, disputou Copas do Mundo pela Seleção Brasileira e carregou durante anos a pressão do futebol europeu.

No Flamengo, acrescentou algo que nenhum currículo estrangeiro poderia garantir: decidiu uma Libertadores.

Foi dele o gol que deu ao clube o tetracampeonato continental contra o Palmeiras em 2025.

Agora, o Flamengo encaminha sua renovação até o fim de 2027. O próprio jogador revelou que faltam poucos detalhes para a assinatura.

Danilo não precisa jogar 60 partidas.

Pode passar jogos no banco e continuar sendo extremamente importante para o grupo.

Um jogador com sua trajetória, que entende o momento da carreira e aceita a disputa sem transformar a reserva em conflito, ajuda também o treinador a administrar o vestiário.

Lideranças desse tipo funcionam como extensões da comissão técnica.

Porque gestão de elenco não é responsabilidade apenas de quem está com a prancheta.

Também depende daqueles que possuem voz dentro do grupo.

O Flamengo não é um clube simples de administrar

Talvez seja esse o ponto central.

O Flamengo não é apenas um time de futebol com bons jogadores.

Estamos falando de um clube gigantesco, com enorme exposição, cobrança diária, torcida numerosa e um elenco milionário formado por atletas que passaram a carreira inteira sendo protagonistas.

Qualquer pequena insatisfação ganha dimensão.

Um jogador que fica três partidas sem atuar vira pauta.

Uma substituição gera debate.

Uma declaração atravessada pode se transformar em crise.

Um reserva insatisfeito pode rapidamente contaminar um ambiente inteiro.

Por isso, um treinador de Flamengo precisa entender de futebol, mas precisa entender também de gente.

Precisa perceber quando conversar.

Quando cobrar.

Quando proteger.

Quando oferecer confiança.

Quando dizer não.

E, em alguns momentos, quando aceitar que determinado jogador precisa seguir outro caminho.

Leonardo Jardim terá de fazer isso repetidamente enquanto comandar esse elenco.

Um grande elenco exige um grande gestor

O Flamengo possui aquilo que praticamente todo treinador gostaria de ter: opções.

O problema é que opções também significam escolhas.

E toda escolha deixa alguém de fora.

É aí que um trabalho pode começar a ruir mesmo quando a equipe continua vencendo.

Manter o jogador que não está atuando comprometido talvez seja uma das maiores virtudes de um treinador moderno.

O episódio de Saúl é um bom exemplo.

O espanhol poderia ter ido embora insatisfeito. Havia uma proposta concreta e uma razão esportiva para considerar a saída.

Jardim decidiu intervir.

Conversou.

Explicou.

Mostrou confiança.

E convenceu o jogador a continuar.

Agora terá de cumprir a outra parte dessa gestão: encontrar oportunidades reais para que Saúl volte a se sentir participante do projeto.

Esse equilíbrio será permanente.

Porque o Flamengo tem estrelas demais para imaginar que todas estarão felizes o tempo inteiro.

E talvez seja exatamente por isso que o clube precise mais do que um bom treinador.

Precisa de um grande gestor.

Afinal, como sempre digo, o Flamengo é um barril de pólvora.