Luka Modric já viveu praticamente tudo com a camisa da Croácia. Disputou finais, decidiu grandes jogos, levou seu país a lugares que pareciam improváveis e se tornou o principal símbolo da geração mais vitoriosa da história do futebol croata.
Foi vice-campeão mundial em 2018, terceiro colocado em 2022 e finalista da Liga das Nações em 2023. Aos 41 anos, ultrapassou a marca de 200 partidas pela seleção e segue carregando a braçadeira de capitão.
Talvez justamente por isso suas palavras depois da derrota por 7 a 0 para a Inglaterra tenham pesado tanto.
A Croácia não perdeu apenas uma partida da Liga das Nações em Rijeka. Sofreu a maior goleada de toda a sua história e viu um confronto que durante muitos anos foi marcado pelo equilíbrio se transformar em domínio absoluto inglês.
“Em 20 anos, é a primeira vez que sinto vergonha”, afirmou Modric.
O resultado superou o 6 a 0 sofrido diante da Espanha em 2018, que até então representava a maior derrota croata.
Mas o tamanho do problema aparece ainda melhor quando o placar é colocado dentro do histórico entre Croácia e Inglaterra.
Uma rivalidade construída em grandes jogos
Croácia e Inglaterra já se enfrentaram 13 vezes desde o primeiro encontro, em 1996.
Com o 7 a 0, os ingleses agora acumulam oito vitórias, contra três da Croácia e dois empates.
O número de gols também passou a mostrar uma diferença significativa: são 33 gols ingleses contra 15 croatas.
Nem sempre, porém, essa rivalidade teve tamanha distância.
Em diferentes momentos das últimas duas décadas, a Croácia foi justamente uma das seleções que mais provocou traumas no futebol inglês.
Um deles aconteceu em novembro de 2007.
A Inglaterra precisava apenas de um empate em Wembley para garantir classificação para a Eurocopa de 2008.
Perdeu por 3 a 2.
A Croácia abriu 2 a 0, viu os ingleses buscarem o empate e marcou o gol decisivo com Mladen Petric aos 77 minutos.
O resultado eliminou a Inglaterra da Euro e posteriormente também custou o emprego do técnico Steve McClaren.
Foi uma das derrotas mais dolorosas da seleção inglesa naquele período.
Onze anos depois, outro golpe ainda maior.
Croácia tirou a Inglaterra de uma final de Copa
Na Copa do Mundo de 2018, as duas seleções se encontraram na semifinal.
A Inglaterra abriu o placar com Kieran Trippier logo aos cinco minutos e chegou a enxergar a possibilidade de voltar a uma final de Mundial depois de décadas.
A Croácia reagiu.
Ivan Perisic empatou no segundo tempo e Mario Mandzukic marcou na prorrogação.
Croácia 2 a 1.
Pela primeira vez em sua história, o país chegava à final de uma Copa do Mundo.
Para a Inglaterra, novamente a Croácia aparecia no caminho em um dos momentos mais importantes de sua história recente.
A relação de forças, no entanto, começou a mudar depois daquela semifinal.
Inglaterra virou a rivalidade
Após a vitória croata na Copa de 2018, os países voltaram a se enfrentar ainda naquele ano pela Liga das Nações.
O primeiro jogo terminou empatado em 0 a 0.
No segundo, a Inglaterra venceu por 2 a 1 em Wembley.
Depois disso, a Croácia não conseguiu mais derrotar os ingleses.
Na Euro 2020, disputada em 2021 por causa da pandemia, a Inglaterra venceu por 1 a 0 em Wembley.
Em junho deste ano, veio outro encontro de enorme peso.
Na Copa do Mundo de 2026, Inglaterra e Croácia voltaram a se enfrentar e os ingleses venceram por 4 a 2.
Agora veio o 7 a 0.
Isso significa que, depois do empate de 2018, a Inglaterra venceu os últimos quatro confrontos consecutivos.
E existe um número ainda mais impressionante.
Somente nos dois jogos disputados entre as seleções em 2026, a Inglaterra marcou 11 gols.
A Croácia fez apenas dois.
O que já havia sido uma rivalidade equilibrada começa a apresentar uma diferença cada vez maior.
Uma noite em que praticamente nada funcionou
O 7 a 0 em Rijeka foi a expressão máxima dessa mudança.
Harry Kane e Bukayo Saka marcaram duas vezes cada.
Jude Bellingham fez um gol e participou diretamente de outros três com assistências.
Anthony Gordon e Morgan Rogers completaram a goleada.
A Inglaterra controlou praticamente todos os aspectos da partida.
A Croácia não conseguiu proteger seu meio-campo, deixou espaços defensivos, perdeu duelos e em nenhum momento apresentou capacidade real de reagir ao crescimento do placar.
Modric foi direto ao analisar a atuação.
Para o capitão, uma derrota pode acontecer, especialmente diante de uma seleção superior em determinada noite.
O que não pode acontecer é perder daquela maneira.
O camisa 10 reclamou da falta de agressividade, união e espírito de luta e demonstrou preocupação principalmente com a reputação construída pela Croácia ao longo de tantos anos.
E esse talvez seja o ponto central.
A Croácia deixou de ser surpresa há muito tempo
Durante muitos anos, a Croácia foi tratada como uma seleção pequena capaz de surpreender adversários maiores.
Essa definição já não corresponde à história recente.
A geração liderada por Modric mudou completamente o patamar do país.
Na Copa de 2018, a Croácia eliminou Dinamarca, Rússia e justamente a Inglaterra antes de perder a final para a França.
Quatro anos depois, no Catar, voltou a alcançar as semifinais e terminou o Mundial em terceiro lugar.
Em 2023, chegou à decisão da Liga das Nações e só perdeu o título para a Espanha nos pênaltis.
Não foram resultados isolados.
A Croácia construiu uma identidade.
Mesmo quando enfrentava seleções com mais recursos e jogadores mais caros, raramente era um adversário simples.
Era organizada, tecnicamente forte no meio-campo e extremamente difícil de eliminar.
A derrota por 7 a 0 atingiu justamente essa imagem.
Não foi apenas a Inglaterra vencendo a Croácia.
Foi a Inglaterra desmontando uma seleção que passou mais de uma década construindo reputação de competitividade.
Onze gols sofridos em dois jogos
O problema também não começou contra os ingleses.
Antes dos sete gols sofridos diante da Inglaterra, a Croácia havia sido derrotada por 4 a 1 pela Espanha.
São, portanto, 11 gols sofridos em apenas duas partidas.
E não contra adversários quaisquer.
Espanha e Inglaterra estão entre as seleções mais fortes do continente e representam exatamente o nível de oposição que a Croácia precisará enfrentar se quiser continuar ocupando o espaço conquistado durante a geração de Modric.
Contra elas, porém, a diferença nesta sequência foi enorme.
O que poderia ser interpretado como uma noite ruim diante da Espanha tornou-se algo mais preocupante depois do 7 a 0.
A defesa sofreu.
O meio-campo não conseguiu controlar os jogos.
E a capacidade de competir durante 90 minutos desapareceu.
Modric ainda carrega a seleção aos 41 anos
Existe também um simbolismo inevitável nessa situação.
Modric tem 41 anos.
São mais de duas décadas vestindo a camisa da Croácia e mais de 200 partidas pela seleção.
Ele participou praticamente de todo o processo que transformou o país em uma potência competitiva do futebol internacional.
Muitos companheiros daquela geração já se despediram ou perderam protagonismo.
Modric permaneceu.
Continua usando a camisa 10.
Continua sendo capitão.
Continua sendo a principal referência técnica e emocional.
E continua sendo o jogador procurado para explicar uma derrota histórica.
Isso demonstra a dimensão de Modric.
Mas também revela um problema.
A Croácia ainda não encontrou jogadores capazes de assumir completamente o espaço ocupado pela geração que chegou à final da Copa de 2018.
Nenhuma geração dura para sempre.
E talvez o 7 a 0 tenha tornado essa discussão impossível de adiar.
De algoz a vítima de uma Inglaterra diferente
A história dos confrontos mostra também o tamanho da transformação inglesa.
A seleção que saiu de Wembley eliminada pela Croácia em 2007 e voltou a sofrer diante dos croatas na semifinal da Copa de 2018 passou a controlar a rivalidade.
Desde aquela semifinal em Moscou, os croatas não venceram mais.
A Inglaterra empatou uma vez e ganhou os quatro encontros seguintes.
A sequência inclui Eurocopa, Liga das Nações e duas Copas do Mundo.
E a diferença dos placares cresceu.
De 2 a 1 para 1 a 0.
Depois, 4 a 2.
Agora, 7 a 0.
A Inglaterra que durante anos carregou a Croácia como uma espécie de pedra no sapato hoje encontra nessa mesma rivalidade um dos símbolos da evolução de sua geração.
Para os croatas, o movimento foi inverso.
Uma seleção acostumada a desafiar gigantes agora precisa provar que ainda consegue competir com eles.
A maior derrota deixa uma cicatriz
Uma goleada de 7 a 0 não desaparece simplesmente com uma vitória na partida seguinte.
Ela entra para a história.
Até este jogo, a maior derrota da Croácia havia sido o 6 a 0 diante da Espanha.
Agora existe um novo recorde negativo.
E aconteceu diante de um adversário com quem os croatas construíram alguns dos capítulos mais marcantes de sua história recente.
É por isso que a declaração de Modric não pode ser analisada apenas como uma frase forte depois de uma derrota.
Quando ele fala em vergonha, está comparando aquela atuação com tudo aquilo que viveu durante mais de duas décadas vestindo a camisa de seu país.
Ele esteve na Croácia que eliminou a Inglaterra em uma semifinal de Copa.
Agora esteve também na Croácia que levou sete dela.
Talvez nenhuma comparação mostre melhor o tamanho do momento vivido pela seleção.
O próximo desafio será começar a descobrir se o 7 a 0 foi o fundo do poço de uma geração em transição ou o início de uma queda mais longa.
A reputação que Modric tanto teme perder levou anos para ser construída.
Reconquistá-la começa justamente depois da noite mais pesada da história da Croácia.




